Credcesta: empresa do Master movia R$ 25 milhões/mês no governo de SP
A PKL One, empresa responsável pelo Credcesta e ligada ao Banco Master, movimentava R$ 25 milhões por mês em empréstimos consignados de servidores públicos do estado de São Paulo. A companhia permaneceu habilitada no sistema por mais de três anos do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), segundo documentos oficiais e declarações do próprio governador.
A polêmica ganhou força após a prisão de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, em novembro de 2025. A partir daí, a conexão entre a PKL e o banco liquidado pelo Banco Central passou a ser investigada mais a fundo. Dados oficiais mostram que a empresa foi credenciada em maio de 2022, ainda na gestão Rodrigo Garcia, antes de Tarcísio assumir o Palácio dos Bandeirantes.
No entanto, a PKL passou por dois ciclos de recadastramento durante a atual administração estadual. O código de desconto da empresa só foi suspenso em fevereiro de 2026, três meses depois da prisão de Vorcaro e da liquidação extrajudicial do banco. Esse intervalo de três meses entre a liquidação e a suspensão tornou-se alvo de questionamentos da imprensa e da oposição.
Nesta sexta-feira (4), Tarcísio afirmou que os R$ 25 milhões representavam cerca de 3% a 4% da operação de consignados do estado. Segundo ele, o Banco do Brasil, líder desse mercado entre os servidores estaduais, concentra quase 52% dos contratos. O governador usou esse dado para argumentar que a participação da PKL era pequena diante do mercado total.
Governador nega favorecimento
Tarcísio negou qualquer tipo de favorecimento à empresa. Ele ressaltou que o credenciamento das instituições não depende da vontade do governante e que o estado não contrata as empresas que oferecem o consignado. Segundo ele, são os próprios servidores que escolhem entre as instituições habilitadas.
“É absurdo, é ridículo você dizer: ‘Vamos pegar uma doação oficial para beneficiar uma empresa que já está credenciada’. Isso não depende da vontade do governante”, afirmou o governador em entrevista coletiva.
O Republicanos também destacou que 217 empresas oferecem esse serviço no estado de São Paulo. “O servidor tem lá um rol, pega aquela situação que mais apresenta vantagem e vai lá e contrata”, disse Tarcísio, reforçando que o processo é descentralizado.
Apesar da explicação, o caso expõe as fragilidades nos mecanismos de controle do sistema de consignados do estado. Críticos apontam que, enquanto a empresa esteve habilitada, não houve qualquer sinalização do governo sobre problemas com a PKL ou sua ligação com o Banco Master.
Conexão com doação de campanha
O cunhado de Vorcaro, Fabiano Campos Zettel, doou R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio ao governo de São Paulo em 2022. Questionado sobre o tema, o governador classificou qualquer suspeita de favorecimento como absurda e disse que as doações seguiram a lei eleitoral.
Ele chegou a afirmar que não faria pessoalmente um consignado com a PKL. “Eu já fiz consignado várias vezes. Já fiz consignado no Banco do Brasil. Já fiz consignado na Caixa. Não faria na PKL, que eu não conheço, não me passaria confiança, mas tem gente que faz, que às vezes o juro está mais barato”, declarou.
A declaração gerou reações nas redes sociais. Para alguns analistas, o fato de o governador afirmar que não contrataria a empresa demonstra que havia, no mínimo, desconfiança em relação à PKL. Mesmo assim, a companhia continuou habilitada no sistema estadual.
Recadastramento durante a gestão
Embora a entrada da PKL no sistema tenha ocorrido antes da posse de Tarcísio, a empresa precisou participar dos procedimentos periódicos de recadastramento durante a atual gestão. Em julho de 2023, o Departamento de Despesa de Pessoal publicou comunicado determinando que todas as entidades consignatárias credenciadas fizessem seu recadastramento conforme cronograma oficial. A PKL estava prevista para novembro daquele ano.
Já em dezembro de 2024, quando o governo paulista publicou novo cronograma de recadastramento das consignatárias, a PKL One foi incluída entre as empresas credenciadas. Naquele momento, as investigações contra o Banco Master já haviam começado, mas ainda não tinham se tornado públicas. Apenas em novembro de 2025, com a prisão de Vorcaro, o escândalo veio a público.
Pelos normas estaduais, empresas que deixam de se recadastrar ou não apresentam a documentação necessária ficam sujeitas a penalidades, incluindo a suspensão do código de desconto. A PKL, no entanto, cumpriu os recadastramentos e permaneceu ativa.
Reclamações desde 2023
Enquanto a PKL permanecia habilitada no governo estadual, o Credcesta já era alvo de reclamações de servidores da Prefeitura de São Paulo. Em abril de 2023, a AproFEM, sindicato de professores e funcionários municipais, encaminhou ofício à Secretaria Municipal de Gestão relatando “inúmeras denúncias” de filiados sobre supostas irregularidades na prestação do serviço.
A entidade já havia questionado a Prefeitura em setembro de 2022 sobre a operação do cartão benefício consignado. Segundo a AproFEM, apesar de a Prefeitura ter criado uma margem adicional para cartão de benefício, inicialmente apenas o Banco Master havia sido autorizado a operar nessa modalidade. O sindicato pediu abertura do serviço a outras instituições.
Após as reclamações, a Secretaria Municipal de Gestão pediu esclarecimentos à PKL One, que respondeu ao município em junho de 2023. A Prefeitura afirma que outras instituições foram posteriormente credenciadas. As reclamações dos servidores municipais, no entanto, não foram encaminhadas ao governo estadual.
Cronologia do caso
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025, no mesmo dia da prisão de Vorcaro pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero. O código de desconto da PKL no governo paulista foi suspenso em 19 de fevereiro de 2026, três meses depois.
Tarcísio justificou o intervalo afirmando que o estado retirou a empresa do sistema “assim que ela foi descredenciada pelo Banco Central”. Segundo ele, a medida impediu a realização de novos contratos, mas não interrompeu os descontos referentes a operações contratadas anteriormente.
“Os contratos que ela mantém são válidos, porque precisam ser cumpridos, precisam ser honrados, mas ela não contrata mais nada novo a partir daí”, explicou o governador. O governo publicou o despacho que determina a suspensão em 19 de março de 2026.
Com informações do G1 SP
RedeBrasil




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