Crise na PM de SP e suposto envolvimento com PCC abalam credibilidade de Tarcísio e favorecem Haddad nas eleições 2026
A Polícia Militar de São Paulo atravessa uma das maiores crises de sua história recente. Investigações da Corregedoria da PM e do Ministério Público revelaram supostos vínculos entre oficiais de alto escalão e o Primeiro Comando da Capital (PCC), colocando em xeque a credibilidade do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e abrindo espaço para o avanço do ex-ministro Fernando Haddad (PT) na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes.
O ponto de partida da crise foi a troca no comando da PM paulista, em abril de 2026. Tarcísio removeu o coronel José Augusto Coutinho do cargo de comandante-geral após investigações apontarem que ele teria se omitido diante de denúncias envolvendo policiais da Rota — unidade de elite da corporação — que estariam repassando informações ao PCC em troca de propina.
A troca no comando da PM
De acordo com documentos obtidos pela imprensa, dois relatórios confidenciais foram entregues ao procurador-geral de Justiça de São Paulo. Um deles era o depoimento do promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que já atuou em investigações de grande repercussão contra o PCC.
O outro documento era uma representação formal do promotor da Justiça Militar Bruno Servello Ribeiro, apontando suspeitas de inércia por parte do então comandante. Gakiya relatou que apresentou a Coutinho evidências de que informações sobre operações policiais contra a facção estavam vazando para líderes criminosos. Durante a reunião, o coronel teria escutado áudios que confirmavam o esquema, sem tomar nenhuma providência.
No lugar de Coutinho, Tarcísio nomeou a coronel Glauce Anselmo Cavalli — a primeira mulher a comandar a PM paulista em dois séculos de história. A substituição, no entanto, não foi suficiente para conter os desdobramentos do caso.
Mensagens, propinas e o caso Gritzbach
As investigações não pararam na troca de comando. Em fevereiro, a Corregedoria já havia apreendido mensagens de texto que sugeriam uma suposta conexão entre o ex-vereador Milton Leite (União Brasil) e policiais militares detidos sob suspeita de oferecer segurança privada a diretores da Transwolff, empresa investigada por suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC.
Nas conversas, os PMs se referiam a “chefe Milton” ao explicar atrasos em serviços e discutiam valores que, de acordo com a investigação, seriam propina. Um dos sargentos disse à Corregedoria que Milton Leite seria “efetivamente” o proprietário da empresa e que os demais diretores seriam “laranjas”, embora tenha admitido que apenas “ouviu dizer” e não apresentou provas concretas.
Em junho, outro episódio agravou a situação. Começou em Guarulhos o julgamento de três policiais militares acusados de executar o empresário e delator Antônio Vinícius Gritzbach no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em novembro de 2024. O crime, ocorrido em plena luz do dia na área de desembarque, expôs as supostas ramificações entre o crime organizado e agentes de segurança pública.
O impacto político em Tarcísio
A sucessão de revelações sobre a relação entre policiais e o PCC abalou a imagem de Tarcísio de Freitas, que fez da segurança pública uma de suas principais bandeiras de governo.
A situação se agravou porque o ex-secretário da Segurança Pública Guilherme Derrite, pré-candidato ao Senado e apoiado por Tarcísio, havia indicado pessoalmente os dois comandantes da PM que acabaram substituídos. Ou seja, a crise atingiu diretamente aliados próximos do governador.
O governador também enfrenta questionamentos sobre sua capacidade de gerenciar a segurança pública. Durante sua gestão, a PM passou por duas mudanças de comando em menos de dois anos, algo incomum para uma corporação que tradicionalmente valoriza a estabilidade hierárquica.
Haddad se aproxima na disputa
Enquanto a crise na segurança pública avança, as pesquisas eleitorais mostram um cenário cada vez mais apertado na disputa pelo governo de São Paulo. Levantamento do Instituto Paraná Pesquisas de junho apontava Tarcísio com 45,6% das intenções de voto contra 34,1% de Haddad — uma diferença de 11,5 pontos percentuais que vem caindo desde o início do ano, quando ultrapassava 20 pontos.
Na capital paulista e na região metropolitana, Haddad já aparece à frente, segundo pesquisas. O ex-ministro reduz a distância especialmente entre eleitores de menor renda e moradores da periferia, justamente os mais afetados pela violência e pela atuação do crime organizado.
A crise na PM pode acelerar essa tendência. Para o eleitor que prioriza a segurança pública, a imagem de Tarcísio como gestor eficiente na área foi arranhada. Já Haddad, que foi prefeito de São Paulo entre 2013 e 2016, tem usado o tema para atacar a gestão estadual, lembrando que a capital implementou programas como a Guarda Civil Metropolitana durante sua administração.
O que esperar daqui para frente
As investigações sobre a ligação de policiais com o PCC devem continuar avançando. O julgamento dos PMs acusados pela morte de Gritzbach pode revelar novos detalhes sobre a suposta infiltração da facção na corporação. Além disso, a CPI do Crime Organizado no Senado também pode convocar autoridades paulistas para prestar esclarecimentos.
A menos de dois meses das eleições, cada reviravolta nessa história tem potencial para redefinir as intenções de voto. Se novas evidências ligarem diretamente o alto escalão da PM ao PCC, Tarcísio pode perder ainda mais terreno. Se conseguir demonstrar que tomou as medidas cabíveis e afastou os envolvidos, pode recuperar a confiança do eleitorado.
O que está claro é que o caso marcou a campanha eleitoral paulista e deve ser um dos temas mais debatidos até outubro.
Com informações de Rede Brasil Notícias, Estadão e G1
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