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Álbum completo: missão cumprida – Semanário ZN

Álbum completo: missão cumprida – Semanário ZN

Álbum completo: missão cumprida – Semanário ZN

Álbum completo: missão cumprida – Semanário ZN

Cada edição da Copa do Mundo de Futebol traz consigo uma tradição que atravessa diversas gerações: preencher um álbum de figurinhas dos jogadores.

Recordo dos álbuns que auxiliei meu filho a completar. Acredito que o primeiro tenha sido em 1994, quando ele tinha apenas 9 anos.

Atualmente, faço parte da equipe de assessores seniores. Agora é o filho quem lidera, auxiliando o neto mais velho de Recife nessa nova empreitada.

Algumas semanas atrás, estive em um shopping aqui em Brasília acompanhando a comissão técnica. Pela coloração grisalha dos cabelos, imagino que desempenhei mais o papel de observador.

O neto mais velho de Recife carregava consigo uma caixa sofisticada com figurinhas repetidas, gerenciadas por meio de um aplicativo igualmente avançado, instalado no celular do pai.

Mantive-me à distância da agitação. Possivelmente, sem muita paciência, teria logo recorrido ao mercado de trocas e pago o valor solicitado para obter o item desejado.

Observando de longe, sem participar diretamente das negociações, pude notar diferentes padrões de comportamento entre os negociadores.

Há aqueles que se divertem simplesmente por estarem envolvidos nas trocas quase “equivalentes”. Há os que adotam uma postura mais rígida e buscam muito mais do que o valor real daquele pedaço de papel colorido, embora aceitem receber outros papéis como pagamento. Há ainda os que tentam, de forma gananciosa, obter lucro financeiro, vendendo a preços exorbitantes.

E nesse processo há uma estratégia. Um analista de mercado se aproxima discretamente do grupo para avaliar a situação. Se identifica um clima amigável, convida o pequeno colecionador a se juntar e participar das conversas.

Após quase uma hora de interações, era hora de uma pausa para o lanche, o fim daquela “partida”.

Acredito que saímos vitoriosos. Pelo menos o neto mais velho de Recife estava radiante e não parava de falar sobre as figurinhas que conseguira, as seleções, os países e as chances.

Restavam agora apenas oito figurinhas para alcançar o objetivo final.

No dia da partida do Brasil contra a Escócia, poucas horas antes do início do jogo, a avó encontrou a solução: a Banca do Brito, na 106 Norte, onde seria possível completar o álbum.

O pai e a mãe partiram em uma missão urgente em direção à Asa Norte, determinados a atender ao desejo do neto mais velho de Recife e encontrar as figurinhas que faltavam — e, de quebra, voltar a tempo de assistir ao jogo contra a seleção da Caledônia.

Missão cumprida.

A felicidade da família era visível: avós, pais, o irmão mais novo de Recife, tios, os primos gêmeos — Galeguinho e Cabeludinho, futuros colecionadores — e os amigos.

Ao final, percebi que completar um álbum vai além de simplesmente colar figurinhas. Existem valiosas lições ali para a vida. Aprendemos que certos objetivos demandam perseverança e paciência, mesmo quando parecem distantes. Que negociar requer firmeza, mas também moderação, para não confundir valor com ambição desmedida. Que é essencial estar atento às armadilhas que surgem no caminho: os oportunistas, os atalhos fáceis e imorais, os excessos que prometem muito e entregam pouco.

Há também um aprendizado menos evidente, porém igualmente valioso. Cada figurinha representa um país, uma bandeira, uma história, uma cultura. Qual a capital de Curaçao? Onde está localizado o Uzbequistão? Qual o sistema de governo do Canadá? O álbum transforma-se em um desafiante quiz até para os adultos.

Enquanto completa o álbum, a criança começa a compreender como o mundo se organiza em nações, culturas, idiomas e identidades. Inadvertidamente, dá seus primeiros passos na compreensão das dinâmicas geopolíticas que moldam o cenário internacional.

Em um nível filosófico, aprende também que algumas conquistas só fazem sentido quando compartilhadas. Talvez essa seja a verdadeira figurinha rara: a habilidade de unir família e amigos em torno de um propósito simples, porém repleto de afeto.

Porque álbuns são completados, Copas chegam ao fim, crianças crescem. O que perdura, se cultivado adequadamente, são os valores, as tradições saudáveis e as memórias afetivas que continuamos a transmitir, de geração em geração.

* OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS
GENERAL DE DIVISÃO DA RESERVA

Créditos