Análise: Irã coloca o trumpismo à prova
O presidente Donald Trump está agora aplicando seu estilo imprevisível, que o ajudou a construir seu império empresarial e sua marca política, a um papel muito mais complexo e sensível como líder em tempos de guerra.
Os seguidores apreciam quando Trump desafia convenções – como o establishment republicano. Ele tende a manter flexibilidade evitando posições rígidas. Embora muitas vezes falte detalhes e contexto histórico, sua personalidade transmite confiança.
A habilidade de Trump em tomar decisões rápidas resultou em sucesso em uma audaciosa operação dos EUA que transferiu o ditador venezuelano Nicolás Maduro de seu quartel-general para uma cela de prisão em Nova York em janeiro. Entretanto, em muitas de suas declarações públicas sobre o conflito com o Irã, ele ainda não conseguiu comunicar a seriedade e clareza de um presidente tradicional em tempos de guerra.
Trump agora enfrenta desafios interligados no conflito. A resistência intensa de Teerã corre o risco de resultar em um impasse prolongado. A pressão econômica aumenta à medida que os preços do petróleo disparam após o Irã praticamente fechar o Estreito de Ormuz. Internamente, Trump enfrenta uma notável revolta política na terça-feira (17), quando um alto funcionário de segurança nacional alinhado ao movimento MAGA renunciou.
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Trump foi surpreendido pela intensidade dos contra-ataques de Teerã contra os aliados dos EUA no Golfo. Além disso, parecia não estar preparado para o fechamento do Estreito – algo que muitos especialistas já previam.
A tentativa do presidente de pressionar aliados a enviar navios ao Estreito de Ormuz encontrou resistência quando eles se recusaram a participar de uma guerra na qual não foram consultados.
Trump aposta que sua tolerância ao risco trará resultados
Quando presidentes em tempos de guerra não conseguem justificar claramente suas ações e estratégias, correm o risco de se perder estrategicamente e se distanciar do povo.
Entretanto, é cedo para avaliar completamente uma guerra na qual os ataques dos EUA e de Israel parecem ter enfraquecido significativamente a capacidade do Irã de ameaçar sua região e os Estados Unidos com seus programas nucleares e de mísseis balísticos.
Neste momento, é impossível prever como o futuro político do país se desdobrará após a morte de várias figuras de alto escalão do regime, incluindo Ali Larijani, líder político de longa data, na última terça-feira.
O tempo revelará se alguns dos instintos de Trump foram perspicazes e se sua disposição ao risco alcançou resultados que outros presidentes não conseguiram obter.
Porém, será desafiador para ele reivindicar uma vitória se o conflito terminar com o Estreito de Ormuz bloqueado, a economia global em xeque e os iranianos enfrentando uma repressão ainda mais severa sob um regime reconfigurado.
O mesmo se aplica se o Irã mantiver urânio altamente enriquecido que poderia ser utilizado em um programa nuclear futuro.
A resolução desses dilemas pode exigir operações ainda mais arriscadas – possivelmente envolvendo tropas terrestres – do que as tentativas feitas até agora.
Tais missões se beneficiariam de um planejamento presidencial meticuloso, objetivos claros e gestão cuidadosa das consequências e expectativas públicas.
Uma renúncia que afeta o cerne do movimento MAGA
A renúncia, na terça-feira, de Joe Kent, ex-diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA alinhado ao movimento MAGA, abalou Washington.
O episódio sugere que Trump está perdendo o controle de sua própria coalizão política e destaca uma questão crucial sobre a justificativa do presidente para a guerra.
Kent, um veterano das forças especiais que perdeu a esposa em um ataque do Estado Islâmico na Síria, escreveu a Trump em uma carta que foi enganado por uma campanha de desinformação israelense, levando-o a acreditar que uma vitória rápida sobre o Irã era viável.
Ele também argumentou que a República Islâmica não representava uma ameaça “iminente” à segurança nacional dos EUA, ao contrário das alegações de Trump e dos altos funcionários da administração.
“Você pode mudar de rumo e traçar um novo caminho para nossa nação, ou pode nos levar ainda mais para o declínio e o caos”, escreveu Kent. “A decisão está em suas mãos.”
Alguns legisladores do Partido Republicano afirmaram que as opiniões expressas por Kent em sua carta de renúncia eram antissemitas, com o deputado Don Bacon declarando nas redes sociais: “Adeus e boa sorte. O antissemitismo é inaceitável, e certamente não queremos isso em nosso governo.”
O senador Mitch McConnell expressou um sentimento semelhante, condenando o “antissemitismo virulento presente na carta de renúncia”.
Kent tem pouco em comum com proeminentes democratas que se opuseram à guerra. Ele já foi criticado no passado por suas conexões com figuras de extrema-direita, incluindo nacionalistas brancos e um simpatizante nazista.
No entanto, sua renúncia – em meio ao intenso tumulto sobre a guerra no movimento MAGA e entre figuras da mídia conservadora – mostra que, se o presidente tiver que enfrentar uma revolta política sobre a guerra, ela poderá surgir de sua própria base.
Isso representa um fator potencialmente significativo para um presidente que geralmente evita conflitos com sua base.
A renúncia de Kent também destaca o impacto duradouro de um comentário feito neste mês pelo Secretário de Estado Marco Rubio, de que os EUA entraram em guerra preventiva porque acreditavam que Israel estava prestes a atacar e que o Irã retaliaria atacando forças americanas.
Trump negou ter sido pressionado a entrar em guerra e afirmou que estava mais determinado que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.
Embora pesquisas mostrem que muitos eleitores republicanos ainda confiem em Trump, sinalizações de dissidência em sua base são relevantes, considerando a impopularidade da guerra entre a maioria dos eleitores. No passado, a opinião pública contrária enfraqueceu muitas guerras americanas.
Mensagens de guerra ainda mais imprecisas
Na terça-feira, Trump deu aos críticos mais motivos para questionar sua justificativa para a guerra, sua hesitação em indicar uma possível conclusão e a incoerência de suas posições.
Dias após solicitar que aliados dos EUA enviassem navios para ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz, ele afirmou que nunca quis isso. “Não pressionei totalmente porque acredito que, se o tivesse feito, eles teriam ido, mas não precisamos de ajuda”, declarou.
Questionado se temia que o Irã se tornasse um novo Vietnã se tropas fossem enviadas ao solo, Trump respondeu: “Não, não tenho medo… na verdade, não tenho medo de nada.”
Outro repórter perguntou a Trump se tinha um plano para o dia seguinte ao término das operações militares. “Temos muitos”, disse, embora não tenha especificado nenhum. “Se saíssemos agora, levaria 10 anos para eles se reconstruírem. Mas ainda não estamos prontos para sair, embora sairemos em um futuro próximo.”
Trump tem oferecido justificativas às vezes contraditórias para entrar em guerra. Ele insinuou que o Irã era uma ameaça iminente aos EUA sem apresentar evidências. Além disso, sugeriu buscar uma mudança de regime ao lançar o ataque, mas desde então minimizou a possibilidade de uma revolta popular no Irã.
Na segunda-feira (16), o presidente levantou novas preocupações ao não parecer totalmente convencido, em sua própria mente, dos motivos que o levaram à guerra. Negou que a justificativa fosse o petróleo, mas fez um comentário enigmático: “Não precisamos disso, mas fizemos. É quase – poderíamos dizer que fizemos por hábito, o que não é algo positivo. Mas fizemos porque temos bons aliados lá.”
Trump aumentou a confusão ao afirmar repetidamente que a guerra já está ganha, enquanto argumenta que ainda não é o momento certo para trazer as tropas americanas de volta para casa. Ele diz que saberá o momento adequado “por instinto”.
Sua confiança em sua intuição quase mística o ajudou a superar diversos desafios pessoais, empresariais e políticos. Contudo, agora representa outra aposta arriscada, à medida que momentos de grande consequência e possíveis dores se aproximam no conflito.



