mais de 8 mil desabrigados e desalojados
Título: mais de 8 mil pessoas desabrigadas e desalojadas
Maria Tereza do Vale Oliveira, de 75 anos, tentou. Ela não queria deixar sua casa, sua história, afinal, e resultado de muita luta. Mas não sobrou alternativa. Naquela segunda-feira, 23 de fevereiro deste ano, a chuva recorde colocou a senhora na rua.
“Eu vi a água entrando, não tinha como segurar. Vi o botijão de gás boiando. A vizinha tentou ajudar tirando água com o balde. No dia seguinte, veio a lama”, relembra.
Oliveira é hoje, duas semanas depois, uma das 8.854 pessoas que vivem em compasso de espera, enquanto permanecem desabrigadas ou desalojadas por conta das chuvas que atingiram Juiz de Fora na última semana de fevereiro. O dado é da Prefeitura.
Por que isso importa?
- O recorde de chuvas em Juiz de Fora — o maior em 65 anos — é um alerta não só para a cidade, mas para todo o país, já que o Brasil tem mais de 1,6 mil municípios com risco alto ou muito alto para chuvas, segundo dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Ela foi encaminhada para a Escola Municipal Professor Paulo Rogério de Souza, em um primeiro momento, com os poucos pertences que o filho conseguiu salvar. Oliveira convive com a neuralgia do trigêmeo, distúrbio nervoso que se caracteriza por quadros de dor aguda, conhecida por ser “a pior dor do mundo”. Outra dor que cresce, no entanto, é saber que o que levou uma vida inteira para construir corre o risco de não ter recuperação — história que ela passa pela segunda vez.


“Já ouvi: ‘não vai desmanchar esse mausoléu?’, mas esse imóvel tem um valor sentimental muito grande”, relembra. Ela já viveu em uma estrutura ainda mais simples, feita com tábuas, totalmente arruinada pelas chuvas na década de 1980. “Meu telhado foi voou longe, foi tudo embora, tudo pelos ares. Meu telhado foi parar na casa do vizinho. Tem pessoas que parecem que vêm marcadas pela tragédia”
“Quando mudei para a minha casa, meus filhos eram todos pequenos. É muito triste não saber se a gente vai ter condição de voltar para lá”, lamenta.
Do corredor que dá acesso à casa dos fundos à de Oliveira, foram retirados dois caminhões com a terra e o barro que desceram sobre a construção. Por meio dos familiares, ela conseguiu alugar outro imóvel, na mesma rua, em um ponto seguro. Eles narram que tiveram sorte, porque com a tragédia, locatários começaram a aumentar os preços dos aluguéis.
Com os contatos que fizeram, não só encontraram uma locação com valor acessível, como também contaram com a solidariedade do proprietário, que os deixou usar itens como geladeira, guarda-roupas e camas.
O Procon confirmou o recebimento de denúncias sobre os aumentos dos aluguéis e valores imobiliários adjacentes. Declarou que a prática configura crime contra a ordem econômica, além de ser uma grave violação às normas de consumo, e será apurada e punida pelo órgão.
‘Foi quando percebemos que não era uma chuva normal’
Desde o início dos registros realizados pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em 1972, este mês de fevereiro foi o mês mais chuvoso da história de Juiz de Fora, quarta maior cidade em população de Minas Gerais. O acumulado é de 752,4 mm de precipitação dado do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), sendo 230 mm concentrados apenas entre os dias 22 e 24, valor que supera o volume esperado para todo o mês.



