Esquema de Flávio Bolsonaro: 72% do dinheiro para custeio
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) comandou os seis hospitais federais do Rio de Janeiro entre 2019 e 2022 mesmo sem ocupar cargo formal no governo do pai. A conclusão é de uma investigação da Agência Pública, que ouviu gestores, ex-gestores, parlamentares, servidores e integrantes de órgãos de controle. O material detalha como funcionava o esquema de Flávio Bolsonaro nos hospitais e o que aconteceu com as unidades durante a pandemia de Covid-19.
As seis unidades (Andaraí, Geral de Bonsucesso, Cardoso Fontes, Ipanema, Lagoa e dos Servidores) tiveram orçamento superior a R$ 3 bilhões nos quatro anos. Os documentos mostram que a precariedade convivia com contratos superfaturados e com a concentração de recursos em custeio administrativo.
O assunto já circulava na política fluminense. Em março de 2026, o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) acusou publicamente o senador de liderar o grupo. “Toda a estrutura de poder e de indicação política, e as empresas que participariam de licitações, que ganhariam ou perderiam, tudo isso estava dentro do grupo cuja cabeça era o senador Flávio Bolsonaro”, afirmou.
Como o esquema de Flávio Bolsonaro funcionava nos hospitais
Segundo a apuração, passava pelo senador a indicação de quem seria diretor das unidades. A troca de comando coincidia com o fim dos contratos. Quando um novo diretor chegava, não havia tempo para abrir licitação regular, e um contrato emergencial era assinado.
O diagnóstico de 235 páginas do Ministério da Saúde, de fevereiro de 2023, descreve esse mecanismo. “Não raro a troca de diretor ou de coordenador de Administração coincidia com a proximidade do término de um contrato, e quando um novo diretor era nomeado não tinha tempo hábil para iniciar processos regulares, e um novo contrato emergencial era efetuado”, registra o documento.
Esses contratos emergenciais, ainda de acordo com o relatório, costumavam sair com valor acima do licitado. O Hospital de Bonsucesso teve cinco trocas de direção no período.
72% dos recursos para custeio e margens de 561%
O mesmo diagnóstico mostra que 72% do dinheiro dos seis hospitais, cerca de R$ 50,3 milhões por mês, ia para custeio, como limpeza, vigilância e rouparia. Em Bonsucesso, essa fatia chegava a quase 80%.
Os contratos da Nova Rio Serviços Gerais aparecem com margens de lucro até 561% acima do acordado. Os custos indiretos chegavam a ser 581% superiores aos valores de referência do ministério.
Aliados do senador também aparecem nos contratos. A lavanderia Max Clean, fundada pelo pai do deputado Altineu Côrtes (presidente do PL no Rio) e registrada no nome de uma tia dele, multiplicou o faturamento por oito no período. Segundo o Portal da Transparência, a empresa já recebeu R$ 81,5 milhões do Ministério da Saúde em centenas de contratos e segue recebendo.
Não existe um cálculo consolidado do sobrepreço total de 2019 a 2022. A Agência Pública obteve, no entanto, 13 relatórios do Tribunal de Contas da União e cinco da Controladoria-Geral da União que apontam valores acima do mercado. Em um pregão eletrônico de 2022 do Hospital dos Servidores, de R$ 120,9 milhões em insumos para cirurgia vascular, os auditores encontraram falhas na estimativa de preços.
A pandemia, os leitos fechados e as mortes
O relatório final da CPI da Covid dedica um capítulo ao Rio de Janeiro. O texto registra que 30% dos leitos clínicos e de UTI dos hospitais e institutos federais da capital estavam e permaneceram fechados durante a pandemia, a maior parte por falta de profissionais.
O estado somou mais de 2,8 milhões de casos confirmados e 77.166 mortes, sendo 38,8 mil na capital. Em um terreno do Hospital Cardoso Fontes, segundo inquérito da Polícia Civil, a milícia chegou a cobrar estacionamento de funcionários e de familiares de pacientes.
Em abril de 2023, a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara visitou a rede a pedido do deputado e médico sanitarista Daniel Soranz (PSD-RJ). Os parlamentares encontraram 735 leitos inoperantes ou bloqueados, andares vazios, alas trancadas com correntes e cadeados, obras paralisadas e equipamentos parados.
Em Bonsucesso, um incêndio no almoxarifado matou quatro pacientes com Covid. “É ainda mais grave que isso tudo tenha ocorrido durante a pandemia”, afirmou Soranz, doutor em saúde pública pela Fiocruz e ex-secretário municipal de Saúde do Rio em três gestões de Eduardo Paes.
O “poderoso chefão” e o peso político do caso
Em maio, durante uma inauguração na Fiocruz, o ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT-SP) chamou Flávio de “o poderoso chefão” dos hospitais federais do governo do pai. Em entrevista em setembro, ele repetiu a expressão e disse que passava pelo senador a indicação de diretores e as decisões sobre contratos.
O diretor do Hospital dos Servidores, João Marcelo Ramalho Alves, lembra que só o Rio tem hospitais federais, porque a cidade foi capital até 1960. Com a mudança da capital para Brasília, as unidades ficaram expostas à influência de políticos fluminenses.
Para entender o que já se sabia sobre o caso, vale ler a reportagem sobre o ex-aliado que acusou Flávio Bolsonaro de liderar o esquema.
O que esperar daqui para frente
O material da Agência Pública reúne depoimentos, documentos internos e relatórios de controle produzidos entre 2019 e 2023. Não há, até agora, decisão judicial que responsabilize o senador pelos contratos das unidades federais.
A apuração reforça o desgaste do candidato na área da saúde. O tema entrou na campanha depois que Padilha popularizou a expressão e que o próprio Flávio passou a responder publicamente sobre a rede federal do Rio.
A discussão deve voltar ao noticiário nas próximas semanas, à medida que novos trechos da investigação forem publicados e que os órgãos de controle retomarem as auditorias sobre os contratos emergenciais das seis unidades.
Com informações da Agência Pública, via Termômetro da Política.
RedeBrasil



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