O malabarismo da Fifa para explicar a ajuda aos EUA após pressão de Trump
Folarin Balogun, dos Estados Unidos, foi expulso após falta em Tarik Muharemovic. Foto: Martin Meissner/AP
O Comitê Disciplinar da Fifa tentou explicar nesta segunda-feira (6) a decisão que liberou o atacante Folarin Balogun para defender os Estados Unidos contra a Bélgica nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, mesmo após o jogador ter sido expulso na fase anterior. O caso provocou reação internacional, críticas da Uefa e acusações de pressão política depois que Donald Trump admitiu ter pedido à Fifa a revisão da punição.
Balogun foi expulso pelo árbitro brasileiro Raphael Claus aos 19 minutos do segundo tempo da vitória dos Estados Unidos por 2 a 0 sobre a Bósnia e Herzegovina, nos 16 avos de final. Após revisão do VAR, Claus entendeu que o atacante atingiu o defensor Tarik Muharemovic com um pisão e aplicou cartão vermelho direto.
Pelo regulamento da Copa, uma expulsão por cartão vermelho direto ou indireto acarreta suspensão automática na partida seguinte. A regra está prevista no Artigo 10.5 do regulamento da competição e também no Artigo 66.4 do Código Disciplinar da Fifa. Em condições normais, portanto, Balogun ficaria fora do duelo contra a Bélgica.
A Fifa, no entanto, recorreu ao Artigo 27 de seu Código Disciplinar, que permite ao órgão judicial suspender total ou parcialmente a execução de uma medida disciplinar. Com base nesse dispositivo, a entidade manteve a sanção formal, mas suspendeu sua aplicação por um período probatório de um ano.
Na prática, Balogun ficou autorizado a jogar. Segundo o entendimento do Comitê Disciplinar, se o atacante cometer nova infração de natureza e gravidade semelhantes dentro do período de prova, a suspensão poderá ser reativada e cumprida, sem prejuízo de eventual punição adicional pelo novo episódio.
O presidente do Comitê Disciplinar da Fifa, Mohammad Al Kamali, afirmou que a expulsão não foi anulada. Segundo ele, o órgão avaliou apenas as sanções disciplinares decorrentes do cartão vermelho e decidiu suspender a execução da punição, dentro da margem prevista no Código Disciplinar. A Fifa também reiterou que seus órgãos judiciais atuam de forma independente e com base nas regras da entidade.
Folarin Balogun foi expulso na partida entre Estados Unidos e Bósnia pelo árbitro brasileiro Raphael Claus, atacado por Trump. Foto: Phil Noble/Reuters
A explicação não encerrou a crise. A Uefa classificou a decisão como “inédita, incompreensível e injustificável” e afirmou que a medida “cruzou uma linha vermelha”. Para a entidade europeia, a suspensão automática após cartão vermelho não deveria ser tratada como uma punição discricionária, sobretudo no meio de uma Copa do Mundo.
A Federação Belga de Futebol também contestou a liberação do atacante antes da partida contra os Estados Unidos. A entidade afirmou estar “atônita” com a decisão e alegou que a suspensão automática havia sido reforçada em normas e reuniões anteriores ao torneio. A Fifa rejeitou a contestação belga e sustentou que a federação adversária não tinha legitimidade para interferir no processo disciplinar.
O episódio ganhou contornos políticos porque Trump afirmou publicamente que ligou para Gianni Infantino, presidente da Fifa, para pedir uma revisão do cartão vermelho. O presidente estadunidense disse não ter entendido inicialmente o peso da punição e chamou a decisão de Raphael Claus de “suspeita”, sem apresentar provas contra o árbitro brasileiro.
Infantino confirmou ter recebido a ligação, mas afirmou que explicou a Trump que havia um procedimento em andamento nos órgãos judiciais da Fifa. O dirigente disse que esses órgãos são independentes, operam de forma autônoma e decidem com base no Código Disciplinar e nos fatos apresentados.
A decisão da Fifa abriu um precedente incômodo em pleno mata-mata da Copa. Ao suspender a aplicação de uma punição automática contra um jogador da seleção anfitriã depois de pressão pública do presidente dos Estados Unidos, a entidade passou a enfrentar questionamentos sobre isonomia, autonomia disciplinar e credibilidade do torneio.
Balogun foi escalado como titular contra a Bélgica. A presença do atacante em campo, depois de uma expulsão que deveria tirá-lo das oitavas, transformou o jogo em mais um capítulo da crise que colocou a Fifa, Trump, a Uefa, a Bélgica e o árbitro brasileiro Raphael Claus no centro da maior polêmica disciplinar desta Copa.



