Como China e Europa reagiram às tarifas — e o que o Brasil deveria fazer
As tarifas dos Estados Unidos levaram o Brasil a observar as estratégias utilizadas por China e Europa diante da pressão comercial de Washington.Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais
As tarifas dos Estados Unidos colocaram o Brasil em uma posição que, até pouco tempo atrás, parecia reservada aos principais adversários comerciais de Washington. Com a nova sobretaxa de 25% sobre uma extensa lista de produtos brasileiros, o país passou a integrar o grupo das economias submetidas às barreiras mais elevadas pela administração Donald Trump.
Segundo cálculos da iniciativa Global Trade Alert reproduzidos pela imprensa, a tarifa média efetivamente aplicada aos produtos brasileiros poderá chegar a aproximadamente 14,9%. Nessa metodologia, o Brasil passaria à segunda posição entre os países mais tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China. O cálculo considera as alíquotas que realmente incidem sobre as mercadorias, levando em conta as exceções — e não apenas os percentuais anunciados nas manchetes.
O dado é impressionante porque o Brasil não é um rival estratégico dos Estados Unidos, não representa uma ameaça tecnológica comparável à China e nem sequer mantém um grande superávit comercial contra os americanos. Pelo contrário: Washington acumula resultados positivos expressivos na relação bilateral.
Entre no grupo
A questão agora é saber como responder. Para isso, vale observar o que fizeram duas economias que enfrentaram o mesmo problema em escala ainda maior: China e União Europeia.
A China respondeu às tarifas dos Estados Unidos com confronto e resistência
A China não tentou convencer Washington apenas com argumentos sobre livre comércio. Quando Trump impôs tarifas sobre produtos chineses, Pequim respondeu com tarifas próprias, restrições a empresas americanas, ações na Organização Mundial do Comércio e controles sobre produtos estratégicos.
A reação chinesa foi possível porque o país possuía instrumentos reais de pressão.
A China é um dos maiores mercados consumidores do planeta, desempenha papel central nas cadeias industriais e domina etapas essenciais do processamento de minerais críticos. Nos últimos anos, Pequim passou a utilizar controles sobre terras raras, grafite e outros insumos indispensáveis às indústrias de defesa, energia, eletrônicos e veículos como instrumento de negociação.
A Agência Internacional de Energia calcula que as restrições chinesas envolvendo terras raras podem colocar em risco trilhões de dólares em produção industrial fora do país. Setores americanos e europeus dependem desses materiais em pequenas quantidades, mas dificilmente conseguem substituí-los no curto prazo.
A mensagem de Pequim foi clara: se Washington possui poder para fechar seu mercado, a China também possui meios para interromper cadeias produtivas das quais os Estados Unidos dependem.
Essa estratégia trouxe resultados parciais. Depois de sucessivas rodadas de escalada, os dois países negociaram reduções, suspensões temporárias e ajustes em algumas medidas. Ainda assim, grande parte da estrutura tarifária permaneceu, mostrando que o confronto não eliminou o conflito — apenas estabeleceu uma forma de equilíbrio pela capacidade mútua de causar prejuízos.
A China pôde sustentar essa estratégia porque tem escala econômica, capacidade financeira, controle de tecnologias e um mercado interno que poucos países possuem. O custo foi elevado, mas Pequim entendeu que a disputa não era apenas comercial. Era uma competição sobre tecnologia, segurança e poder global.
A Europa preparou a retaliação, mas usou a ameaça para negociar
A União Europeia adotou uma estratégia diferente.
Bruxelas também preparou listas de produtos americanos que poderiam receber tarifas adicionais. A escolha não foi aleatória. Em disputas anteriores, os europeus procuraram atingir mercadorias produzidas em regiões politicamente importantes dos Estados Unidos, aumentando a pressão sobre parlamentares, governadores e setores empresariais próximos à Casa Branca.
Mas a União Europeia frequentemente adiou a aplicação efetiva dessas contramedidas para preservar espaço de negociação. Essa diferença é fundamental.
Para os europeus, a retaliação não precisava ser necessariamente aplicada para produzir efeito. Bastava ser juridicamente viável, economicamente relevante e politicamente crível.
Ao mesmo tempo, a União Europeia utilizou sua força regulatória, seu mercado de aproximadamente 450 milhões de consumidores e sua política comercial comum. Uma empresa americana que deseja acessar o mercado europeu não negocia separadamente com França, Alemanha, Itália ou Espanha. Enfrenta um bloco integrado, com tarifa externa, legislação comercial e instrumentos de defesa comuns.
A Europa também procurou separar os setores. Negociou exceções, preservou cadeias industriais transatlânticas e evitou transformar todas as divergências em uma única guerra comercial. Essa postura não impediu perdas nem garantiu vitórias permanentes, mas ampliou o custo de uma escalada para os próprios Estados Unidos.
A lição europeia não é aceitar as tarifas. É preparar a resposta e escolher cuidadosamente o momento de utilizá-la.
O Brasil não é China nem União Europeia
Esse é o ponto mais importante para a reação brasileira.
O Brasil não possui a escala econômica chinesa, não controla cadeias tecnológicas comparáveis e não dispõe de um mercado integrado com centenas de milhões de consumidores de alta renda como a União Europeia.
Por isso, copiar mecanicamente a estratégia de Pequim seria perigoso.
Uma guerra tarifária aberta contra os Estados Unidos não produziria prejuízos simétricos. A economia americana possui maior capacidade de absorver perdas, redirecionar fornecedores e intensificar medidas de pressão. O próprio USTR já advertiu que uma retaliação brasileira poderia provocar novas ações de Washington.
Mas copiar apenas a cautela europeia também não seria suficiente. A capacidade de barganha de Bruxelas vem da possibilidade concreta de fechar um mercado continental e impor custos bilionários a empresas americanas. O Brasil possui instrumentos de resposta, mas sua força relativa é menor.
Isso não significa que o país esteja indefeso. Significa que precisará utilizar seus instrumentos com maior precisão.
A reciprocidade deve ser uma ferramenta, não uma descarga emocional
O governo brasileiro anunciou a abertura dos procedimentos da Lei da Reciprocidade Econômica. A medida é legítima. Nenhum país pode aceitar passivamente barreiras que considere injustificadas.
O erro seria tratar a reciprocidade como sinônimo de aplicar uma tarifa de 25% sobre qualquer produto americano apenas para produzir uma resposta equivalente no discurso.
Uma reação eficiente precisa atingir setores nos quais os Estados Unidos sintam pressão política, mas sem encarecer insumos fundamentais para a indústria brasileira. Isso exige análise técnica, consulta ao setor produtivo e avaliação das alternativas disponíveis.
Taxar máquinas, medicamentos, equipamentos tecnológicos ou componentes utilizados por fábricas brasileiras pode prejudicar mais o Brasil do que os Estados Unidos.
A retaliação só é útil quando aumenta o poder de negociação. Quando apenas eleva custos domésticos, transforma-se em uma punição contra o próprio país.
Empresas americanas podem ser aliadas do Brasil
A lista de exceções anunciada por Washington mostra que a administração Trump também fez seus cálculos.
Café, carne bovina, suco de laranja, petróleo, determinados medicamentos e componentes aeronáuticos ficaram fora da nova sobretaxa. A preocupação americana não foi proteger o Brasil, evidentemente. Foi evitar inflação, escassez e danos às próprias cadeias produtivas.
Esse é um caminho de negociação importante.
Empresas americanas que dependem de componentes, matérias-primas ou produtos brasileiros podem exercer pressão mais efetiva sobre Washington do que discursos feitos em Brasília. Importadores que terão custos maiores, fábricas que utilizam peças brasileiras e consumidores ameaçados por aumentos de preços são interlocutores fundamentais.
A China aprendeu a explorar as dependências estratégicas dos Estados Unidos. A Europa aprendeu a mobilizar o peso de seu mercado. O Brasil precisa identificar quais dependências americanas pode utilizar de forma legítima para ampliar exceções.
Diversificar mercados é necessário, mas não acontece por decreto
O governo também afirma que responderá ao tarifaço acelerando a abertura de novos mercados.
A direção está correta. A dependência excessiva de qualquer comprador aumenta a vulnerabilidade de empresas e setores econômicos. Acordos com União Europeia, Associação Europeia de Livre Comércio e países asiáticos podem ampliar alternativas no médio prazo.
Mas diversificação não é uma resposta instantânea.
Cada mercado possui regras sanitárias, padrões técnicos, redes de distribuição, concorrentes, hábitos de consumo e custos logísticos próprios. Uma empresa que vende aos Estados Unidos não consegue simplesmente transferir toda a produção para a Ásia ou para a Europa na semana seguinte.
O trabalho precisa envolver inteligência comercial, promoção de exportações, financiamento, redução de burocracia e maior competitividade dentro do próprio Brasil.
Não basta assinar acordos comerciais se nossas empresas continuarem enfrentando crédito caro, infraestrutura insuficiente, insegurança jurídica e uma carga tributária difícil de administrar.
O Brasil precisa construir um terceiro caminho
A experiência internacional mostra que não existe uma única resposta para as tarifas americanas.
A China respondeu como uma superpotência capaz de impor perdas relevantes aos Estados Unidos. A União Europeia reagiu como um bloco continental, preparando contramedidas e utilizando seu enorme mercado como instrumento de pressão.
O Brasil terá de agir como aquilo que realmente é: uma potência média, com peso econômico e diplomático relevante, mas sem capacidade para sustentar uma guerra comercial simétrica contra Washington.
Esse terceiro caminho deve combinar negociação firme, reciprocidade seletiva, atuação na OMC, mobilização das empresas americanas afetadas, abertura de novos mercados e redução dos custos internos que diminuem a competitividade brasileira.
A posição de segundo país mais tarifado pelos Estados Unidos é um alerta grave. Mas ela não precisa transformar o Brasil em uma versão menor da China nem em um observador passivo das decisões americanas.
O país não vencerá essa disputa pela força bruta. Vencerá se souber transformar seus ativos econômicos, diplomáticos e comerciais em instrumentos de negociação.
China confrontou. A Europa ameaçou retaliar enquanto negociava. O Brasil precisará fazer algo mais difícil: descobrir quais batalhas realmente pode vencer.



