Marcas chinesas dominam alta das vendas de carros na Europa
As vendas de carros na Europa Ocidental cresceram em setembro no ritmo mais forte em nove anos, segundo a consultoria GlobalData. A recuperação, no entanto, tem dono definido: quem mais avança no continente são as marcas chinesas.
O Salão do Automóvel de Paris, aberto até 18 de outubro, virou a vitrine dessa pressão. A China dobrou para 20 o número de marcas presentes na feira em relação à edição de 2024.
Ao lado de nomes já conhecidos como BYD, Chery e Geely, estreiam etiquetas pouco familiares ao público europeu, como Aito, Avatr e NEVO, da Changan. Todas buscam espaço em um mercado que voltou a crescer.
O que os números das marcas chinesas mostram
A GlobalData aponta que as vendas na Europa Ocidental avançarão 3,8% neste ano, superando 12,2 milhões de unidades. O bloco reúne os cinco maiores mercados: Alemanha, França, Reino Unido, Espanha e Itália.
O Center of Automotive Management (CAM), da Alemanha, mediu quanto desse crescimento ficou com os chineses. Entre janeiro e agosto, o mercado europeu somou cerca de 500 mil vendas adicionais. Dessas, 419 mil, ou 84%, foram para grupos chineses.
A Tesla acrescentou outras 58 mil unidades. Somados, todos os demais fabricantes cresceram apenas 0,3%. Na prática, quase todo o avanço do mercado foi absorvido por montadoras da China e pela empresa americana.
BYD acelera e mira a Hyundai
A Auto Forecast Solutions (AFS) projeta aceleração parecida na União Europeia neste ano, com alta de 5,5% e mais de 11,4 milhões de veículos vendidos. A consultoria sediada na Pensilvânia destaca o ritmo da BYD.
Segundo a AFS, a marca chinesa cresce 130% e já ocupa a 11ª posição entre todas as marcas no mercado europeu. Ela está prestes a ultrapassar a Hyundai, que aparece em 10º lugar e caiu 30% em agosto.
O movimento preocupa montadoras que sustentam boa parte do emprego industrial no continente. Isso explica por que os modelos de negócio tradicionais das marcas alemãs e europeias ficaram lentos e caros diante da eficiência produtiva da China.
Fábricas fecham enquanto o mercado reaquece
O paradoxo do momento é esse: as vendas sobem justamente quando as fábricas encolhem. Os grandes grupos europeus, com a Volkswagen à frente, anunciam fechamentos e demissões em meio à recuperação.
A Volkswagen é a maior montadora do continente e concentra as decisões mais duras. O ajuste ocorre enquanto o mercado interno volta a respirar, o que expõe a defasagem de custos da indústria local.
Europa reage com nova leva de elétricos
A resposta europeia chega em forma de produto. A Audi prepara o A2 E-Tron, enquanto a Citroën, da Stellantis, relança o 2CV como elétrico barato, com preço previsto a partir de 15 mil euros.
A Fiat, também do grupo Stellantis, aposta no SUV compacto Grizzly, que será vendido nos Estados Unidos como Chrysler Arrow. A joint venture entre Mercedes e Geely reviveu o Smart de dois lugares.
Há ainda modelos já lançados que mostram força, como Renault 5, Renault 4, Renault Twingo e Dacia Spring. A Volkswagen responde com ID.Polo, T-Cross, Cupra Raval e Skoda Epiq.
Para Matt Schmidt, da Schmidt Automotive Research, a reação europeia na eletrificação está em andamento. Ele avalia que as estruturas de custos caminham na direção dos padrões chineses, embora ainda em ritmo mais lento.
Preço e velocidade ainda separam os dois lados
O campo de batalha mais duro é o preço. Para Matt Schmidt, os valores europeus precisam cair ainda mais. O novo 2CV, produzido na Europa, tem previsão de partir de 15 mil euros.
A Renault afirma ter reduzido o tempo de desenvolvimento de um carro para dois anos. Mesmo assim, o setor admite que os chineses colocariam muitos dos conceitos europeus nas ruas em até 12 meses.
China contra China no mercado europeu
A disputa, porém, pode deixar de ser entre chineses e europeus. Zoran Matovic, da Auto Business & Enterprise, avalia que dezenas de marcas chinesas vão brigar entre si pelos mesmos ativos.
Segundo ele, elas não disputam apenas clientes. Disputam as melhores concessionárias, os showrooms mais fortes, profissionais experientes, frotas e o mesmo capital de investimento.
O professor Ferdinand Dudenhoeffer, do Center for Automotive Research, projeta que a Xiaomi surgirá até 2027 como concorrente de BMW, Audi e Porsche. Para ele, os carros europeus vão incorporar cada vez mais tecnologia chinesa.
O Brasil acompanha esse movimento de perto. O país já tem mais de 1 milhão de carros eletrificados em circulação, mercado em que as marcas chinesas também ganham terreno.
O que esperar daqui para frente
O Salão de Paris encerra no domingo (18) sem sinal de trégua entre europeus e chineses. As marcas da China exibem modelos que chegam às ruas em até 12 meses, enquanto boa parte dos conceitos apresentados pelos europeus ainda levará anos para sair do papel.
Com informações da Forbes.
RedeBrasil



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