O declínio das Academias – Semanário ZN
Alguns indivíduos notáveis, dignos de pertencerem às renomadas Academias, recusam-se a participar do ritual. Não desejam se associar, discordam da necessidade de agradar os eleitores e, simplesmente, declaram “não possuir inclinação acadêmica”.
Outros, que não possuiriam, segundo a maioria acadêmica, os traços essenciais para pertencer, lutam e chegam até mesmo a perder a compostura, de tanto que buscam a eleição para a questionável imortalidade.
A Academia Brasileira de Letras foi estabelecida em 1897 por Machado de Assis e um círculo de colegas. É a mais prestigiosa do Brasil. As demais se inspiraram nela, embora haja relatos de academias anteriores ao século XIX.
No entanto, a própria ABL já enfrentou suas controvérsias. “Imortais” já entraram em conflito com ela, deixaram de participar, criticaram-na. Ainda assim, não deixaram de ser acadêmicos, pois essa é a natureza de uma Academia de Letras que deseja ser reconhecida como tal.
Um dos críticos mais fervorosos da ABL foi Humberto de Campos. Em 31 de maio de 1928, por exemplo, ele registrou em seu “Diário Secreto”:
As reuniões da Academia estão se tornando cada vez mais insuportáveis. O desinteresse pela literatura, evidenciado a cada momento, está transformando a instituição em uma espécie de feudo da diretoria, que decide sem contestações dos acadêmicos.
Essa situação tem sua origem, sem dúvida, na entrada de pessoas na Academia que não têm a literatura como profissão e, por isso, não se interessam genuinamente por ela. Geralmente, o indivíduo que almeja a vestimenta acadêmica passa anos escrevendo um livro. Com esse livro e suas conexões sociais, ele consegue ser eleito. Uma vez eleito, nunca mais escreve, pois já alcançou o que queria, que era a consagração acadêmica.
Se a Academia continuar nesse rumo, chegará o dia em que os quarenta membros que ostentam as vestes acadêmicas não contribuirão com um único volume para a literatura brasileira.
Este prognóstico não se realizou. A ABL e outras Academias continuam a produzir livros incessantemente. O que falta, na verdade, é quem os leia!
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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