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2026 será só briga – Meio

2026 será só briga – Meio

2026 será só briga – Meio

Nos últimos dias, uma movimentação significativa foi observada. Integrantes do PSDB, do Cidadania e do MDB manifestaram interesse no governador gaúcho Eduardo Leite. Desejavam tê-lo como candidato à presidência. Leite competia com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, pela indicação do seu partido, o PSD. Com a vitória de Caiado, a situação se tornou incerta. Diante da frustração, um movimento se desencadeou, deixando tudo em suspenso. Então, Leite agiu conforme necessário. Ligou para Caiado, parabenizando-o pela escolha. Pela primeira vez desde 1989, o Brasil terá uma eleição presidencial sem um candidato de Centro. Isso representa um problema.

Em primeiro lugar, o governador gaúcho agiu conforme os protocolos. Ao participar de uma competição interna em seu partido e aceitar a derrota, ele cumpriu o que era esperado. Um político não pode ser rotulado como mau perdedor. Existem alternativas. Pode-se, por exemplo, embarcar em um avião, cursar um doutorado nos Estados Unidos ou na Europa, ampliar horizontes. Talvez uma temporada no Vale do Silício, retornando ao partido em dois anos, estruturando um movimento interno. Políticos pulam eleições e retornam para vencê-las.

Alguns afirmam que o Centro não existe. No entanto, ele existe. Existem três grandes ideologias, três maneiras de enxergar o país e o mundo nas democracias eleitorais. O socialismo, o conservadorismo e o liberalismo. O socialismo representa a esquerda, o conservadorismo a direita, e o liberalismo o centro. Por que o Centro? Por duas razões entrelaçadas. Em primeiro lugar, porque o liberal tende a focar na economia e, por vezes, na segurança, com uma abordagem de direita. Em relação às questões sociais, tende a adotar uma perspectiva mais à esquerda. Embora não seja uma equação exata, é mais ou menos assim. Portanto, o liberal costuma ter mais facilidade para dialogar tanto com conservadores quanto com socialistas. Ele consegue encontrar pontos em comum com ambos, ocupando assim uma posição mais central.

Em 2022, Simone Tebet foi a candidata que adotou um discurso liberal, demonstrando grande preocupação com a responsabilidade fiscal, mas também com questões sociais. Em 2018, havia três candidatos em destaque. Geraldo Alckmin, pois qualquer candidato do PSDB, com sua equipe de economistas desenvolvendo o programa de governo, automaticamente representava uma abordagem liberal. Além dele, João Amoêdo e Henrique Meirelles. Em 2014, Aécio Neves, obviamente, e também Marina Silva, percebeu? Desde 1989, sempre houve pelo menos um liberal disputando a Presidência. Embora suas chances pudessem ser limitadas, o discurso e a visão de mundo estavam ali representados.

Agora, em 2026, pela primeira vez teremos vários conservadores, um socialista e nenhum liberal. Estamos testemunhando o ápice da crise democrática. E, sim, eu sei, alguns de vocês podem estar pensando: “Isso é um exagero”. Mas, vamos com calma.

O liberalismo compreende duas dimensões simultâneas. É assim que John Rawls, um dos principais filósofos liberais da segunda metade do século 20, o define. Por um lado, é uma filosofia de Estado, o que chamamos de Democracia Liberal. É democrática porque consulta a sociedade sobre quem terá poder por um mandato fixo. É liberal porque garante a todos os cidadãos liberdades fundamentais. Dentre essas liberdades, estão o direito de votar e ser votado, expressar opiniões e se unir a outros para pleitear algo. Em seguida, temos a outra dimensão do liberalismo: uma filosofia de Estado, mas também uma ideologia política. Se todos podem pensar por si mesmos, unir-se a quem desejam e buscar apoio para suas causas, nem todos serão liberais. Existem conservadores e socialistas. O que se espera deles? Que aceitem as regras do jogo. Assim, como ideologia, o liberalismo estabelece o regime de governo, posicionando-se ao lado dos outros dois, competindo em igualdade de condições. A viabilidade da democracia liberal depende do compromisso dos liberais em não se comportarem como donos do jogo, pois não são.

Portanto, o que está ocorrendo no Brasil neste ano é perfeitamente compatível com uma democracia liberal. No entanto, também revela algo mais. Todos os partidos políticos aptos a lançar candidatos avaliaram a sociedade brasileira e chegaram a uma conclusão: não há demanda suficiente para justificar a presença de um liberal nas urnas. Poucos desejam ouvir o discurso do Centro. Ou, pelo menos, não há um número significativo de pessoas interessadas. Essa é a avaliação dos detentores do poder no jogo, que tomam essas decisões.

Os líderes partidários estão transmitindo uma mensagem clara: na democracia brasileira, não há eleitores em quantidade suficiente que priorizem os princípios democráticos em primeiro lugar.

Antes de pensar que estou exagerando, permita-me compartilhar uma informação. Na pesquisa “Brasil no Espelho”, realizada pela Quaest com dez mil brasileiros, a sociedade foi dividida em diversos grupos. Apenas um desses grupos, ao ser questionado sobre as questões mais importantes do país, citou a manutenção da democracia como prioridade. Isso não significa que os demais grupos não sejam democráticos, mas outras questões, como igualdade econômica e valores tradicionais, são mais relevantes. Para a Quaest, esses são os 7% de sociais liberais no Brasil. Em nossa pesquisa, Meio/Ideia, representam os 6,5% de liberais democratas. São dois termos diferentes para o mesmo grupo. Meu grupo.

Estamos enfrentando o auge da crise democrática. Trata-se de uma crise de valores. Gostaria de explorar mais a fundo esse tema? Discutir o significado disso?

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Uma lição que aprendi ao longo dos anos com o Ponto de Partida é que há assuntos que não podem ser compreendidos em menos de 30 minutos. Por esse motivo, surgiu o Ponto de Partida — A Série. O mais recente episódio do PdP, intitulado Nós Brasileiros, aborda a questão social e questiona algo que todos já se perguntaram: por que o Brasil é tão desigual? A proposta não é apontar culpados, mas sim entender como chegamos a essa situação. Quais escolhas, estruturas e heranças moldaram esse país tão desigual e fragmentado, com indivíduos que não conseguem se comunicar. É o tipo de série que altera a maneira como você interpreta qualquer notícia. Ao final, não se obtém uma resposta pronta, mas sim compreensão. Disponível no streaming do Meio por quinze reais mensais, sem fidelidade, podendo ser cancelado a qualquer momento. Assine e aproveite.

E este aqui? Este é o Ponto de Partida do dia em que retornamos à Lua!

Como pensa um conservador? Fundamentalmente, ele se preocupa com a organização da sociedade. O conservador acredita que não somos nós, seres humanos, que determinamos as regras desse jogo. A forma como as pessoas se relacionam, como as famílias se formam, as empresas, as hierarquias visíveis e invisíveis, tudo isso é fruto de uma força que vai além do humano. Para alguns conservadores, essa força é divina, especialmente para os mais religiosos. Para outros, a organização da sociedade é determinada pela história e pela tradição. As coisas se encaixam ao longo do tempo, e, após séculos de experimentação em uma determinada cultura, surge um arranjo que funciona devido à sua repetição. Além disso, há um tipo de conservador mais contemporâneo que acredita ser o mercado a força organizadora. O mercado regula tudo, com sua mão invisível, buscando constantemente equilíbrios.

Ronaldo Caiado é um candidato cuja visão se baseia na tradição. O conservador busca proteger a sociedade daqueles que desejam alterar sua estrutura. Trata-se de uma perspectiva legítima, e muitas pessoas compartilham desse pensamento.

O socialista, por outro lado, adota uma abordagem radicalmente distinta. Ele enxerga na sociedade uma injustiça decorrente de forças desequilibradas. Há uma minoria muito poderosa e uma maioria com pouca força. Existem oprimidos e opressores. Quando deixadas ao acaso, as sociedades tendem a permanecer nesse estado. Assim, para o socialista, a principal missão do Estado é interceder em favor dos oprimidos, dos mais vulneráveis. O Estado existe para regular o jogo em prol dos mais fracos. Essa perspectiva também é legítima e representa uma abordagem válida. Lula é um socialista.

É perfeitamente possível ser socialista e considerar legítimo, e até preferível, o regime da democracia liberal. Da mesma forma, é possível ser conservador e compartilhar desse ponto de vista. No entanto, o liberalismo representa uma terceira perspectiva, que parte de um olhar bastante diferente das duas primeiras.

O liberal, antes de enxergar a sociedade, enxerga o indivíduo. Concorda com os socialistas que a opressão é um problema, porém ele considera essa questão em nível pessoal. Para o liberal, todos têm o direito de alcançar seu potencial máximo. A sociedade ideal é aquela em que as pessoas têm liberdade para trilhar seus próprios caminhos. Nem a família, nem a sociedade, nem o governo, nem uma empresa podem tomar decisões por você. As escolhas pertencem exclusivamente a cada indivíduo. Portanto, o papel do Estado é criar a infraestrutura necessária para garantir a liberdade de escolha. Isso inclui proporcionar educação de qualidade, segurança, além de infraestrutura como estradas, eletricidade e telecomunicações. Todos os cidadãos precisam desses recursos para prosperar. A comunidade, a sociedade, é aprimorada quando todos têm a liberdade de escolher.

Uma democracia existe para garantir essas premissas, esses direitos e essa infraestrutura. Politicamente, a característica fundamental dos liberais é a forte crença no pluralismo. Ou seja, na convivência harmoniosa de ideias bastante diversas. Quando há poucos liberais em uma sociedade, o valor do pluralismo se perde. Com poucos adeptos do pluralismo, observamos um aumento da desconfiança mútua, na qual o outro é percebido como uma ameaça existencial. Se o outro vencer, estamos todos perdidos. Tudo terá acabado. O que será de nós?

Estamos exatamente nesse ponto. Nesta eleição, não teremos um candidato liberal. Não é uma causa, mas um sintoma da gravidade da crise.

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