Onda de assaltos assusta e preocupa passageiros no Metrô Carrão
A rotina de quem passa diariamente pela Estação Carrão do Metrô tem sido marcada por receio. Passageiros relatam um aumento preocupante de assaltos e furtos nas proximidades e acessos da estação, uma das mais movimentadas da Linha 3-Vermelha do metrô.
“Na semana passada, dentro da plataforma do Carrão, vi cerca de 6 jovens circulando, aparentemente selecionando possíveis alvos. Sofri uma tentativa de assalto descendo a escada rolante em direção à Rua Apucarana. Dois jovens que estavam na plataforma se aproximaram de mim, agindo como se estivessem perdidos. No final da escada rolante, um deles tentou me assaltar. Felizmente, não conseguiram levar nada, mas a situação é angustiante. É complicado sair para trabalhar e se deparar com essa realidade”, relata a passageira Daniela Ciconello, que utiliza a estação diariamente para trabalhar. Com indignação, ela acrescenta: “Deveria ter pelo menos um policial próximo às escadas rolantes. E o mais perturbador é que a apenas 10 minutos dali existe um batalhão da PM”.
Moradores das redondezas da Estação Carrão também descrevem situações semelhantes: “Não podemos baixar a guarda nem mesmo em frente de casa. O número de pessoas suspeitas circulando por aqui é alarmante. Alguns passam a noite na Praça José Giudice, localizada ao lado, e sair à noite se torna uma aventura. Há moradores de rua que realmente necessitam de ajuda e acabam sofrendo as consequências desses criminosos. Meu filho quase teve o celular roubado enquanto chamava um Uber em frente de casa. Falta patrulhamento nessa região”, relata dona Maria do Carmo, residente na Rua Salvador de Lima.
Medo e estigma
Acompanhado de sua cadela “Nina”, o morador de rua Carlos pedia comida em um bar em frente à Estação Carrão. Ele buscava alimentar a cadela, que não comia adequadamente há semanas. Nina, uma vira-lata de pequeno porte, de cor “caramelo” e listras pretas, foi carinhosamente apelidada pela reportagem de “Tigrinha”. Enquanto chorava, o morador desabafou: “Não me importo de passar fome, mas me dói vê-la faminta porque não posso alimentá-la. Além disso, tenho medo do que podem fazer conosco, principalmente porque o mundo parece desconhecer o amor. As pessoas nos veem com receio, e não as culpo. Muitas vezes fui expulso da frente de residências ou estabelecimentos, com ela nos braços, devido ao medo que as pessoas têm desses criminosos. Já tive comida, roupas e até mesmo uma marmita doadas roubadas por essas pessoas sem coração. Alguns de nós não estão nessa situação por escolha, mas sim porque nem todas as portas se abrem, seja por medo, desconfiança ou raiva. Tenho receio por ela, que é um animal inocente. Não a deixo nem por um minuto e tenho fé de que um dia poderei ajudá-la como gostaria”, desabafa o morador ao relatar o medo enfrentado nas ruas próximas à estação.
Não se trata de um caso isolado
Nos últimos meses, denúncias nas redes sociais e relatos informais indicam abordagens criminosas, especialmente nos horários de maior movimento e durante a noite. Um dos incidentes mais recentes envolveu a presença de um homem armado nas escadas de acesso à estação, causando pânico entre os passageiros.
Além dos assaltos diretos, a região também enfrenta uma série de furtos e invasões no sistema metroviário, principalmente no trecho leste da linha. Informações internas e relatos de funcionários indicam que esses casos têm se tornado frequentes, ocorrendo quase diariamente em alguns períodos.
“Há diversos observadores nas rampas das estações Carrão e Tatuapé. Um jovem de cerca de 20 anos, normalmente vestido com calças jeans justas, blusa estampada e tênis, é um exemplo. Ele costuma ficar no extremo da estação Carrão, próximo aos trilhos do trem, na parte inicial em direção ao ‘Corinthians-Itaquera’, e ocasionalmente também no final desse trecho, em direção ao ‘Palmeiras-Barra Funda’. Ele se senta em dois bancos específicos da área e gradualmente se aproxima das pessoas até se sentar ao lado delas. Ao sentar, ele imediatamente questiona algo relacionado ao celular da pessoa, como as horas ou pede ajuda para configurar a internet, por exemplo. Isso aconteceu com um amigo meu, que, ao receber a resposta, o viu digitando algo em seu próprio celular. Quando meu amigo se levantou, percebeu que um homem estranho começou a segui-lo pela rua, apressando o passo para se aproximar. Acredito que esse jovem atua como observador para confirmar o modelo do celular da pessoa e auxiliar o segundo criminoso no roubo”.
“Saímos do trabalho já temerosos. Não podemos mais usar o celular nem mesmo dentro da estação”, relata um passageiro que optou por não se identificar. Outra usuária acrescenta: “Presenciei pessoas sendo seguidas na saída. A sensação é de completa desamparo”.
Posicionamento do Metrô
A Companhia do Metropolitano de São Paulo reconhece o aumento de incidentes na região e informa que estão sendo implementadas medidas, como reforço na vigilância e uso de tecnologias para detectar invasões e atividades suspeitas ao longo da linha.
No entanto, para os usuários que dependem diariamente do transporte público, a percepção é de que a segurança ainda não atende à demanda.
“Pagamos caro e não recebemos a proteção necessária”, desabafa um trabalhador que utiliza a estação diariamente.
Enquanto isso, moradores e usuários solicitam ações mais eficazes por parte do poder público, como aumento do policiamento e presença constante de agentes de segurança, com o intuito de combater a criminalidade e devolver a tranquilidade a uma das principais portas de entrada da zona leste da capital.
Reportagem: Fernando Aires. Foto: Divulgação.
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