Raio-x do LRCAP: leilão ancora novos terminais de GNL e reafirma gas-to-wire
Raio-x do LRCAP: leilão impulsiona novos terminais de GNL e reafirma gas-to-wire
DESTAQUE: LRCAP destaca as térmicas a gás e impulsiona novos terminais de GNL no Brasil. Leilão também renova contratos de usinas existentes e reafirma modelo gas-to-wire.
ANP atende à demanda dos usuários por redução no custo dos gasodutos. Portaria do Mover inclui biometano. Conflito afeta infraestrutura de GNL no Catar. Descoberta de gás pela Petrobras na Colômbia e mais detalhes. Confira:
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De novos terminais de gás natural liquefeito (GNL) a novas usinas térmicas onshore a gás, além da renovação do parque existente — e até termelétricas a biometano.
O 2º Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) — que finalmente aconteceu — foi marcado por uma ampla contratação e possibilitou a participação de projetos de diferentes perfis.
As usinas térmicas a gás se destacaram na oferta de energia ao sistema elétrico: foram contratadas um total de 92 usinas a gás.
Com uma potência de 15,2 GW, o leilão abrangeu tanto usinas conectadas à rede de gasodutos quanto as desconectadas — dois modelos de negócio que foram objeto de discussões sobre o formato do leilão.
Desenvolvido para conciliar interesses conflitantes, o LRCAP atendeu ao objetivo de evitar uma possível fuga de demanda das usinas do sistema de transporte de gás. Uma preocupação que pairava sobre o mercado e poderia resultar em aumento das tarifas para todos os usuários da rede de gasodutos (entenda).
Ao mesmo tempo, o leilão foi marcado pelos projetos de GNL, com destaque para a Eneva, que já planeja a construção de dois novos terminais de regaseificação — um no Ceará e outro no litoral do Sudeste.
O tamanho do leilão, no entanto, desapontou os consumidores de energia. O LRCAP foi marcado pela falta de competição, com vendas com pequenos ou nenhum desconto em relação aos preços máximos e uma receita fixa anual de R$ 39 bilhões para os agentes.
A seguir, o gas week apresenta uma análise dos principais projetos e vencedores do LRCAP. É uma primeira avaliação do leilão.
LRCAP impulsiona novos terminais de GNL
O LRCAP resultou na construção de pelo menos dois novos terminais de regaseificação na costa brasileira.
A Eneva, que negociou 4,4 GW de usinas térmicas a gás no leilão, planeja inaugurar novos hubs de gás no Ceará e no Sudeste (RJ ou ES) — apoiados por terminais de GNL.
E, por enquanto, sem planos de se conectar à rede de gasodutos (embora a interligação dos terminais de GNL seja discutida na ANP).
Em resumo:
- A Eneva implantará 1,1 GW no Sudeste, com usinas térmicas no Rio e no Espírito Santo previstas para entrar em operação em 2031;
- e um parque de 1,2 GW em Porto do Pecém (CE). O projeto Jandaia, adquirido da Ceiba Energy, entrará em operação em 2029.
Com isso, o Ceará recuperará um terminal de GNL. Após a desativação da planta da Petrobras em 2023 e o cancelamento do projeto Portocem da Ceiba, que foi vendido para a New Fortress e transferido para Barcarena (PA), o estado voltará a ter uma infraestrutura de regaseificação.
Além dos dois novos terminais de GNL, a Eneva expandirá seu parque termelétrico em 1,3 GW no hub de Sergipe.
A empresa também aumentará a utilização do terminal de regaseificação de Barra dos Coqueiros (SE).
Além de ancorar novas usinas térmicas em seu terminal em Sergipe, a empresa firmou contratos para fornecer gás flexível a usinas de outros agentes, totalizando 5,5 milhões de m³/dia.
Aproveitando o LRCAP para monetizar terminais de GNL, a OnCorp, que desenvolve um projeto de uma planta de regaseificação no Porto de Suape (PE), negociou no leilão uma usina térmica própria: a UTE Frevo (20 MW), em Suape (PE), com investimento de R$ 103 milhões.
A empresa também garantiu mais 11 contratos de suprimento para usinas térmicas de terceiros, do Espírito Santo ao Ceará. Com isso, a empresa assegurou mais de 90% da capacidade do terminal.
A previsão é iniciar as obras da planta de GNL no meio do ano e começar as operações do ativo até o final de 2027.
A New Fortress, proprietária do terminal de Barcarena (PA) e do TGS (SC), atualmente inativo, também monetizou sua infraestrutura no leilão, ao negociar:
- a UTE Novo Tempo Barcarena II (100,9 MW), uma expansão do complexo atual prevista para 2029;
- e a UTE Lins II (701,5 MW), em São Paulo, prevista para 2031.
Desenvolver novos projetos de GNL é um desafio em meio à crise global, com os efeitos da guerra no Oriente Médio, que resultou na destruição de parte da infraestrutura de liquefação do Catar, um dos principais exportadores do mundo.
Um cenário de conflito. Em uma teleconferência com analistas para discutir a participação da Eneva no LRCAP, o CEO, Lino Cançado, declarou que, apesar de depender principalmente da Qatar Energy como fornecedora, a empresa já tem 100% da demanda coberta para 2026 — o gás fornecido pela QE é proveniente dos Estados Unidos.
No entanto, a Eneva ainda não fechou os contratos de fornecimento para as novas usinas térmicas, e o mercado espera que projetos dependentes de GNL possam ser afetados pelo conflito no Oriente Médio nas negociações pós-leilão.
Cançado afirmou que, devido à quantidade significativa de potência contratada, a Eneva tem mais poder de negociação nas próximas negociações por molécula.
Curiosamente, o 1º LRCAP, em 2021, também foi impactado por uma crise no mercado global, durante o conflito entre Rússia e Ucrânia.
A reafirmação do modelo gas-to-wire
O LRCAP também viabilizou novos projetos no modelo gas-to-wire, com destaque para a estreia da Origem Energia.
A empresa negociou sete usinas térmicas, totalizando 380 MW. As usinas, programadas para 2028 e 2029, exigirão um investimento de R$ 2 bilhões.
A empresa aposta na verticalização de seus negócios. Os projetos serão instalados em Pilar (AL) e serão abastecidos principalmente com gás produzido pelo Polo Alagoas.
Além disso, as usinas térmicas estarão conectadas ao projeto de armazenamento subterrâneo de gás em desenvolvimento pela empresa em Alagoas e previsto para o segundo semestre.
A Imetame também negociou no LRCAP a expansão de mais 17 MW do projeto Prosperidade, que recebe o gás produzido pela empresa na Bacia do Recôncavo, na Bahia.
A capacidade adicional deverá ser entregue até 2029. Além disso, a empresa renovou o contrato da UTE Prosperidade IV (8,8 MW), a partir de 2028.
Outra empresa onshore que aproveitou o leilão para monetizar suas reservas foi a PetroReconcavo, que se comprometeu a fornecer gás para as UTEs Corcovado 4, 5 e 6, totalizando 142,5 MW.
As usinas foram negociadas pela Brasil GTW e entrarão em operação em 2028 — a atuação da PetroReconcavo, portanto, se limita ao fornecimento de gás.
Pioneira no modelo gas-to-wire no Brasil, a Eneva renovou por mais dez anos os contratos das usinas Parnaíba I e III, totalizando 811 MW de potência contratada e com os contratos originais vencendo em 2028 e 2029, respectivamente.
Outros destaques do LRCAP
As empresas Eneva, Petrobras e J&F, detentoras dos maiores parques termelétricos a gás natural do país, foram responsáveis por quase metade da potência total contratada no 2º LRCAP.
Enquanto a Eneva conseguiu viabilizar novos projetos e renovar seu parque atual de geração a gás em Parnaíba e no Espírito Santo, a Petrobras e a J&F concentraram-se nas usinas existentes.
- A Petrobras renovou oito usinas, totalizando 2,235 GW;
- sendo que quase 1 GW estará disponível ainda este ano;
- a J&F renovou quatro de suas usinas térmicas (Uruguaiana/RS, Norte Fluminense/RJ, Santa Cruz/RJ e Araucária/PR), totalizando 2 GW;
- sendo que 917 MW estarão disponíveis já em 2026.
Outra empresa que se destacou, focando em novos projetos, foi a Evolution Power Partners (EPP).
- A EPP negociou nove usinas, totalizando 1,685 GW, nos estados do Ceará, Rio de Janeiro, Sergipe, Maranhão e Piauí;
- a empresa tem experiência em leilões, participando do desenvolvimento dos projetos da UTE Porto de Sergipe e UTE Barcarena;
- também foi uma das vencedoras do leilão emergencial de energia (PCS) de 2021, com 343 MW — posteriormente negociados com a J&F.
A KPS também atingiu seu objetivo de renovar as usinas térmicas flutuantes no Rio de Janeiro do PCS, totalizando 536 MW; além de ter negociado um novo projeto: a UTE Santana (229 MW) no Amapá.
Seguindo o mesmo caminho, o Grupo Delta Energia renovou o contrato da UTE William Arjona (MS), com 67 MW; e negociou uma expansão de 168 MW: a UTE Campo Grande (MS). As usinas utilizarão gás nacional.
Já a Urca Gás arrematou duas usinas (31,2 MW cada) no Espírito Santo: os projetos São Mateus I e II.
E houve também espaço para o biometano, com a vitória da Cocal, com duas usinas térmicas totalizando 9,2 MW.
GÁS NA SEMANA
Revisão tarifária. A ANP acatou o pedido do Conselho de Usuários (CdU) e prorrogou por mais 15 dias (até 3/4) a consulta pública sobre a proposta de valoração da Base Regulatória de Ativos (BRA) do transporte.
- A expectativa entre os usuários é que a prorrogação dê mais tempo para que o regulador adote uma metodologia alternativa que possa impactar de forma mais significativa a remuneração das transportadoras de gás.
Gas release. A ANP abriu um questionário sobre o desenho do programa de desconcentração da oferta. O objetivo é receber contribuições para auxiliar na definição dos elementos centrais do programa.
Mobilidade. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) publicou uma portaria detalhando as soluções estratégicas para receber os incentivos do programa Mobilidade Verde (Mover).
- Sistemas dual fuel (como diesel e biometano) estão entre as soluções que poderão ser elegíveis para receber os créditos financeiros destinados à indústria automotiva.
Guerra impacta infraestrutura de GNL. Um ataque iraniano ao complexo de Ras Laffan, no Catar, reduziu em 17% a capacidade de gás natural liquefeito da estatal Qatar Energy. (Reuters/Valor)
Colômbia. A Petrobras anunciou uma nova descoberta de acumulação de gás no poço exploratório Copoazu-1, no bloco GUA-OFF-0, em águas profundas na Colômbia. A estatal opera o bloco com 44,44%, em parceria com a Ecopetrol (55,56%).
- Análise: A nova descoberta destaca o potencial da nova fronteira de gás do país vizinho e pode facilitar os planos da Petrobras de exportar gás da Colômbia. Inicialmente, a empresa visa abastecer o mercado colombiano, mas planeja liquefazer o gás no futuro, dependendo do sucesso das explorações na região.
Argentina. A Galp recebeu autorização da ANP para importar até 20 milhões de m³/dia de gás argentino, por dois anos. O mercado-alvo inclui setores como termelétrico, distribuidoras e consumidores livres.



