O que estamos tentando emagrecer? | Jornal Espírito Santo Notícias
*Daniel Bonadiman
Nos últimos meses, tenho acompanhado com preocupação uma notícia que se repete em diferentes versões: pessoas comprando medicamentos para emagrecimento sem procedência conhecida, adquirindo canetas falsificadas, utilizando substâncias de origem incerta ou recorrendo a mercados paralelos na esperança de perder peso mais rapidamente.
Como médico, a primeira preocupação é óbvia.
Produtos falsificados podem causar complicações graves. A composição é desconhecida. A dose é desconhecida. O risco é desconhecido.
Mas confesso que essa não é a pergunta que mais me inquieta.
A pergunta que não sai da minha cabeça é outra:
O que estamos tentando emagrecer?
Porque, quando observamos esse fenômeno com mais atenção, percebemos que raramente se trata apenas de gordura corporal.
Atendo pessoas há anos.
Já ouvi histórias de sofrimento que começaram muito antes da balança.
Histórias de rejeição.
De vergonha.
De comparações silenciosas.
De comentários feitos na infância que atravessaram décadas.
De homens e mulheres que aprenderam, em algum momento da vida, que precisavam modificar a própria aparência para merecer admiração, afeto ou pertencimento.
Talvez por isso o mercado das promessas rápidas seja tão poderoso.
Ele não vende apenas um medicamento.
Ele vende alívio.
Vende a expectativa de que algo finalmente mudará.
Vende a sensação de que a vida começará depois que determinado número aparecer na balança.
E quando a esperança entra em cena, a prudência costuma perder espaço.
É assim que pessoas inteligentes, cuidadosas e perfeitamente capazes de reconhecer riscos acabam assumindo riscos que normalmente não assumiriam.
Não por ignorância.
Por vulnerabilidade.
Existe uma diferença importante entre querer emagrecer e acreditar que a própria felicidade depende disso.
A primeira pode ser uma meta de saúde.
A segunda costuma ser uma armadilha.
Vivemos em uma época curiosa. Nunca tivemos tanto conhecimento científico sobre alimentação, metabolismo e atividade física. Nunca tivemos tantos recursos terapêuticos eficazes para o tratamento da obesidade.
Ao mesmo tempo, nunca estivemos tão expostos à comparação.
Todos os dias somos apresentados a imagens cuidadosamente editadas, corpos excepcionalmente raros e padrões estéticos que se apresentam como se fossem comuns.
Pouco a pouco, o extraordinário passou a ser tratado como obrigação.
E aquilo que é normal passou a parecer insuficiente.
Nesse ambiente, não surpreende que tantas pessoas estejam dispostas a comprar promessas.
O que surpreende é que ainda acreditamos que o problema esteja apenas nos vendedores.
O mercado clandestino existe porque existe uma dor anterior a ele.
Uma dor que não nasce nas farmácias.
Nasce na insegurança.
Na inadequação.
Na sensação persistente de não ser suficiente.
É evidente que produtos falsificados precisam ser combatidos com rigor. Trata-se de uma questão de saúde pública.
Mas talvez devêssemos aproveitar esse debate para discutir algo ainda mais importante.
A relação que estamos construindo com nossos próprios corpos.
Porque corpos saudáveis podem melhorar a vida.
Mas nenhum corpo será capaz de resolver sozinho aquilo que pertence à esfera da identidade, da autoestima ou do significado que atribuímos a nós mesmos.
Talvez seja justamente aí que esteja a reflexão mais necessária.
Antes de perguntar o que estamos utilizando para emagrecer, talvez seja hora de perguntar o que estamos tentando carregar para fora de nós quando desejamos emagrecer a qualquer custo.
Daniel Laiber Bonadiman é médico e colaborador deste veículo
Foto: ilustração
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