‘Mais uma tentativa de ganhar tempo’: especialista desmonta oferta de cessar-fogo de Trump ao Irã
‘Mais uma tentativa de ganhar tempo’: especialista desvenda proposta de cessar-fogo de Trump ao Irã
Em meio a uma disputa de narrativas que já se prolonga por semanas, o governo dos Estados Unidos acrescentou mais um capítulo à sua estratégia imprevisível no conflito com o Irã. Na última segunda-feira, Donald Trump divulgou um ultimato de cinco dias para que os iranianos aceitassem uma oferta de cessar-fogo, sob ameaça de consequências, caso recusassem.
“Parece ser mais uma manobra para ganhar tempo do que uma genuína proposta de paz”, opina o professor e pesquisador de Relações Internacionais Ricardo Leães, no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato. “Não podemos esquecer que os Estados Unidos, em duas ocasiões anteriores, atacaram o Irã durante negociações em andamento.”
Leães lembra que tanto na Guerra dos 12 Dias, em junho do ano passado, quanto no atual conflito iniciado em 28 de fevereiro deste ano, havia diálogos diplomáticos em curso quando Trump decidiu agir. “É evidente que o governo iraniano não se esqueceu desses eventos e reconhece a falta de confiabilidade em Donald Trump, uma vez que estamos lidando com alguém que mente compulsivamente, enviando frequentemente sinais contraditórios e informações incoerentes.”
A seleção do prazo de cinco dias e a especulação sobre um eventual cessar-fogo a ser anunciado no sábado (28/03) — dia em que os mercados financeiros estão fechados — reforçam a suspeita de que os EUA buscam mitigar os impactos econômicos de suas próprias ações.
“Donald Trump estipulou um prazo de cinco dias para não atacar instalações elétricas no Irã. Esse prazo chega ao fim hoje. É importante lembrar que as ações de Donald Trump costumam ocorrer aos sábados, dado o fechamento dos mercados, reduzindo assim o risco de repercussões nos preços do petróleo”, explica Leães.
O professor destaca que o canal 12 de Israel, próximo ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, chegou a divulgar que Trump estaria próximo de anunciar um cessar-fogo no sábado. “Parece ser também uma tática. Não há indicações de que os iranianos estejam dispostos a aceitar um cessar-fogo. Não faz sentido um cessar-fogo agora, enquanto o Estreito de Ormuz permanece fechado pelos iranianos e eles ainda conseguem atingir todas as bases militares dos EUA no Oriente Médio.”
Segundo Leães, tudo aponta para mais uma escalada do conflito. “Donald Trump não tinha um plano bem estruturado para essa guerra. Ele acreditou que o assassinato do Aiatolá Ali Khamenei seria suficiente para derrubar o governo iraniano. Isso não se concretizou, e agora ele está improvisando.”
Por sua vez, Israel continua insistindo na estratégia de eliminar líderes militares iranianos. Recentemente, o país afirmou ter eliminado o comandante da marinha iraniana, Alireza Tangsiri, responsável pelas operações no Estreito de Ormuz. O governo iraniano ainda não confirmou a informação.
O professor recorda que Israel e Estados Unidos já assassinaram o próprio líder supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei — uma figura de grande importância política, religiosa e espiritual não apenas no Irã, mas em diversos países. “Houve várias manifestações de luto pela morte de Ali Khamenei no Irã, Iraque, Líbano, Bahrein, Índia e Paquistão. Poucos líderes mundiais, se assassinados, mobilizariam multidões em vários países simultaneamente.”
Leães explica que as forças armadas iranianas operam em um modelo de “mosaico”, com centros de poder relativamente autônomos. “A eliminação de um desses centros não afeta significativamente a estratégia geral do país. Todos os comandantes têm um sucessor pronto para assumir.”
Na visão do especialista, o critério para determinar quem está avançando em um conflito é simples: quem dita as ações e quem reage passivamente. “Geralmente, quem apenas reage está em desvantagem. E, nesse caso, são os Estados Unidos e, em menor grau, Israel que estão apenas reagindo.”
Leães destaca que, desde o início do conflito, o Irã cumpriu todas as suas promessas. “Nenhum de seus objetivos estratégicos foi alterado.”
O Estreito de Ormuz: controle e reivindicação histórica
Um ponto crucial na disputa é o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido globalmente. O Irã mantém o controle seletivo do canal — permitindo a passagem de aliados e de navios que pagam pedágio, mas bloqueando o tráfego de nações hostis.
Em uma coletiva de imprensa, Trump declarou que o Irã teria liberado a passagem de dez navios como gesto de diálogo. Leães questiona essa narrativa. “Sempre que Donald Trump fala algo, não podemos simplesmente aceitar como verdade. Nesse conflito, a presunção deve ser de que ele está mentindo.”
O professor aponta duas possibilidades. “Ou ele mentiu descaradamente, inventando informações para acalmar os mercados e sinalizar vitória aos seus apoiadores, ou ele levou as pessoas ao equívoco, já que é possível que alguns navios passem — o Estreito não está completamente fechado. Contudo, isso não tem relevância, pois o Irã já estabeleceu suas regras de forma clara.”
Mais do que um aspecto tático, o controle do Estreito representa para o Irã uma forma de reparação histórica. O país enfrenta sanções econômicas há décadas, afetando diretamente a vida da população, desde a escassez de peças para aeronaves Boeing até a falta de medicamentos.
“O que o Irã almeja, após o término deste conflito, é uma compensação por todos esses prejuízos. Estabelecer um pedágio para a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz é um passo para a reconstrução do Irã e para a criação de condições que pavimentem um futuro mais próspero que o passado recente”, afirma Leães.
Sobre a possibilidade de intervenção de países do Golfo — aliados tradicionais dos EUA — no conflito, Leães aponta que não há uma posição unânime. Catar e Omã historicamente buscam atuar como mediadores. Apesar de abrigar a principal base militar americana na região, o Catar teria estabelecido algum tipo de acordo com o Irã, conforme declarações recentes de seu porta-voz, indicando que “o Irã veio para ficar”.
Os Emirados Árabes Unidos, que reconheceram Israel em 2020 e cooperam com o Estado sionista em diversos teatros de guerra, são os mais propensos a intensificar o conflito. Já o Bahrein, uma pequena nação de maioria xiita com governo sunita aliado à Arábia Saudita, mantém postura rígida contra o Irã.
“Se eu tivesse que apostar em um país capaz de contribuir para uma ofensiva terrestre contra o Irã, seriam os Emirados Árabes Unidos, possivelmente com apoio do Bahrein”, conclui Leães.
Para ouvir e assistir
O programa Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.



