Tarifa americana derruba exportações de solúvel capixaba
As exportações de café solúvel pelo Espírito Santo recuaram 46% em receita no acumulado de 2026, segundo o Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV). Em volume, a queda foi de 33% só em abril em relação a março. O resultado contrasta com o desempenho do conilon em grão: no mesmo mês, o volume exportado da espécie cresceu 444% sobre abril de 2025.
A principal causa é a tarifa americana. Em 2025, o governo dos Estados Unidos impôs uma alíquota de 50% sobre o café solúvel brasileiro. O impacto foi imediato: os embarques brasileiros aos americanos caíram 55% nos meses de vigência da medida, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).
Em 2024, os EUA compraram 777 mil sacas de solúvel brasileiro. Em 2025, o volume caiu para 558 mil. O grão verde e a carne foram liberados de tarifas em negociações posteriores. O solúvel segue fora desse acordo.
No acumulado de janeiro e fevereiro de 2026, as exportações brasileiras de solúvel somaram 573 mil sacas, queda de 11,5% sobre o mesmo período de 2025, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics).
O setor enfrenta três pressões simultâneas: o mercado americano reduzido pelas tarifas, a concorrência de outros países produtores de solúvel e a oferta interna que só agora começa a se recompor com a entrada da nova safra.
Há um dado na direção contrária. O consumo interno de solúvel no Brasil bateu recorde em 2025, chegando a 27 mil toneladas (equivalente a 1,1 milhão de sacas), crescimento de 9,5% sobre 2024. O movimento tem uma explicação de preço relativo: enquanto o café torrado e moído acumulou inflação de 75% em 2024/25, o solúvel subiu 34%.
O mercado doméstico está crescendo, mas a lógica de exportar o produto industrializado, com maior valor por saca embarcada, é o que sustenta a estratégia de longo prazo do café capixaba.
O Espírito Santo construiu nos últimos anos uma cadeia industrial voltada ao beneficiamento e processamento de café: plantas de descafeinação, capacidade crescente de solúvel e infraestrutura de armazenagem. Essa estrutura foi montada para exportar produto com mais valor agregado, não apenas matéria-prima.
A tarifa americana não desmonta essa capacidade instalada, mas posterga o retorno do investimento e exige uma diversificação de destinos que o setor ainda está construindo. A Argentina cresceu 40% como compradora de solúvel brasileiro em 2025, sinal de que a reorientação está em curso, ainda que em ritmo menor do que a perda nos EUA.
Para o produtor capixaba, a queda do solúvel tem uma implicação direta. Menos demanda por conilon de origem industrial reduz a pressão compradora sobre o grão e contribui para o preço mais baixo que o produtor vem recebendo em 2026. A cadeia está conectada: o que acontece na ponta exportadora do produto industrializado chega, com algum defasagem, ao campo.
O governo brasileiro negocia a retirada do solúvel da lista de produtos taxados nos EUA. Enquanto o acordo não vem, o setor ajusta rotas, busca novos mercados e sustenta a operação com o mercado doméstico em alta.



