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As fofocas como traço identitário

As fofocas como traço identitário

As fofocas como traço identitário

Título: A importância das fofocas na identidade cultural

Nas minhas análises sobre a formação da identidade cultural no Espírito Santo por meio da literatura, destaco dois elementos essenciais nesse processo: a violência e a fofoca. Acredito que esses elementos são fundamentais na organização e legitimação de diversas ações na sociedade, moldando o que chamo de imaginário social, seguindo a abordagem conceitual do filósofo político grego Cornelius Castoriadis, que desenvolveu sua obra em Paris.

Em uma ocasião em que mencionei a importância da fofoca na nossa identidade, a renomada escritora e intelectual Andréia Delmaschio me sugeriu a leitura de “Os Estabelecidos e os Outsiders”, de Norbert Elias & John L. Scotson, no qual os autores descrevem e analisam uma extensa pesquisa sobre fofocas realizada em uma comunidade inglesa nos anos 1960. Após ler o livro, percebi o quão útil foi para fortalecer as ideias que tenho desenvolvido em meus textos.

Ao traçar a história da fofoca entre os capixabas, me baseei no livro “Chamas na Missa”, de Luiz Guilherme Santos Neves. A obra revela como a Santa Inquisição disseminou um clima de desconfiança e intrigas na população de Vitória no século XVIII, levando as pessoas a delatarem vizinhos e amigos na igreja. Esse contexto resultou em comunidades marcadas pela intriga, influenciadas pelo catolicismo conservador e punitivo que marcou a sociedade da época.

Posteriormente, ao ler “Menino”, de Pedro J. Nunes, pude observar como as redes de intriga se constituíam como elementos presentes nas pequenas cidades do Espírito Santo na segunda metade do século XX. Em “A Oferta e o Altar”, de Renato Pacheco, busquei compreender a lógica por trás das fofocas. No romance, a personagem Joaninha do Muxá cria uma rede de destruição de reputações com método, disseminando suas “Fake News”, como é comum nas redes sociais atualmente. A fofoca desempenha um papel central na trama, sendo essencial para a compreensão de nossa identidade cultural e da lógica política que ainda permeia as eleições.

A leitura da obra de Norbert Elias se mostrou oportuna, já que o autor analisa em seu livro etnográfico a organização da vida em uma comunidade britânica onde as fofocas desempenham um papel significativo. A pesquisa, realizada ao longo de três anos em uma cidade do interior da Inglaterra, revela a existência de grupos estabelecidos e outsiders, marcados pela percepção de antiguidade e status social. A fofoca se mostra como um elemento que distingue comportamentos aceitos e rejeitados, moldando identidades individuais e coletivas.

Elias conclui que as calúnias, ao acionarem sentimentos de vergonha e culpa nos grupos socialmente inferiores, contribuem para a manutenção da dominação e superioridade dos grupos estabelecidos. Essa prática é uma arma importante para a dominação e humilhação.

No contexto dos capixabas, assim como em outras regiões do Brasil, a diferenciação social remonta ao longo processo colonial, escravocrata, desigual e injusto. A coesão social, no entanto, requer mais do que a realidade concreta, sendo influenciada pelo imaginário social e seus alicerces. A prática cotidiana de difamação certamente foi amplamente empregada em nosso caso, alimentando o racismo, a misoginia e o machismo. Os grupos estabelecidos, detentores da suposta verdade, manipulam redes de intriga de forma prejudicial, perpetuando preconceitos absurdos. Essa é a análise sociológica que tenho realizado na literatura, destacando a fofoca como um elemento definidor das identidades coletivas.

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