Redes digitais de aliciamento de menores têm hierarquia
Líderes, administradores, moderadores e oradores. Para a Polícia Civil de São Paulo, os grupos brasileiros que aliciam e extorquem crianças na internet operam com engrenagem semelhante à de facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho): hierarquia rígida, divisão clara de tarefas e milhares de integrantes espalhados por diferentes plataformas.
“É uma cadeia de comando bem estabelecida. Por isso, quando envolvem maiores de idade, as investigações tramitam na Vara de Lavagem de Capitais e Organização Criminosa”, explica à Folha a delegada Lisandréa Salvariego Colabuono, chefe do Noad (Núcleo de Operações e Articulações Digitais).
A comparação com o crime organizado vai além do organograma: há promoção interna, atuação coordenada e controle absoluto das interações. “Existe uma função para cada integrante”, diz.
Ao contrário do que muitos pais supõem, a plataforma Discord não é o ponto de partida. “É o fim da linha. Essa criança foi aliciada muito antes”, alerta Lisandréa.
O recrutamento costuma começar em jogos online populares, como Roblox, Minecraft e Free Fire, além de redes sociais e aplicativos de mensagens, nos quais ocorrem os primeiros contatos, e parte deles pode ter um disfarce de webnamoro.
Conquistada a confiança, as vítimas compartilham fotos e dados pessoais e se veem presas numa teia de chantagens: a sextorsão.
Sob ameaça de terem fotos vazadas, são coagidas a produzir mais conteúdo, num processo de dessensibilização que escala para automutilação, exploração sexual e conteúdo extremista.
Os relatos nos inquéritos acessados pela reportagem impressionam pela crueldade: uma menina de 12 anos foi induzida a cortar a palavra “blood” (sangue, em inglês) na pele; uma adolescente foi forçada a se mutilar ao vivo em videochamada assistida pelo grupo; outra foi coagida a introduzir objetos cortantes no corpo.
As vítimas identificadas nesse recorte do inquérito vêm de ao menos três estados de duas regiões diferentes do país: Mato Grosso, Goiás e Piauí.
Um retrato que reforça o alerta da Polícia Civil: o problema não está concentrado em um único lugar, pode atingir famílias em qualquer estado do Brasil. Os registros circulam depois nas galerias (servidores menores, geralmente no Discord, criados para armazenar e expor esse material).
Country e Infinity, por exemplo, são comunidades do Telegram com milhares de participantes, ativas ao menos entre março de 2024 e janeiro de 2025 –período em que a Polícia Civil de São Paulo documentou os crimes analisados no inquérito, até deflagrar a Operação NIX, que prendeu a cúpula do Country.
Os administradores identificados são brasileiros, de ao menos quatro estados: Santa Catarina, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
O Discord centraliza a operação do dia a dia –moderação e atendimentos urgentes–, enquanto Telegram e Signal garantem comunicação criptografada entre lideranças.
Na outra ponta, o repositório fica na dark web, em sites como um streaming de exploração sexual infantil que reuniu 1,8 milhão de usuários cadastrados.
A Folha procurou por email no fim da manhã de sexta-feira (24) Discord, Telegram, Signal, Roblox, Mojang Studios (Minecraft) e Garena (Free Fire) sobre o uso de suas plataformas nessas investigações, questionando moderação, prevenção ao aliciamento e cooperação com autoridades. O Discord também foi questionado sobre os grupos Country e Infinity. Não houve retorno até o horário de publicação desta reportagem.
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Engrenagem financeira
Por trás disso existe uma engrenagem financeira que une moedas de jogos, assinaturas SaaS (modelo de acesso recorrente mediante pagamento), criptomoedas de alta privacidade e mercado ilegal de dados.
Segundo o advogado especialista em direito penal Hélio Ramos, a monetização não se limita a moedas tradicionais: em jogos como Roblox, o próprio Robux (moeda virtual) vira ativo de negociação. “Comercializam créditos de Robux em comunidades de WhatsApp, Instagram e no próprio jogo –um nicho perfeito, com público cativo”, diz.
Nas plataformas da dark web, o modelo opera por demanda e assinaturas para salas restritas. “A monetização movimenta milhões em criptoativos –não só venda de material, mas cobrança para integrar salas privadas onde ocorre comercialização de dados e troca de ‘mega packs’ com pornografia infantil [adota-se o termo exploração sexual infantil], zoofilia e necrofilia”, detalha Ramos, apontando que esses bancos de imagens alimentam novas extorsões.
O dinheiro é ocultado via blockchain, Bitcoin, Steem Coins, fintechs em paraísos fiscais e trocas P2P para virar dinheiro vivo fora do alcance das autoridades. Operações internacionais, como a que derrubou o streaming de exploração sexual infantil, já bloquearam centenas de milhares em criptoativos.
Para Ramos, a migração do crime para o digital é caminho sem volta: “Traz muito menos risco físico do que usar uma arma na rua, além de penas menores na legislação.”
Apesar das cifras, a motivação não é só financeira –é uma tríade de dinheiro, poder e notoriedade. “Já encontramos transmissões com plateias de 600 a 800 pessoas. Existe ganho financeiro, mas principalmente busca doentia por status”, diz a delegada.
Para intimidar vítimas, os grupos recorrem ao doxxing –vazamento de dados pessoais e familiares. “Quando demonstram que sabem onde a vítima mora ou estuda, o impacto é imediato e devastador.”
Gargalos
As autoridades enfrentam gargalos técnicos: “A Polícia Federal tem equipes de excelência, mas pequenas diante do volume. Talvez 1% da PM e 5% da Civil e Federal tenham preparo para auditar essa infraestrutura”, diz Ramos, defendendo maior integração entre as polícias.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram a dimensão do problema: registros de produção e distribuição de material de abuso sexual infantil dispararam 176,7% entre 2021 e 2025, com 34,2% dos autores sendo adolescentes; casos de cyberbullying saltaram 67,3%, o que impulsionou o ECA Digital, de 2025, responsabilizando plataformas pela prevenção de riscos a menores.
O NOAD já mapeou mais de 1.900 alvos e participou de mais de 600 prisões. A delegada alerta: “As pessoas imaginam um adolescente isolado no quarto. Não estamos lidando com isso. Estamos enfrentando estruturas organizadas, com hierarquia, divisão de tarefas e milhares de integrantes ativos na rede.”
A reportagem questionou a Polícia Federal na sexta-feira, por email, sobre organizações criminosas digitais. Até a publicação, não houve retorno.
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – BÁRBARA SÁ



