Vorcaro buscou contato na Polícia Civil de SP após intimação
O banqueiro Daniel Vorcaro, investigado na operação que apura o esquema do Banco Master, perguntou a um de seus operadores se o grupo dispunha de contatos na Polícia Civil de São Paulo. A pergunta surgiu depois que Antônio Carlos Freixo Júnior, empresário que fechou delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), recebeu uma intimação do 15º Distrito Policial, na zona sul da capital paulista.
A informação consta em relatório da Polícia Federal (PF) encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF). O documento revela trocas de mensagens entre Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apelidado de “Sicário” nas investigações. A conversa ocorreu em 2 de setembro de 2024, quase um ano antes da deflagração da operação que tornou público o esquema.
O diálogo entre Vorcaro e “Sicário”
Naquele dia, Vorcaro enviou a Mourão, pelo WhatsApp, a intimação que Freixo havia recebido. O documento convocava o empresário a comparecer ao 15º DP para prestar esclarecimentos sobre um inquérito registrado sob o número IP 2.285.284/2023.
“Tem contato na Polícia Civil de SP?”, perguntou Vorcaro. Mourão respondeu: “Sim. Temos.” Em seguida, os dois conversaram por telefone durante pouco mais de três minutos, tempo suficiente para alinhar os próximos passos.
Segundo a PF, Mourão integrava “A Turma”, um grupo de seis pessoas, aparentemente policiais federais, cooptadas para realizar ações de interesse de Vorcaro e de suas empresas, principalmente o Banco Master. O grupo funcionava como uma espécie de braço operacional paralelo, executando tarefas que iam desde a coleta de informações até ações mais diretas.
A intimação que gerou a consulta
A intimação enviada a Freixo foi assinada por um escrivão identificado apenas como “Reinaldo”. O documento não especificava o objeto da investigação e nem esclarecia se Freixo era alvo ou testemunha. A convocação era para o dia 19 de agosto de 2024, às 15h30, na Rua Doutor Renato Paes de Barros, no Itaim Bibi, uma das regiões mais nobres de São Paulo.
Freixo foi o empresário que posteriormente fechou delação premiada com a PGR. Em sua colaboração, ele afirmou ter movimentado cerca de R$ 1,3 bilhão para Vorcaro entre 2020 e 2023. Os valores transitavam por contas de empresas de fachada e eram repassados em espécie, segundo o delator.
Ele também relatou entregas de dinheiro vivo ao banqueiro, ampliando o alcance das investigações sobre o Banco Master. A delação de Freixo é considerada peça-chave para entender a magnitude do esquema, que envolve supostas operações de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.
O papel do grupo “A Turma”
Após receber a intimação, Mourão encaminhou a Vorcaro um áudio de Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado que, segundo a PF, liderava “A Turma”. No áudio, Marilson disse que pediria a alguém para verificar o procedimento e descobrir do que se tratava.
No dia seguinte, Mourão voltou a procurar Vorcaro. Afirmou que estava com “A Turma” e perguntou se o banqueiro poderia ligar para tratar do assunto pessoalmente. Os dois conversaram por quase dois minutos, mas o relatório não informa o teor específico da conversa.
De acordo com o documento da PF, não é possível afirmar se o grupo conseguiu acessar o inquérito, obter informações sigilosas ou interferir no procedimento envolvendo Freixo. O simples fato de terem tentado, no entanto, já configura um indício grave de que Vorcaro e seus aliados buscavam influenciar o curso de investigações policiais.
O que diz a Polícia Civil
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou, por meio de nota, que a Polícia Civil não foi comunicada pela PF sobre o eventual envolvimento de qualquer integrante da instituição nos fatos mencionados. A pasta afirmou que, caso seja formalmente notificada, abrirá procedimento interno para apurar a conduta dos agentes envolvidos.
A investigação sobre o Banco Master no STF já produziu outros desdobramentos relevantes. Em junho deste ano, a irmã de Mourão relatou em depoimento ter recebido ameaças com fuzis e culpou Vorcaro pela morte de um operador do esquema. O relato acendeu alerta sobre a violência que cerca o caso.
O histórico das investigações
O caso Vorcaro é um dos maiores escândalos financeiros investigados atualmente no Brasil. O banqueiro é alvo de múltiplas frentes de apuração que envolvem movimentações suspeitas, uso de laranjas e suposta influência em instituições públicas. As operações “Dark Horse” e “Make Up”, ambas da PF, já resultaram em apreensões, quebra de sigilos e delações.
As revelações sobre a tentativa de acesso a informações privilegiadas na Polícia Civil de São Paulo representam um novo capítulo na investigação. O episódio levanta suspeitas sobre a extensão da rede de contatos que Vorcaro supostamente mantinha em órgãos de segurança e fiscalização do estado.
A Polícia Federal continua analisando o material apreendido e as mensagens extraídas dos dispositivos dos investigados. A expectativa é que novos elementos surjam nas próximas semanas, sobretudo a partir da delação de Freixo e dos demais colaboradores que já fecharam acordo com a PGR.
O caso segue sob relatoria do Supremo Tribunal Federal, que deve decidir sobre novas diligências e possíveis desdobramentos processuais nos próximos meses.
Com informações do G1 São Paulo
RedeBrasil



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