EUA não se comprometem a reconhecer resultado da eleição no Brasil
O governo de Donald Trump não se comprometeu a reconhecer o resultado da eleição presidencial no Brasil. A resposta do Departamento de Estado dos Estados Unidos, enviada nesta quinta-feira, era aguardada havia duas semanas por congressistas norte-americanos e deixou observadores da sociedade civil em alerta, segundo reportagem do jornalista Jamil Chade, do ICL Notícias.
A pressão começou com uma carta de parlamentares dos EUA enviada ao secretário de Estado, Marco Rubio. O grupo, liderado pelo senador Bernie Sanders, cobrava um posicionamento oficial sobre a eleição brasileira e manifestava a preocupação de que o pleito fosse alvo de uma operação de desestabilização por parte de Washington. O documento foi seguido por outras duas manifestações de deputados e senadores com o mesmo teor.
Resposta sem assinatura de Rubio
A resposta, porém, não trouxe garantia alguma de reconhecimento do resultado das urnas. O texto não foi sequer assinado por Rubio: coube a Katherine Bowles, sub-secretária para Assuntos Legislativos do Departamento de Estado, enviar a manifestação.
“Os EUA apoiam o direito do povo brasileiro a um processo eleitoral livre e justo. Continuaremos a dialogar com o povo brasileiro, o setor privado e o governo eleito para promover a segurança, o comércio recíproco, os investimentos e a prosperidade em ambos os países”, diz o trecho reproduzido pela reportagem.
A reportagem chama a atenção para o uso do qualificativo “livre e justo”. Parte da sociedade civil questiona quem, nos Estados Unidos, designaria que uma eleição cumpriu esses critérios, e suspeita que os termos possam ser usados para justificar, mais adiante, a alegação de que eles não teriam sido atendidos.
Pressão de senadores democratas
Dias após a carta de Sanders, um grupo de senadores liderado por Jeanne Shaheen, do Comitê de Relações Exteriores do Senado, e pelos senadores Tim Kaine e Peter Welch voltou a cobrar o Departamento de Estado. Na avaliação do grupo, houve favorecimento explícito à candidatura de Flávio Bolsonaro.
“A recente reunião no Salão Oval entre o senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro e o presidente Trump, realizada em meio a tentativas de atenuar um escândalo político interno, evidencia a disposição da Administração em interferir no processo eleitoral”, afirmaram os parlamentares no documento.
Os senadores compararam a postura atual com a de 2022. “Logo após o anúncio dos resultados eleitorais de 2022, os Estados Unidos agiram rapidamente, em coordenação com aliados e parceiros, para reconhecer a vitória do presidente Lula, ajudando a negar legitimidade a tentativas de contestar ou reverter o resultado”, disseram. Eles lembraram ainda o apoio americano ao Brasil após os ataques de 8 de janeiro de 2023 às instituições.
No mesmo texto, os senadores fizeram uma pergunta direta: “A Administração se comprometerá a reconhecer o resultado certificado das eleições democráticas de 2026 no Brasil e a apoiar relações diplomáticas normais com qualquer candidato que seja livre e justamente escolhido pelo povo brasileiro?”
Precedente de 2022 e a corrida da diplomacia
O episódio ocorre no segundo turno da eleição presidencial brasileira, disputa que mobiliza governos estrangeiros e tem na relação com Washington um de seus pontos mais sensíveis. A resposta americana chega depois de uma sequência de alertas da sociedade civil sobre o risco de interferência externa no pleito.
Em 2022, os Estados Unidos reconheceram rapidamente a vitória de Lula e, depois dos ataques de 8 de janeiro de 2023, apoiaram o governo recém-empossado, como lembram os próprios senadores na carta. A comparação com aquele momento é o que alimenta a preocupação de parlamentares democratas e de observadores internacionais.
O ambiente digital é outro foco de atenção. Reportagens recentes trataram da atuação de redes de desinformação e de estruturas de bots ligadas a operadores bolsonaristas, tema que também chegou ao Tribunal Superior Eleitoral.
O que está em jogo
A indefinição americana ganha peso no segundo turno da eleição brasileira, marcado por episódios de interferência estrangeira e disputas sobre plataformas digitais. A campanha de Lula já recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral para cobrar isonomia de grandes empresas de tecnologia, como mostrou a reportagem sobre a cobrança do TSE à Meta.
O histórico recente do próprio Departamento de Estado reforça a preocupação dos parlamentares democratas. Em julho, a embaixada dos EUA procurou um líder do PL para tratar de urnas, e parlamentares americanos têm cobrado explicações sobre redes ligadas ao senador J. D. Vance e a possível ligação de Flávio Bolsonaro com grupos alinhados ao governo americano.
Para observadores brasileiros, a movimentação dos congressistas democratas é estratégica: a pressão pode constranger uma eventual ação desestabilizadora de Trump e servir como contraponto dentro dos próprios Estados Unidos, caso o presidente americano opte por não reconhecer uma eventual vitória de Lula.
Com informações de ICL Notícias (Jamil Chade)
RedeBrasil



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