A encruzilhada do PT – Meio
Título: A encruzilhada do PT – Meio
O anúncio do que já se especulava desde o fim do ano passado veio na quinta-feira, durante a abertura da 17ª Caravana Federativa, em São Paulo. “Hoje, para mim, é um dia especial, um dia em que estou deixando o Ministério da Fazenda”, disse brevemente Fernando Haddad (PT). Foi o suficiente para movimentar as manchetes. Outra fala, no entanto, capturou o protagonismo, a do vice-presidente Geraldo Alckmin. “Quero, Haddad, ao abraçá-lo quando você encerra esta jornada, que é só transitória, dizer que você tem uma das raras virtudes da vida pública: a coragem da moderação. É um exemplo a todos nós que nos dedicamos a servir a população.” O antigo adversário histórico do PT colocava, ali, sobre os ombros do ex-ministro a mesma missão para a qual foi chamado ao governo há quatro anos: transformar a moderação, já marca de sua trajetória, em ativo eleitoral.
Não é um movimento ao acaso. São Paulo, berço da legenda, vem se tornando território inóspito ao petismo. Nas últimas eleições municipais, a sigla teve ali seu pior desempenho histórico. Na Grande São Paulo, tradicional reduto petista, o chamado “cinturão vermelho” conquistou apenas uma prefeitura, em Mauá, entre 39 cidades. Nem mesmo o ABC Paulista, reduto político do partido, escapou ao revés. Municípios como Santo André e São Bernardo do Campo ficaram fora do alcance petista. No interior, esse sim tradicionalmente afastado do PT e afeito aos tucanos, agora partidos de centro e direita, como PSD, MDB e PL, dominam o mapa.
Diante desse quadro, a escolha de um dos nomes mais centristas do partido para enfrentar Tarcísio de Freitas (Republicanos), o favorito, deixa uma dúvida no ar: trata-se de um movimento pontual, calibrado para o maior colégio eleitoral do país, ou de um sinal mais amplo sobre os caminhos que o PT pretende seguir? A dúvida ganha força diante de uma sequência recente de sinais contraditórios dentro do próprio partido.
Cenas de um descompasso
“Temos que intensificar a estratégia de comunicação para que a sociedade entenda o que o governo Lula está fazendo. E não entrar na linha que eles estão propondo, de pancadaria, ataque, ‘fake news’.” A declaração foi dada pelo presidente do PT, Edinho Silva, em entrevista ao Valor Econômico, no último dia 9. Em paralelo, alas do partido se inclinavam em outra direção. A própria ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, publicou uma série de vídeos nas redes sociais com ataques direcionados ao senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL).
A dissonância entre os discursos conciliadores e o tom cada vez mais combativo passou a incomodar a bancada petista no Legislativo, que parecia sem direção. Na tentativa de arrefecer o imbróglio, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), foi recrutado para alinhar a comunicação. Em reunião no Congresso Nacional, informou aos parlamentares que a estratégia havia mudado, era hora de “virar a chave”.
A orientação, segundo relatos, era partir para o ataque, inclusive com a organização de núcleos de campanha para “não deixar o Flávio correr solto”. O novo discurso passaria a enfatizar acusações como o caso das rachadinhas, a homenagem a Adriano da Nóbrega, a compra de uma mansão com pagamento em dinheiro vivo financiada pelo BRB e até seus dois batismos no Rio Jordão.
A última semana se desenrolou já sob as novas ordens, no mesmo tom de sobressalto. Na terça-feira, o ex-ministro José Dirceu comemorou seus 80 anos em um tradicional restaurante nordestino no Lago Sul, em Brasília, cercado por familiares, ministros do governo, nomes históricos do PT, expoentes do centrão e até figuras já relegadas ao ostracismo. De Alckmin a Renan Calheiros (MDB), que precisou sair mais cedo para chegar a tempo de uma reunião do PP. De Lurian, filha de Lula, a Edinho, passando ainda por Gleisi Hoffmann e Rodrigo Maia.
Entre 20h e 22h30, Dirceu posou ininterruptamente para fotos, tocou trompete a convite do trompetista do PT, recebeu presentes que iam de garrafas de uísque a uma miniatura de estandarte com seu rosto estampado. Depois, como esperado, discursou. “Nós temos que dizer claramente para o povo brasileiro, essa não é uma campanha de Lulinha paz e amor. Essa é uma campanha que nós temos que ganhar a maioria do povo brasileiro. Eu tenho dito e repetido: uma revolução política e social”, disparou. O octogenário que orquestrou a virada do PT ao centro em 2002, articulando um candidato a vice do PL de Valdemar Costa Neto, convoca a militância a encerrar a era que inaugurou.
Enquanto celebrava sua volta ao centro do jogo político, ensaiando a pré-candidatura à Câmara, a DJ entoava na caixa de som: “És um senhor tão bonito, quanto a cara do meu filho. Tempo, tempo, tempo, tempo”. Depois, a MPB deu lugar ao samba. Zé do Caroço avisou que “está nascendo um novo líder popular” enquanto os pratos de frutos do mar e garrafas de vinho circulavam pelas mesas, tudo por conta dos convidados em comandas individuais.
A sequência de cenas sintetiza um partido dividido entre o pragmatismo eleitoral e a reafirmação de sua identidade histórica, traço que não é de hoje, lembra o cientista político Creomar de Souza. “Falando um pouco de história recente, na primeira eleição da Nova República, em 1989, o Lula concorre contra Fernando Collor e perde. Em 1994, enfrenta Fernando Henrique Cardoso e perde de novo. Em 1998, tenta mais uma vez e perde. Quando chega 2002, a contragosto do partido, Lula diz: ‘é o seguinte, eu só vou se for para ganhar. E minhas condições envolvem trazer um cara chamado Duda Mendonça e dar um recado claro à sociedade brasileira de que o PT não vai colocar fogo no parquinho. Para garantir isso, ele faz com que todo o partido fale a mesma língua, com a Carta ao Povo Brasileiro’.”
Segundo Creomar, essa trajetória deixou lições sobre o funcionamento interno do PT. “Quando Dilma ganha a primeira eleição, creio que havia uma compreensão do Lula e daqueles que eram mais próximos a ele de que essas correntes menos pragmáticas entendem o risco de forçar uma agenda além do compasso da política do dia a dia.”
Consensos, no entanto, não se estruturam facilmente em meio ao jogo vivo do poder. Sintoma disso foi o cabo de guerra pela sucessão do comando da sigla no último ano. Edinho Silva, apoiado por Lula e representante da ala mais centrista, enfrentou resistência das alas mais “raiz”, que se opõem ao governo constantemente. “Tentaram colocar o Lula contra a parede e tiveram uma amostra desse Lula mais combativo. Então, ele conseguiu fazer Edinho ser eleito presidente. Esse movimento veio no sentido de dizer: ‘Olha, eu respeito a divergência, mas na eleição eu quero sintonia do partido com o governo’. Essa sintonia está vindo, mas de forma lenta. Todos esses elementos mostram que a relação é oscilante e talvez reflita na própria dinâmica de pensar o PT pós-Lula, enquanto ele ainda está no comando.”
Um dos rivais de Edinho na corrida pela Presidência do PT foi o deputado federal Rui Falcão. Quadro histórico da legenda, ele se filiou em 1982, ajudando o partido a se estruturar enquanto partido. Já em 1993 chegou a comandá-lo, retornando ao posto de presidente de 2011 a 2017 — quando, entre Operação Lava Jato, impeachment de Dilma Rousseff e ameaça de prisão de Lula, a sigla mergulhava em sua pior crise.
Mesmo agora, diante da eleição que se aproxima, Falcão mantém suas divergências sobre os rumos do PT. Depois de uma grande digressão aos anos iniciais do partido — nos quais até mesmo um plebiscito foi conduzido por Bete Mendes no Café Piu-Piu, um expoente da boemia roqueira de São Paulo — e ao passado sindical sobre o qual o PT se consolidou, Falcão lamentou a perda de conexão com as bases sociais e a omissão diante de pautas tradicionalmente defendidas.
“Hoje nós somos um partido que se profissionalizou e burocratizou. Tem uma inação enorme. É dirigido pelo senso comum. O que eu quero dizer com isso? Você faz uma pesquisa, e, com o que o povo concorda, você cede por ocasião. Além disso, principalmente, a presença no território foi vital para o crescimento do PT, porque a política se faz no cotidiano. Agora fazemos disputa política a cada dois anos, quando as eleições se dão. Acaba a eleição, o PT se recolhe”, ponderou.
Ele defende que o partido “volte a fazer o que era seu ideário principal: um pé na institucionalidade, outro na luta social”. “‘Ser governo para, então, ser poder’, a gente dizia. O parlamento, os governos, são instrumentos de transformação, não fins. A eleição é um meio para radicalizar a democracia”. Agora, com a guinada do discurso, Falcão concorda. Sustenta que é preciso “botar sangue nos olhos do pessoal”. “O Lula até pode ser paz e amor, mas a campanha vai ser de guerra.”
Interlocutores próximos a Edinho ainda pregam cautela. “Edinho quer uma renovação no PT e também quer o partido mais conectado com as bases. Por isso mesmo, ele defende muito a secretaria de nucleação, onde o partido organiza o contato com as bases. Ele também convocou um Congresso do partido para discutir uma reforma estatutária em abril. Essa reforma é para modernizar o partido, em linhas gerais. Mas sobre ser combativo, é só olhar os discursos do Edinho. Governo tem que governar. A oposição está fazendo a parte dela de tentar adiantar o processo eleitoral e não tem porquê fazermos isso. O presidente ainda tem muita coisa para entregar. Governo governa.”
O futuro em xeque
Crise de identidade. É assim que Creomar define o dilema que atravessa as diferentes vertentes do partido. “Hoje, talvez o único elemento capaz de dar coesão ao petismo, inclusive entre suas correntes, seja a ideia de Lula. Querendo ou não, ele é a autoridade moral que se sobrepõe às disputas internas”, afirma. Em sua leitura, os movimentos recentes revelam essa dinâmica. A decisão de iniciar uma ofensiva contra Flávio Bolsonaro, por exemplo, mesmo em desacordo com a posição de Edinho, carrega um recado implícito: “gente, eu sei que não estou com vocês em todas, mas, nessa, estou”. É assim, diz ele, que Lula tem conduzido o jogo interno.
Não por acaso, descreve o método quase como um processo de depuração. “A turma se digladia e, com os sobreviventes, vai se construindo o governo”, observa. O custo, porém, se acumula. “As feridas abertas no caminho alimentam uma dificuldade de sustentação. Esse talvez seja o grande dilema do pós-Lula.”
Dilema que se impõe, também, devido ao próprio espírito do tempo. Esta tese é colocada na mesa pelo ex-ministro Ricardo Berzoini (PT), que atravessou diferentes fases dos governos petistas. “Nos anos 1980 e 1990, ainda que houvesse planejamento, havia também muita luta espontânea. Lideranças surgiam nos movimentos locais, no trabalho, na luta por terra, educação, creche, saúde. Eram formadas na base.” Com o tempo, esse ciclo alimentava a renovação partidária. “Depois de dez anos de militância, essas pessoas chegavam à direção ou disputavam mandatos. Era um processo muito intenso de renovação”, lembra. Hoje, segundo ele, a engrenagem mudou. “Essa dinâmica já não é a mesma. Inclusive porque a própria classe trabalhadora é outra.”
Se, para Berzoini, a transformação passa pela base social, para o cientista político Cesar Zucco, professor da Universidade Columbia, o fenômeno é ainda mais profundo e anterior. Ele questiona, inclusive, a própria ideia de “lulismo” como uma categoria estável.
“A gente tem claramente um voto no Lula, que sempre foi mais forte do que o voto no PT”, afirma. “Mas lulismo, entendido como um apoio incondicional, é mais difícil de identificar.” Na sua leitura, até mesmo o auge de popularidade do petista, com índices superiores a 80% de aprovação no fim dos anos 2000, não pode ser explicado apenas por esse conceito. “Aquilo era uma combinação de carisma, habilidade política e um contexto econômico muito favorável. Não era exatamente o lulismo.”
Ainda assim, há elementos de continuidade. “O que permanece é que o Lula, e o PT, dominam o campo da esquerda. Há muito pouco espaço para um candidato competitivo fora desse eixo sem o seu endosso.” Enquanto, de um lado, esse domínio se mantém, do outro o cenário mudou. “A direita, que antes não era organizada, hoje tem um polo claro. O bolsonarismo não criou o antipetismo, ele organizou algo que já existia.”
Essa reorganização ajuda a explicar também as ambiguidades na relação entre o PT e a sua base social. Para Zucco, a ideia de que o partido simplesmente perdeu contato com a classe trabalhadora é insuficiente. “Esse público sempre foi mais dividido do que parece. Pessoas muito parecidas, do ponto de vista social, podem interpretar o papel do Estado de maneiras completamente diferentes.” Entre visões de mérito, esforço e assistência, abre-se um campo em disputa permanente no qual esquerda e direita, agora mais nítidas, competem com narrativas próprias.
É nesse ponto que a análise volta ao terreno mais concreto da organização partidária. Para Berzoini, todas essas transformações se traduzem em um desafio imediato: renovar seus quadros. “Muitas das lideranças reconhecidas hoje já têm idade avançada. Costumo brincar que, dessa turma mais antiga, sou um dos mais jovens. Tenho 66 anos. O Rui está com mais de 80, o Zé tá com 80. A idade não impede, mas é óbvio que você pensa em qual será a capacidade de saúde que teremos daqui quatro anos.”



