Ligações de Vorcaro expõem riscos de autoridades dos Três Poderes
Ligações de Vorcaro expõem riscos de autoridades dos Três Poderes
O criador do Banco Master estabeleceu conexões em Brasília, utilizando em parte contratos com familiares de pessoas em altas posições.
O fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, assinou um acordo de confidencialidade com a Polícia Federal e a PGR (Procuradoria Geral da República) na quinta-feira (19 de março de 2026). A assinatura do acordo é o primeiro passo para uma potencial delação premiada. Ele está sob investigação por fraudes contra o sistema financeiro e encontra-se detido na Superintendência da PF em Brasília.
A perspectiva de uma delação de Vorcaro expõe riscos para diversas autoridades dos Três Poderes e de outras esferas em Brasília. O fundador do Master estabeleceu relações com ministros do STF e políticos, algumas dessas relações foram estabelecidas por meio de contratos com empresas dessas pessoas ou seus familiares.
GUIDO MANTEGA E PLANALTO
O economista Guido Mantega fez lobby para o Master durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mantega ocupou o cargo de ministro da Fazenda de 2006 a 2015, nos dois mandatos de Lula e no primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT).
Mantega se reuniu pelo menos 5 vezes em 2024 no Palácio do Planalto com Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. Este último é chefe do gabinete pessoal de Lula e um dos assessores mais próximos do presidente.
No último encontro, em 4 de dezembro de 2024, Mantega estava acompanhado de Vorcaro. O nome do fundador do Master não constava na agenda pública de Marcola.
No final da reunião, Mantega e Vorcaro solicitaram uma audiência com Lula, que concordou. A reunião ocorreu em seguida no gabinete presidencial, com a presença de ministros e Gabriel Galípolo, então diretor do Banco Central, que viria a se tornar presidente do BC em janeiro de 2025. Campos Neto não foi informado.
BANCO CENTRAL
Representantes do Master se reuniram 65 vezes com membros da cúpula do BC desde a fundação da instituição financeira em 2018.
Dessas reuniões, 24 foram realizadas nos seis anos em que Roberto Campos Neto era presidente (2019-2024), e as restantes 41 ocorreram em 2025, durante o mandato de Galípolo.
De acordo com a PF, dois funcionários do BC repassavam informações ao ex-banqueiro:
- Paulo Sérgio Souza – que ocupava o cargo de chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central;
- Belline Santana – que era chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central.
ALEXANDRE DE MORAES
A jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, reportou que Vorcaro enviou mensagens ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, quando foi preso em 17 de novembro de 2025. Nas mensagens, Vorcaro perguntou: “Conseguiu bloquear?” O contexto da pergunta não ficou claro.
As mensagens foram encontradas no bloco de notas de um dos celulares de Vorcaro apreendido pela PF. Não há registros de respostas de Moraes, que negou ter recebido as mensagens.
A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro e sócia do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, recebeu R$ 80 milhões do Master por 22 meses de serviços prestados à instituição financeira. O contrato foi firmado em abril de 2025, época em que havia negociações para a venda do Master ao BRB (Banco de Brasília).
DIAS TOFFOLI
O ministro Dias Toffoli, do STF, foi relator do caso Master na Corte de 28 de novembro de 2025 a 12 de fevereiro de 2026.
A empresa Maridt Participações, pertencente ao ministro e seus irmãos, detinha ⅓ da propriedade do resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR). Parte desse empreendimento foi vendida para o fundo Arleen, controlado pela Reag, uma administradora de investimentos associada ao Master, em setembro de 2021. Outra parte foi vendida para a PHD Holding em fevereiro de 2025.
Conforme reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, é proprietário de um dos fundos que adquiriu cotas do Arleen.
Toffoli afirmou em nota que nunca recebeu valores diretamente de Vorcaro e Zettel. Ele também esclareceu na nota que só se tornou relator do caso Master após a venda da participação da Maridt no Tayayá.
O ministro se afastou da relatoria das investigações sobre o caso Master em 12 de fevereiro de 2026, passando a ser substituído por André Mendonça. Toffoli se declarou suspeito para julgar a prisão de Vorcaro em 11 de março de 2026.
NUNES MARQUES
De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, o Master pagou R$ 6,6 milhões à empresa Consult, do advogado Kevin Marques, filho do ministro Nunes Marques, do STF. Os pagamentos foram analisados de agosto de 2024 a julho de 2025.
O advogado afirmou ter prestado serviços de advocacia na área tributária, mas negou ter representado o cliente no STF.
RICARDO LEWANDOWSKI
O advogado Ricardo Lewandowski foi ministro do STF de março de 2006 a abril de 2023 e ministro da Justiça de fevereiro de 2024 a janeiro de 2026, durante o governo Lula.
Lewandowski declarou ter prestado consultoria jurídica para o Master após sua aposentadoria do STF, sem especificar o período exato.
Reportagem do Metrópoles informou que o escritório Lewandoski Advocacia manteve contrato com o Master de agosto de 2023 a setembro de 2025. Durante esse tempo, o Master pagou R$ 250 mil mensais ao escritório por consultoria jurídica, totalizando R$ 6,5 milhões.
Lewandowski fazia parte do escritório até 17 de janeiro de 2024, quando seus filhos Enrique de Abreu Lewandowski e Yara de Abreu Lewandowski assumiram como sócios. Durante o contrato, o escritório recebeu R$ 6,5 milhões do Master.
ACM NETO
Uma matéria do jornal O Globo relatou que a empresa A&M Consultoria, de ACM Neto, recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da gestora de recursos Reag, associada ao banco. Os pagamentos foram realizados de junho de 2023 a maio de 2024.
ACM Neto, vice-presidente do União Brasil e ex-prefeito de Salvador, disse que a empresa recebeu os pagamentos quando ele não ocupava cargos públicos.
ANTONIO RUEDA
Segundo a revista Piauí, o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, e sua irmã, Maria Emília Rueda, atuaram como advogados para o Master. Seu escritório, Rueda & Rueda, manteve contrato com o Master em 2023 e 2024, porém os valores não foram divulgados. Rueda afirmou que o trabalho foi uma “atividade profissional legítima”.
JAQUES WAGNER
O Master contratou a empresa de Bonnie de Bonilha, nora do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), conforme reportagem do Metrópoles.
A empresa recebeu R$ 11 milhões do Master em 2021 por serviços relacionados ao crédito consignado. Bonilha é esposa de Eduardo Sodré, secretário de Meio Ambiente da Bahia e enteado do senador.
HUGO MOTTA
De acordo com o Metrópoles, Bianca Medeiros, cunhada do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), recebeu um empréstimo de R$ 22 milhões do Master em 2024 para a compra de um terreno em João Pessoa. As cotas da empresa ETC foram oferecidas como garantia, e Medeiros afirmou que Motta não tem relação com a ETC.
IBANEIS ROCHA
Uma reportagem de Malu Gaspar no jornal O Globo mencionou que o escritório do filho do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), recebeu R$ 43 milhões da Reag, associada ao Master, em 2023. O pagamento foi pela venda de créditos de honorários advocatícios no recebimento de precatórios.
O escritório do advogado Caio Barros recebeu o valor em 2023, proveniente da venda de créditos de R$ 38 milhões por R$ 10,3 milhões em 2024. Do montante da venda, R$ 6,3 milhões foram destinados ao escritório Engels Muniz, que também participou da negociação.



