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Fernando Achiamé – ES HOJE

Fernando Achiamé – ES HOJE

Fernando Achiamé – ES HOJE

Tenho escrito aqui sobre grandes nomes da história do Espírito Santo, sobretudo sobre aqueles que também produziram grandes obras literárias. Já citei Renato Pacheco, quando escrevi sobre o extraordinário romance A Oferta e o Altar, e Luiz Guilherme Santos Neves, quando abordei o Chamas na Missa. São dois romances históricos fundamentais para entender o Espírito Santo de hoje, embora se desenrolem em momentos diferentes do passado. Também citei a qualidade do que se produz hoje na área de História da Ufes, por meio de duas professoras e pesquisadoras de alto nível: Adriana Campos e Kátia Mattos.

Entretanto, gostaria de lembrar outro autor de grande porte: Fernando Achiamé. Ele tem uma obra muito vasta. Um de seus livros mais importantes é o O Espírito Santo na Era Vargas: elites políticas e reformismo autoritário, publicado em 2010 pela prestigiada Editora da Fundação Getúlio Vargas. Trata-se de um estudo sobre a gestão de João Punaro Bley, que governou o Espírito Santo por 13 longos anos, entre 1930 e 1943, e iniciou a transição capixaba para a industrialização e para um Estado socialmente mais comprometido com as massas.

A importância de Achiamé me veio à mente quando li, recentemente, um ensaio que ele escreveu para um livro sobre os 190 anos da Assembleia Legislativa, tratando de um episódio historicamente importante em nosso Estado. Esse episódio se passou em 1916, quando forte desentendimento entre as elites capixabas fez surgir um movimento de contestação à hegemonia da oligarquia dos Monteiro, que era capitaneada pelos irmãos Jerônimo e Bernardino, além do Bispo Dom Fernando.

Antes de falar da Revolta de Xandoca, que é nome que o episódio histórico tomou, Achiamé faz uma necessária contextualização do que era o Espírito Santo em 1916: um Estado agrícola. A população do Estado girava em torno de 460 mil pessoas que, na grande maioria, habitava o meio rural e era analfabeta. Vitória abrigava cerca de 22 mil moradores, conforme o Recenseamento do Brasil de 1920. A estrutura da sociedade capixaba caracterizava-se por ser bastante desigual, hierarquizada e com bem pouca mobilidade: uma pequena elite dominante, uma classe média restrita e, na base da pirâmide social, uma ampla massa de trabalhadores subalternos, como nos lembra o autor.

O universo do coronelismo dominava a política, o que significa que as eleições eram fortemente marcadas pela manipulação do voto, que não era secreto, e por fraudes eleitorais no processo de apuração e verificação dos resultados. Para se ter uma ideia de como vivíamos a democracia, em boa parte dos anos em que os Monteiro e seu partido tomaram conta do Espírito Santo, entre 1908 e 1930, tínhamos quatro deputados federais: três deles saíam de acordos internos do partido, e o quarto era escolhido entre candidaturas avulsas e/ou dissidentes do partido único, para não dizer que éramos uma ditadura de partido único.

Em 1915, um presidente do Estado, o Coronel Marcondes de Souza, ligado visceralmente aos Monteiro, comandou as mudanças de toda a legislação eleitoral – que era estadual – para facilitar a vitória de Bernardino em sua candidatura ao governo. Na mais flagrante manobra, estenderam a vigência do mandato dos deputados da Assembleia Legislativa por alguns meses, para que a velha Assembleia, totalmente governista, desse posse ao novo governante. Isso não foi aceito pelos dissidentes e criou-se a chamada duplicata: duas Assembleias que deram posse a dois presidentes do Estado. Instalou-se a desordem.

Eu sempre afirmei que os coronéis eram portadores de violência e de progresso. No artigo que será brevemente publicado, o que Achiamé descreve é a escalada da violência que tomou conta do Estado, em municípios como Cachoeiro de Itapemirim, Alegre, Itapemirim, Anchieta — quase uma guerra.

Choques armados, com mortos e muitos feridos, ocorreram em várias localidades do Estado – Alegre, Cachoeiro de Itapemirim, Itapemirim, Guarapari — e, sobretudo, em Afonso Cláudio, com vinte duas mortes, inclusive a de um deputado, devido a escaramuças e lutas entre tropas enviadas pelo governo e forças contrárias dos coronéis locais. São registros de Namy Chequer, citado por Achiamé, autor de uma alentada dissertação de mestrado também sobre A Revolta de Xandoca.

Esse era o mundo violento dos coronéis que muitos de seus biógrafos não contam em seus textos e que seus discursos eruditos ocultam. Ainda bem que temos em nosso Estado historiadores da dimensão de Fernando Achiamé, que nos mostram certas verdades. Ele, como sempre, está de parabéns por mais essa relevante contribuição histórica, assim como a Assembleia Legislativa e a Ufes pela publicação de tão importante trabalho.

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