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CRÔNICA: Dona Helena, um anjo que se colocou em nosso caminho | Jornal Espírito Santo Notícias

CRÔNICA: Dona Helena, um anjo que se colocou em nosso caminho | Jornal Espírito Santo Notícias

CRÔNICA: Dona Helena, um anjo que se colocou em nosso caminho | Jornal Espírito Santo Notícias

Existem pessoas que chegam à nossa vida para ficar para sempre. Dona Helena é uma dessas preciosidades que o destino se encarregou de colocar no caminho de Ana Cláudia ainda na juventude.

No dia 6 de março de 1994, na Ponte da Braspérola, próximo à Real Café, Ana Cláudia sofreu um gravíssimo acidente automobilístico durante uma noite de passeio com amigos. Da tragédia, ficaram marcas profundas. O motorista do ônibus atingido pela Pampa em que estavam faleceu, assim como Marquinhos, o amigo que ocupava o banco do carona, ao lado de Ana. Ela foi arremessada pelo para-brisa e caiu no rio, de onde foi resgatada após a amiga Juliana, em meio aos gritos de pavor e ao caos daquela madrugada, perguntar por ela.

Ana perdeu a visão de um dos olhos, sofreu múltiplas fraturas e carrega sequelas para o resto da vida. Hoje utiliza uma prótese total de quadril, convive com limitações causadas pelas fraturas no pé esquerdo e traz no corpo as cicatrizes de uma batalha que parecia impossível de vencer.

Naquela madrugada de horror, os feridos foram levados ao Hospital São Lucas. Em um corredor superlotado, entre macas e urgências, uma enfermeira viu uma jovem de apenas 20 anos, ensanguentada, sozinha, sem parentes por perto e sem ninguém que pudesse zelar por ela.

Foi então que aconteceu algo que só o amor é capaz de explicar.

Aquela enfermeira decidiu assumir uma responsabilidade que não era sua. Tornou-se tia de uma sobrinha que jamais havia visto. Sem laços de sangue, mas movida por um vínculo muito mais poderoso: a compaixão.

Depois de quase 30 dias de internação, Dona Helena levou Ana para sua casa, um apartamento no quarto andar, em Vila Velha. Sua família inteira abraçou aquela missão. Cacau, a esposa Márcia, Fábia, Tânia e os demais familiares ajudavam nos curativos, no banho, na alimentação e nos cuidados diários. E, mesmo após plantões de 24 horas, Dona Helena deixava tudo organizado antes de sair para trabalhar. Nada faltava.

Na época, ela tinha 52 anos.

Dizia aos médicos e enfermeiros que era tia da jovem e que os familiares moravam longe. Talvez soubesse que, permanecendo no hospital, Ana correria riscos ainda maiores. Talvez apenas obedecesse à voz silenciosa do coração.

Foi o olhar do afeto. Foi a coragem da empatia. Foi a grandeza de quem enxergou uma menina ferida e decidiu transformá-la em família.

Vieram cirurgias, tratamentos, fisioterapias e recomeços. Tudo acompanhado de perto por aquela enfermeira que, com o passar dos anos, deixou de ser apenas uma cuidadora para se tornar uma mãe de coração. Na Grande Belo Horizonte, a filha Tânia oferecia suporte nas consultas com oftalmologistas, protéticos e em todo o acolhimento necessário durante a recuperação.

E o tempo passou.

No último dia 22, Dona Helena completou 84 anos. Hoje ela vive no charmoso Sítio Estrela da Manhã, no interior de Marechal Floriano, cercada pela tranquilidade das montanhas e pelo carinho da família.

A comemoração aconteceu neste sábado, dia 30.

E que celebração bonita foi aquela.

Na casa do sítio, entre pés de mexerica, goiabeiras carregadas, laranjeiras, lagos com peixes, galinheiro e uma mata que emoldura o horizonte, a tarde foi regada a abraços demorados, reencontros emocionantes e uma gratidão que parecia transbordar de cada olhar. Ana pôde reencontrar Cacau, o filho mais velho de Dona Helena, aquele que tantas vezes a carregou no colo para subir e descer escadas quando ela mal conseguia caminhar.

Tudo foi preparado com carinho por Fábia e Jefinho, com a ajuda das meninas Juliana, Clarinha e Mariana. E Patrícia cuidou para que a casa estivesse limpa, acolhedora e perfumada para receber tantas visitas.

A família reuniu-se para surpreender Dona Helena. E ela, com a mesma ternura de sempre, distribuiu abraços como quem distribui bênçãos.

Sem desconfiar de nada, não entendia por que Fábia preparava tanto feijão-tropeiro, tanto vinagrete e uma panela tão grande de arroz. O que ela não sabia era que, no porão da casa, estavam escondidos os enfeites da mesa, os doces, os refrigerantes, as carnes para o churrasco, os pães de alho e as flores que mais tarde coloririam a decoração da festa.

Ana não foi a única filha adotada pelo coração daquela enfermeira. Genilda também encontrou acolhimento em sua casa. Porque Dona Helena nunca limitou o amor às paredes do hospital. Muitas vezes, levou para dentro de casa pacientes que precisavam de cuidados e não tinham condições de contar com a presença constante da família.

Há pessoas que passam pela vida.

Há pessoas que transformam vidas.

Dona Helena pertence ao segundo grupo.

Nossa gratidão pela senhora atravessa o tempo e talvez alcance até outras existências. Porque anjos assim nos fazem acreditar mais na humanidade e nos lembram que viver vale a pena quando temos pessoas para amar, cuidar e celebrar.

A festa estava perfeita.

Entretanto, a maior celebração era ela mesma. Feliz aniversário, Dona Helena.

     

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