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Bairrismo acadêmico

Bairrismo acadêmico

Bairrismo acadêmico

Uma pátria de vastas proporções abriga uma diversidade humana notável. É natural que surjam rivalidades, às vezes de forma construtiva, entre as diferentes regiões. Especialmente quando essas regiões são chamadas de Províncias ou Estados, o que reforça o sentimento de pertencimento.

            Achar que sua terra natal é a melhor e a mais importante é algo intrínseco e comum ao ser humano. Os intelectuais não estão imunes a essa percepção. Na verdade, podem ser ainda mais criativos e provocativos do que aqueles não habituados ao uso talentoso da linguagem.

            Um dos renomados escritores que fazia uso frequente da ironia era Emilio de Menezes. Seu nome completo era Emílio Nunes Correia de Meneses (1866-1918), jornalista e poeta parnasiano brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras e mestre dos sonetos satíricos. Segundo Glauco Mattoso, o poeta paranaense era o principal poeta satírico do Brasil após Gregório de Matos.

            Em torno de 1917, ocorreu um escândalo envolvendo o então Presidente de Minas Gerais – que na época eram chamados de Governadores. Emílio, fingindo indignação, provocou aqueles que o ouviam com a seguinte frase sarcástica: “Mas, mineiro cria boi, mineiro cria porco, mineiro cria galinha, por que mineiro não cria vergonha?”.

            O Estado de Minas, grande e influente, sempre gerou comentários por parte dos não mineiros. Dizia-se, na época em que muitos visitavam a região em busca do ouro supostamente abundante, que os mineiros eram avarentos. Um paulista, ao chegar em Minas, perguntava ao seu anfitrião: “Quanto custa o pernoite?”. A resposta era: “Nada, senhor. A casa é sua; você só precisa pagar pela comida do cavalo”. Na manhã seguinte, cobravam-lhe dois mil reais pela comida do cavalo…

            Essas histórias circulavam nas rodas literárias da primeira metade do século XX, frequentadas pelos fundadores e primeiros membros da Academia Brasileira de Letras, fundada por Machado de Assis em 1897. São contadas de forma envolvente no fascinante “Diário Secreto” de Humberto de Campos (1886-1934), contribuindo para um melhor entendimento da alma brasileira, tão rica em nuances quanto a biodiversidade natural, uma das mais exuberantes do planeta.

 

*José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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