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Empresas de energia renováveis suspendem quase R$ 40 bi em investimentos e avaliam deixar Nordeste

Empresas de energia renováveis suspendem quase R$ 40 bi em investimentos e avaliam deixar Nordeste

Empresas de energia renováveis suspendem quase R$ 40 bi em investimentos e avaliam deixar Nordeste

JOÃO GABRIEL
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Empresas do ramo de energia sustentável estão avaliando a possibilidade de transferir suas operações do Nordeste para outras regiões do Brasil, interrompendo investimentos que chegam a quase R$ 38,8 bilhões entre 2025 e 2026.

Essa mudança de cenário é motivada por diversos fatores. Além do crescimento lento na demanda por energia e dos cortes na geração, questões já conhecidas, representantes do setor também apontam um aumento recente nos custos operacionais, como a perda de benefícios fiscais e o aumento das exigências regulatórias.

Alguns membros do governo Lula (PT) argumentam que os incentivos fiscais concedidos no passado para impulsionar essas fontes de energia alternativa não são mais necessários, uma vez que elas já se estabeleceram na matriz energética nacional. Com o mercado consolidado, alegam que é essencial ajustar a política tributária para evitar que os benefícios destinados à energia eólica e solar causem desequilíbrios no sistema energético nacional, resultando em custos mais altos para o consumidor.

O Ministério de Minas e Energia, procurado desde 27 de março, ainda não se pronunciou até a data desta publicação.

A maioria dos empreendimentos de energia renovável está concentrada no Nordeste, região com grande potencial de sol e vento. A pedido da reportagem, a Absolar e a Abeólica, associações que representam respectivamente as empresas geradoras de energia solar e eólica, calcularam o impacto da crise no setor.

A Absolar relatou que, somente em 2025, 141 usinas devolveram suas licenças, totalizando R$ 18,9 bilhões.

Além disso, a Absolar mencionou que, comparando as projeções com os resultados reais do último ano, houve outros R$ 5,9 bilhões em investimentos frustrados.

A Abeólica informou que a desaceleração no crescimento do setor resultou na suspensão de cerca de R$ 14 bilhões em investimentos.

“Essa crise se intensificou principalmente a partir de 2023 e 2024, afetando fortemente o Nordeste, que recebe mais de 95% dos investimentos. Já estamos presenciando fábricas na região demitindo funcionários e fechando devido à falta de novos investimentos e projetos”, afirmou Elbia Gannoum, diretora-executiva da associação.

A Casa dos Ventos, uma das principais empresas de energia renovável do país, está considerando reduzir seus investimentos no Nordeste e focar em projetos em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul.

Em resposta, a empresa afirmou que está investindo “tanto no Nordeste quanto em outras regiões”.

Mato Grosso do Sul e o Rio Grande do Sul surgem como opções alternativas, pois, apesar de não possuírem as mesmas condições climáticas favoráveis do Nordeste, estão mais próximos dos principais centros consumidores.

O aumento nos custos de geração é atribuído a duas medidas aprovadas em 2025, pela Medida Provisória 1304, que visava reorganizar o setor elétrico, porém foi barrada pela influência dos grupos de interesse no Congresso.

Uma dessas medidas foi a criação de incentivos para o setor de baterias, com o objetivo de resolver o problema de cortes na geração de energia.

Esse corte na produção ocorre devido à variação na geração de fontes renováveis conforme a disponibilidade de vento e sol. Em momentos de alta demanda, é necessário desligar essas usinas para evitar sobrecargas que podem comprometer o sistema nacional.

Embora a medida tenha sido direcionada para resolver esse problema, acaba prejudicando as usinas. Conforme reportagem da Folha de S. Paulo, o país está desperdiçando energia equivalente à produzida por uma usina de Belo Monte devido aos cortes na geração.

Uma das soluções mais eficazes seria o uso de baterias para armazenar o excedente de energia gerada em horários de pico para ser consumida quando a demanda aumenta.

A medida provisória determinou que apenas usinas integradas a sistemas de armazenamento teriam acesso ao Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (Reidi), que oferece descontos fiscais para usinas de geração solar e eólica.

Entidades do setor reclamam que essa restrição limitou a capacidade de investimento de algumas empresas.

“Essa legislação representou um retrocesso, desfavorecendo a energia solar em comparação a outras tecnologias ao restringir o acesso ao Reidi. Nenhum outro tipo de fonte de energia no Brasil possui requisitos e limitações semelhantes”, declarou a entidade.

Outra medida criticada é a transferência dos custos da reserva de capacidade para novos empreendimentos. Essa reserva consiste na contratação de usinas que serão acionadas em momentos de baixa produção e alta demanda. Devido à intermitência das energias renováveis, é necessário contratar mais geradores de reserva.

A imposição desse requisito aos novos empreendimentos encarece os custos, desestimula novos investimentos e pode criar pressões econômicas nos projetos de geração de energia renovável, conforme a entidade.

Além disso, as entidades criticam duas resoluções aprovadas pela Aneel em 2022, que aumentam a tarifa paga pelas geradoras de energia à medida que estão distantes dos principais centros consumidores do Sul e Sudeste do país.

A Absolar avalia que essa medida “aumentou os custos de uso da rede para usinas localizadas longe dos centros consumidores, especialmente no Norte e Nordeste”, o que está levando ao deslocamento de projetos fotovoltaicos.

“Essas normas resultaram de mais de cinco anos de discussões e, após a aprovação, foram implementadas de forma a proporcionar previsibilidade e adaptabilidade aos agentes”, rebateu a Aneel.

Diante da insatisfação do setor e sua capacidade de mobilização no Congresso, um projeto na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal visa revogar essas resoluções.

Representantes do setor de energias renováveis também apontam que o governo tem demorado para realizar leilões de contratação de baterias, que poderiam resolver o problema dos cortes na geração e reduzir os prejuízos das usinas.

Além disso, há críticas ao leilão para reserva de capacidade, no qual a maioria dos vencedores são empresas que geram energia a partir de gás e carvão, combustíveis fósseis poluentes.

“Precisamos encontrar uma solução, pois do contrário, perderemos a oportunidade de investir em um país com grande potencial na transição energética. A situação é realmente preocupante”, conclui Elbia.

Existe a percepção de que a instalação de data centers poderia impulsionar o setor de energia, desde que fossem abastecidos por fontes renováveis, uma vez que consomem quantidades significativas de eletricidade, embora sejam criticados por seu alto consumo de água.

No entanto, a criação de um programa nacional para esses empreendimentos está paralisada no Congresso Nacional.

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