A contadora brasileira que soma milhares de clientes nos Estados Unidos
Fernanda Spanner, 44 anos, construiu sua trajetória nos Estados Unidos como especialista em contabilidade internacional, planejamento tributário e estruturação de negócios para brasileiros que desejam empreender ou investir no mercado americano. À frente da Spanner Consulting Group, lidera operações em diferentes estados do país e atua na orientação de empresários, investidores e famílias em temas como compliance fiscal, proteção patrimonial e internacionalização de empresas. Licenciada pelo IRS como Enrolled Agent, uma das mais altas credenciais da área tributária nos EUA, se tornou referência para a comunidade empresarial brasileira que busca expandir sua atuação no mercado norte-americano. Da sede em Nova York, ela concedeu essa entrevista à coluna GENTE, na qual fala de sua trajetória e pontos de vista do mercado.
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MUDANÇA PARA OS EUA. “É uma história de superação num país de oportunidade e trabalho árduo. Só vem quem está com cabeça de querer crescer e montar o próprio negócio. Eu trabalhava como auditora interna da Câmara Municipal. Então, tinha uma profissão no Brasil. Larguei a vida de funcionária pública para montar um restaurante na minha cidade, o que deu certo. Deu tão certo, que começou a ficar estressante. Meu marido trabalhava comigo e era chef de cozinha. De tanto trabalho, estresse no dia a dia, a gente separou. E quando isso aconteceu, eu já tinha uma viagem marcada para a Flórida. Aproveitei essa viagem para tirar uns meses sabáticos. Quando cheguei nos Estados Unidos, não quis ficar parada, quis trabalhar. Consegui um emprego numa padaria brasileira. O que amei fazer, porque atendi pessoas, conversava com imigrantes… Ao longo do tempo fui pensando com o meu marido e decidimos ficar. Meu visto saiu muito rápido e pude trabalhar”.
VIRADA DE CHAVE. “No Brasil nunca trabalhei com escritório de contabilidade, só na área contábil, financeira, auditoria. E esse foi meu primeiro emprego na Flórida, onde fiquei por 7 meses, até receber convite para trabalhar no escritório de contabilidade de Nova York. E realmente Nova York foi um sonho, um presente na minha vida, foi aqui que tudo aconteceu. Quando cheguei nos Estados Unidos em 2016, tinha dificuldade muito grande para conseguir profissionais. Tanto profissionais brasileiros quanto estrangeiros ou americanos. Na procura para declarar meu imposto de renda, encontrei um contador. Foi lá que pensei: ‘e se eu montasse um escritório onde tenho todos esses serviços que um imigrante brasileiro precisa?’. Minha ideia inicial era trabalhar com contabilidade para brasileiros. Como sou formada no Brasil e apliquei para licença aqui nos Estados Unidos, conheço bem os dois mundos. O que percebi sobre os contadores americanos é que eles aparecem para trabalhar só entre janeiro e abril, depois somem. Então entrei com essa proposta do Brasil, que é acompanhar a empresa ao longo do ano todo”.
EXPANSÃO. “Hoje a gente atende outras nacionalidades, muito mais latinos. E aí veio a ideia de criar franquias para que e possa levar esse modelo de negócio A outros estados, mas sem que o peso fique todo só em mim. A gente treina esse profissional que comprou franquia para que ele possa desenvolver o trabalho. Uma vez que esse escritório é dele, ele vai se empenhar para aprender e angariar clientes”.
DIFICULDADES DE EMPREENDER. “Quando comecei a empreender, por estar nos Estados Unidos, achei que era tudo diferente do Brasil, que não tinha o ‘jeitinho’, que não tinha pessoas maliciosas. Mas gente ruim tem em qualquer lugar. Você acha que aqui está num país de primeiro mundo, todo mundo é honesto, mas não. A gente tem que vir blindado, também não é a terceira maravilha do mundo. A barreira cultural, a diferença na realidade cultural e da língua… No começo, a maior dificuldade que tive foi a de me adaptar à cultura dos Estados Unidos referente a trabalho”.
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OUTRA REALIDADE. “No Brasil, a Receita Federal já tem toda a informação que a gente precisa. O sistema que declara o Imposto de Renda é a Receita Federal quem fornece. Aqui não, você pode comprar sistemas. Umas das maiores barreiras é a falta de informação disponível. Tem que procurar muito, caçar muito para conseguir alguma informação”.
IMPOSTOS NOS EUA. “O Brasil é um dos países com a maior carga tributária do mundo, mas os Estados Unidos não ficam atrás. Aqui se paga muito Imposto de Renda. A diferença é que aqui não tem nada escondido. Você sabe o que paga de impostos. Não tem nada escondido dentro de um produto ou serviço. Aqui a carga o imposto é 37,5%, no Brasil é 27,5% sobre a renda. Então a carga aqui ainda é maior do que no Brasil. Mas você vê o que está pagando para o federal, para o estadual”.
SÍNDROME DE VIRA LATA. “Eu não acho que a gente tem a síndrome de vira lata. E não acho que está embutido na nossa cabeça que a gente não pode empreender. Muito pelo contrário, brasileiro tem uma criatividade, consegue se virar. No Brasil a gente tem que sofrer tanto para conseguir alguma coisa, e aqui o mínimo de esforço que a gente faz, já consegue crescer. Não é a população ou o brasileiro que tem síndrome de ser inferior, não. É porque no Brasil a gente só recebe paulada. Você emprega, vende uma coisa, vai montar uma barraquinha de para vender sorvete em frente à praia, vão lá e te taxam e falam: ‘Você está errado, tem que pagar multa’. Parece que o governo anda contra os empresários, contra o empreendedor”.
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BARREIRAS NA LUTA. “Lembro de uma situação que aconteceu em São Paulo, por exemplo, sobre aquelas scooterzinhas. A prefeitura de São Paulo foi lá e falou: ‘Não, tem que pagar imposto de trânsito, IPVA e não sei o quê…’. Pensa na pessoa que investiu para comprar essas motinhas, disponibilizar um serviço mundial e colocar isso em São Paulo. A gente tem medo de crescer, porque toda vez que cresce vem uma barreira. O governo luta contra você. Quando você está dando certo, inventam imposto, é muito difícil”.
REFORMA TRIBUTÁRIA NO BRASIL. “É uma maquiagem, é só para continuar cobrando imposto, dizendo que ‘pelo menos tentei melhorar’. No geral, estão unificando impostos, mas se for ver a quantidade, ao invés de cinco vão ser quatro. A reforma tributária está vindo mais para dar um chacoalhão de mentalidade. Está fazendo as pessoas se movimentarem, criando cursos para que a gente possa aprender uma nova forma de continuar sendo tributado. Estão unificando impostos, mas no fim vai ficar tudo a mesma coisa, não vai melhorar em nada para o contribuinte. A arrecadação vai continuar a mesma. A reforma que está acontecendo no Brasil, se for para resumir, está piorando o Brasil, não melhorando”.
GOVERNO TRUMP. “Os Estados Unidos continua sendo um país de oportunidade. Trump, economicamente, querendo ou não, é bom. A popularidade dele esse ano caiu bastante, mas é por conta das guerras nas quais anda se envolvendo. O tarifaço atrapalhou um pouco o comércio, mas não foi uma coisa no qual a gente perdeu muito,. A tarifa foi mais um jogo de tabuleiro de peças do que para fazer uma mudança econômica. O problema maior do Trump, tirando a parte de caçar confusão onde não deve, está sendo a imigração. Começou com uma ideia que, a meu ver, posso até ser crucificada depois, era muito legal. Você está morando aqui nos Estados Unidos, se cometeu crime, tem que ir embora. Os agentes imigratórios estavam indo atrás de pessoas que cometeram crimes. Mas não é mais isso que acontece, estão apreendendo e deportando pessoas que nunca cometeram crimes”.
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NÚMEROS DO SUCESSO. “Temos escritórios em Nova York, Nova Jersey, Flórida e Carolina do Sul. 75% dos nossos clientes vieram por indicação. A gente tem 3.000 clientes eventuais que vêm fazer as declarações de impostos, uma vez ao ano. E dentro desses 3.000 clientes, 800 deles são recorrentes, clientes mensais que trabalham com a gente nesses quatro escritórios. A gente tem 29% de faturamento acima do ano passado. Trabalham comigo cerca de 30 pessoas, entre os escritórios locais e remotos no Brasil”.
Fernanda Spanner – (Divulgação/Divulgação)



