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CEO compra suplemento falsificado da própria marca em marketplace: ‘Quero ver o que vai chegar’ | Empresas

CEO compra suplemento falsificado da própria marca em marketplace: ‘Quero ver o que vai chegar’ | Empresas

CEO compra suplemento falsificado da própria marca em marketplace: ‘Quero ver o que vai chegar’ | Empresas

David Kato, fundador da marca de suplementos alimentares Nuture, comprou a versão falsificada de seu próprio produto no marketplace Mercado Livre após, segundo ele, ter tido pedidos de remoção de anúncios enganosos negados pela plataforma. O produto em questão, um multivitamínico matinal, é apresentado no sabor morango — algo que a marca não lançou.

Kato afirma que os produtos da sua marca são vendidos exclusivamente pelo site da sua empresa, que não tem página oficial em marketplaces. Ainda segundo o fundador, a marca não trabalha com distribuição ou fornecimento dos produtos para outras lojas de revendedores.

“Eu comprei a versão falsa da minha própria marca para ver o que é que vai chegar aqui na minha casa”, escreveu em uma rede social. Print – publicação Linkedin – David Kato — Foto: Redação Valor Econômico

Há pouco menos de uma semana, a equipe de vendas da empresa identificou o perfil que divulga uma versão “claramente falsificada” do seu produto, em suas palavras. “É uma falsificação bem grosseira. Eles pegaram o modelo da nossa lata de embalagem, fizeram uma pequena alteração, provavelmente usando inteligência artificial, colocaram um outro sabor que não era o original e começou a vender”, diz.

Produto falso, em cores amarelas – Produto Original, em cores verdes — Foto: Redação Valor Econômico

A página do vendedor que está disponibilizando o produto segue ativa no Mercado Livre nesta sexta-feira (22). O perfil já ultrapassou a marca das 1.000 vendas na plataforma e tem a reputação “bem avaliada”, com destaques a “bom atendimento” e “entrega rápida”, além do selo verde de qualidade do Mercado Livre.

“Isso dificulta a situação, porque em tese, você como cliente, olha para essa página e assume que está comprando de um bom fornecedor, já que ele tem boas avaliações”, alega o dono da marca original.

Print de tela – Mercado Livre — Foto: Redação Valor Econômico

Ele diz que, além do prejuízo financeiro, também vê um desgaste da marca, já que os produtos chegam aos clientes com sua logomarca, mas sem a mesma garantia de segurança que o produto original.

Denúncias ao marketplace

Kato explica que entrou com pedidos via Brand Protection Program, do Mercado Livre próprio para essas situações, mas que a solicitação não foi aprovada mesmo após o envio de documentação comprovando a falsificação.

“É necessário enviar a documentação comprovando que sou o dono da marca para se ter acesso ao programa de proteção de marca. Então, faço a busca do anúncio fraudulento e denuncio. No entanto, dessa vez, minha requisição foi negada duas vezes”, diz. Print – redes sociais David Kato — Foto: Redação Valor Econômico

Segundo ele, denunciar é um processo “relativamente simples”, mas reclama que deveria ser feito pelas próprias plataformas de vendas, e não pelas marcas.

“A plataforma delega a responsabilidade de monitorar a venda de produtos falsos para a marca, sendo que são eles que disponibilizam o produto. Eu sou basicamente obrigado a dedicar uma parte dos meus esforços a monitorar se eles estão vendendo produtos falsos da minha marca”, reclama.

Na tentativa de mitigar os prejuízos e evitar novas situações do tipo, Kato revela que está planejando abrir sua página oficial em marketplaces, o que ainda não existe atualmente. “É uma tentativa de absorver essa demanda”, diz. “E [também] garantir que nosso cliente receba um produto com a fórmula correta. Só que, para isso, eu estou tendo que abrir mão de uma parte da minha receita, que fica com as plataformas, e também do contato direto com meu cliente, o que não fazia parte dos meus planos inicialmente.”

Suplementos falsificados são risco à saúde

A nutricionista Juliana Rocha, integrante do Conselho Regional de Nutrição 4ª Região (CRN-4), afirma que a compra de produtos alimentares falsos pode gerar problemas graves de saúde. “Você perde a clareza sobre os componentes daquele produto e dos seus efeitos”, explica.

“Você não sabe da procedência da composição, do controle de qualidade no armazenamento, na produção, na distribuição, então deixa de ser uma questão meramente de qualidade e passa a ser um problema sanitário, inclusive”, explica.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) disponibiliza um guia para identificar se um suplemento alimentar é autorizado ou não no Brasil. A agência orienta que consumidores verifiquem se suplementos alimentares estão regularizados consultando o número de registro ou de notificação informado no rótulo do produto no sistema oficial.

Segundo o órgão, produtos com status ‘ativo’ estão autorizados para comercialização, enquanto itens ‘inativos’ não são considerados regularizados.

Procurada pelo Valor, o Mercado Livre não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto.

*Estagiário sob supervisão de Diogo Max

Créditos