Economias do Golfo encolhem 4,3% apesar do petróleo caro
As economias do Golfo devem encolher 4,3% em média neste ano, segundo projeção do Banco Mundial. A guerra com o Irã continua a travar o comércio e a atividade empresarial na região. Além disso, a alta do petróleo não foi suficiente para compensar a queda nos volumes exportados.
A avaliação consta da atualização regional divulgada pelo banco nesta semana. O documento reúne as seis economias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), bloco que inclui Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein e Omã. Juntas, essas nações respondem por boa parte da oferta mundial de energia. Por isso, qualquer recuo na atividade delas rapidamente chega aos mercados internacionais.
Segundo o relatório, o aumento dos preços do petróleo não cobriu a redução dos embarques. Por isso, a produção e a receita dos governos recuaram. O efeito é duplo: menos volume embarcado significa menos dinheiro entrando e menos capacidade de investimento público.
Por que as economias do Golfo encolhem mesmo com o petróleo caro
A explicação está na diferença entre preço e volume. O preço do barril subiu com o risco de escalada no Oriente Médio, mas a quantidade embarcada diminuiu. Como resultado, a receita total caiu mesmo com o petróleo mais caro. É um movimento que contraria a lógica tradicional do setor, na qual preços maiores tendem a engordar os cofres dos exportadores.
As exportações de petróleo bruto do Oriente Médio superaram os níveis anteriores à guerra em 14 dias de setembro, segundo a agência Reuters, que citou dados provisórios da consultoria Kpler. Esses carregamentos incluíram petróleo transportado pelo Estreito de Ormuz e por rotas alternativas. O estreito é um dos pontos mais sensíveis do comércio mundial de energia.
Parte dos embarques de gás segue em circulação. A Reuters noticiou na segunda-feira que quatro navios com gás natural liquefeito (GNL) do Catar reapareceram ao largo de Ormuz por volta de 2 e 3 de outubro. Contudo, a normalização está longe de ocorrer, e o ritmo de partida segue irregular.
A energética italiana Edison informou, em 28 de setembro, que a QatarEnergy prolongou a declaração de força maior até o início de dezembro. A empresa alegou não poder entregar novos carregamentos programados. O aviso elevou para 35 o total de carregamentos afetados entre abril e o começo de dezembro. Isso equivale a cerca de 4,6 bilhões de metros cúbicos de gás destinado ao terminal Adriatic LNG, na Itália.
A Edison afirmou ter adquirido fornecimentos de substituição e disse seguir em condições de cumprir os compromissos com os clientes. Ainda assim, o custo maior recai sobre o consumidor europeu, que passa a competir por cargas em um mercado mais apertado.
Tráfego aéreo em queda pressiona as companhias da região
O impacto também aparece no transporte de passageiros. O tráfego nas companhias do Oriente Médio caiu 14,6% em agosto na comparação com o mesmo mês do ano anterior, segundo dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), divulgados em 30 de setembro.
O indicador considera tanto o número de passageiros pagantes quanto a distância percorrida. A capacidade disponível recuou 9,3%, o que deixou uma fatia maior de assentos vazios, já que a demanda caiu mais rápido que a oferta. Para as empresas, isso significa aviões cheios de lugares vazios, o pior cenário possível para a receita.
Ainda assim, algumas companhias da região absorveram passageiros cujos voos foram cancelados por empresas europeias e de outras origens. O consultor de aviação Omar Hashmi explicou que Emirates, Qatar Airways e Etihad transportam passageiros em conexão por seus centros de distribuição, além de visitantes com destino ao Golfo.
Segundo ele, as rotas mais longas também elevam o custo com combustível. “Quando o espaço aéreo é fechado e as rotas ficam mais longas, surge também o problema de os horários dos voos mudarem”, disse Hashmi à Euronews. A fala resume um problema que afeta companhias e passageiros ao mesmo tempo.
Na terça-feira, o Catar advertiu, em uma conferência em Doha, que “todo o mundo está pagando” pelo conflito. O alerta foi feito durante os esforços diplomáticos para avançar nas conversas entre Washington e Teerã.
Pressão que também chega à Europa
O encolhimento das economias do Golfo não fica restrito à região. Compradores europeus tiveram de substituir o gás em falta e recorrer a fornecedores alternativos, o que elevou os preços no continente. Como resultado, a indústria europeia passou a operar com custos de energia menos previsíveis.
Esse vaivém de cargas e rotas mostra como um conflito localizado se espalha pela cadeia global. Cada navio que muda de caminho e cada voo que se alonga adicionam custo a produtos que chegam ao consumidor final, inclusive no Brasil.
O que esperar daqui para frente
O Banco Mundial advertiu que infraestruturas danificadas e investimentos adiados podem continuar a travar o crescimento mesmo depois de superadas as perturbações imediatas. Em outras palavras, o efeito da guerra sobre as economias do Golfo tende a durar mais que o próprio conflito.
Para os próximos meses, dois fatores definem o cenário. O primeiro é o andamento das negociações entre Estados Unidos e Irã. O segundo é a capacidade da região de retomar os embarques de energia em ritmo normal. Enquanto isso, compradores na Europa e na Ásia seguem refazendo rotas e buscando fornecedores alternativos.
Com informações da Euronews. Leia também: Irã rejeita negociar após fracasso de ataques de Trump.
Foto: Euronews / Reprodução
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