Além do tangível – Semanário ZN
A humanidade vive uma fase de grandes contrastes. Ao mesmo tempo em que a população global ultrapassa 8 bilhões de pessoas e a ciência e a tecnologia avançam aceleradamente enfrentamos graves crises ambientais, geopolíticas e, sobretudo, quanto à convivência e relações humanas. Vivemos em um mundo de paradoxos, marcado pelo choque entre a riqueza tecnológica e a miséria social. O isolamento cresce em uma sociedade hiperconectada, evidenciando a urgência do resgate do afeto e da convivência social em detrimento do individualismo digital.
Contrapondo-se a essa lógica do consumo exacerbado e do isolamento social, a sabedoria cristã propõe uma mudança radical de foco, convidando o ser humano a rever onde deposita suas prioridades, conforme o seguinte relato de Mateus 6:19-21: “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois, onde estiver o seu tesouro, ali também estará o seu coração.”.
É evidente que, como seres viventes, necessitamos de recursos materiais para subsistir, mas limitar a existência ao que é tangível tem sufocado a nossa dimensão mais profunda. É plausível afirmar que, diante do vazio gerado pelo materialismo e pelo isolamento, a espiritualidade surge como o alicerce essencial para a reconstrução do ser.
Por isso, se permitir cuidar do espírito e cultivar “tesouros nos céus” significa resgatar os valores intangíveis — como o amor, a compaixão, a paz interior e a transcendência —, que reconectam o indivíduo a si mesmo, ao próximo e ao divino.
É nessa busca por um sentido maior que a humanidade pode encontrar o antídoto para as crises existenciais contemporâneas e caminhar para além do tangível, transformando o individualismo em comunhão legítima.
A propósito, quando alinhamos nossos desejos materiais com o objetivo maior de nossa alma, o sucesso deixa de ser uma busca cansativa e se torna um resultado natural da nossa harmonia interna. A verdadeira fortuna é a liberdade de ser, de amar e de evoluir. É caminhar pelo mundo com a certeza de que o universo é uma mesa farta e que há o suficiente para todos.
Assim, cultive a riqueza em seu santuário interior. Deixe que a paz, a sabedoria e a compaixão sejam seus maiores investimentos. O resto lhe será acrescentado por acréscimo divino.
*Governador 2006/2007 do Distrito 4430 de Rotary International



