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Que não lhe faltem… seus filhos!

Que não lhe faltem… seus filhos!

Que não lhe faltem… seus filhos!

Era maio de 2012, primeiro ano da residência de Infectologia, a angústia dos primeiros plantões se misturava à expectativa de voltar a passar o Dia das Mães em casa após uma temporada como médica na Amazônia.

Transcorridos 15 minutos do inicio do plantão noturno, vi o plantonista da tarde entrar atordoado informando uma emergência no 9 andar. Enquanto cruzávamos o corredor, ele disse se tratar de um rapaz de 21 anos com hemorragia digestiva alta incoercível. Quando se despediu, descendo a escada, me lembrei que não havia me passado o quarto do paciente, corri atras dele em busca da resposta. Ele respondeu com um suspiro exausto: “Não me lembro, mas é impossível você não encontrar.”

Cheguei ao 9º andar, ajeitei o estetoscópio no pescoço e pensei: “Num hospital como o HC conseguimos reverter um sangramento digestivo” foi quando tive uma visão perturbadora: várias pegadas de sangue levavam ao quarto onde encontrei três plantonistas intrépidos passando um balão esofágico – dispositivo que tenta conter o sangramento por meio de uma compressão dos vasos locais. Contei 5 bolsas de sangue já infundidas e mais 3 aguardando a infusão, o reservatório da sonda posicionada no estômago enchia numa velocidade absurda o que justificava o derramamento de sangue incontido por vários lençóis que tentavam inutilmente absorve-lo.

Num canto, vi uma senhora segurar sua bolsa contra o peito aterrorizada. Tive o ímpeto de acompanhá-la até o corredor e resgata-la daquela cena traumática. Pedi ao técnico que trouxesse uma cadeira e um copo d’água.

Quando voltei, fechei a porta atrás de mim e mirei a bomba de infusão que indicava uma vazão de Noradrenalina a impensáveis 240mL/h ( paciente graves em UTI costumam usar entre 10 a 30mL/h). A despeito de todos os esforços, não tardou ate que ele tivesse uma parada cardiorrespiratoria. Tentamos mais de 40 min uma reanimação que o contexto já sinalizava inviável. Lembro de ter sido a primeira a sair do quarto para encontrar aquela senhora em prantos lá fora.

Era dispensável dizer o que o seu instinto materno já havia sentenciado. Ofereci meus braços e ela me abraçou enquanto se derramava. Entre soluços, a ouvi dizer baixinho como quem teme a sentença das palavras “ele veio para mim quando tinha só 2 aninhos. Se soubesse que o perderia assim nunca o teria adotado”. Nunca esqueci essa frase.

Ainda hoje quando me deparo com um luto parental me faltam palavras.
A maternidade é lugar que não admite a falta. Você não deixa de ser mãe quando perde um filho como deixa de ser casada quando se separa. A dor que consome uma mãe quando perde um filho para a morte, para o vício ou para a distância não é apenas pela sua companhia usurpada mas pelo direito alienado de poder se lembrar dele sem dor.

Nesse dia, mais que qualquer presente, desejo às mães que não lhes faltem… seus filhos!

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