Mayra Goulart: Quem deve ser deixado para trás? O tarifaço e as contradições da extrema direita
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- Mayra Goulart, professora de ciência política da UFRJ, publicou coluna analisando o “tarifaço” dos Estados Unidos.
- Ela afirma que a medida revela mudança de estratégia americana, que vê fóruns multilaterais como obstáculos ao uso de sua superioridade econômica e militar.
- A autora relaciona essa postura a uma lógica de mercado que justifica a exclusão dos mais vulneráveis nas relações internacionais e na sociedade.
- Goulart cita Wendy Brown para argumentar que, ao tornar a competição critério máximo de justiça, a proteção dos fracos passa a ser vista como distorção.
Hoje publicamos aqui uma contribuição de uma amiga da coluna: Mayra Goulart, professora e cientista política da UFRJ.
NELSON ALMEIDA / AFP
Por Mayra Goulart, cientista política (UFRJ)
O tarifaço reflete uma mudança de estratégia dos Estados Unidos, ancorada em uma nova perspectiva sobre as relações internacionais: os fóruns multilaterais passam a ser vistos como ameaça ou obstáculo ao uso da superioridade econômica e militar norte-americana como instrumento de barganha com outros países. O diagnóstico, em si, não é incorreto — os fóruns multilaterais existem precisamente para reduzir assimetrias entre os países e, por isso mesmo, constrangem o exercício unilateral do poder.
Essa mudança de perspectiva, contudo, não se restringe às relações internacionais. Ela tem um componente social mais profundo, pois espelha um entendimento acerca das relações entre as pessoas no qual as assimetrias deixam de ser vistas como resultado de privilégios e opressões — que estruturam não apenas a divisão internacional do trabalho, mas também as clivagens econômicas, sociais e raciais domésticas — e passam a ser interpretadas como resultado do mérito daqueles que conseguem vencer uma competição. Opera aqui a metáfora do mercado: a competição como mecanismo supostamente capaz de indicar os melhores, apagando as condições desiguais de partida que definem, de antemão, quem pode competir, em que termos — e, sobretudo, quem deve ser deixado para trás.
Wendy Brown, em Nas ruínas do neoliberalismo, descreve com precisão essa soldagem entre a razão de mercado e o ressentimento antidemocrático: quando a competição se torna o critério último de justiça, a proteção dos mais fracos deixa de ser um imperativo político e passa a ser lida como distorção. É essa mesma gramática que autores como Cas Mudde identificam no núcleo da direita radical contemporânea — um nativismo que hierarquiza pessoas e nações e naturaliza a desigualdade como ordem legítima do mundo.
É nesse sentido que compreendo que qualquer retaliação deve ser organizada coletivamente, a partir dos fóruns multilaterais, e acompanhada de um esforço de convencimento da sociedade de que essa abordagem, que glorifica o direito do mais forte, é prejudicial ao Brasil enquanto nação — e, portanto, incompatível com qualquer discurso nacionalista, assim como com qualquer ideal cristão de solidariedade.
É também nesse sentido que correlaciono o tarifaço com a conjuntura eleitoral. Ele pode constituir uma oportunidade de reivindicar o discurso da soberania nacional e de explicitar uma das maiores contradições da extrema direita brasileira.
De um lado, a mobilização do cristianismo em favor de uma visão de mundo que decide quem deve ser deixado para trás — e elege para esse abandono exatamente aqueles que Cristo buscava proteger. De outro, o emprego de uma retórica nacionalista e patriótica combinada com uma postura de alinhamento automático à potência hegemônica do hemisfério — paradoxo que estudiosos da política externa bolsonarista, como Guilherme Casarões, vêm apontando: um nacionalismo que se realiza, na prática, como subordinação ideológica a um projeto transnacional de extrema direita, cuja arquitetura Benjamin Teitelbaum reconstituiu ao mapear as redes que conectam ideólogos tradicionalistas de Washington a Brasília.
Historicamente, as relações internacionais têm pouco peso nas eleições presidenciais brasileiras. Contudo, com a progressiva ideologização do eleitorado e o aumento do interesse por política, é plausível que as regras usuais deixem de operar como antes. Pippa Norris e Ronald Inglehart sustentam que, nas democracias contemporâneas, os alinhamentos eleitorais deslocam-se progressivamente do eixo econômico para o eixo cultural — e o caso brasileiro parece confirmar a tendência: a economia, tradicionalmente tratada como o grande critério definidor do voto, perde centralidade para as temáticas morais. É justamente esse terreno que o campo democrático poderia explorar com mais ênfase, disputando os significantes da soberania, do patriotismo e da solidariedade cristã em vez de restringir-se ao argumento econômico. Afinal, se há algo que a extrema direita compreendeu — e que a literatura sobre populismo, de Ernesto Laclau em diante, insiste em lembrar — é que a política se decide menos na planilha e mais na disputa pelos afetos e pelos símbolos que definem quem somos enquanto comunidade.



