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PF indicia 16 em investigação de queda do avião da Voepass que deixou 62 mortos

PF indicia 16 em investigação de queda do avião da Voepass que deixou 62 mortos

PF indicia 16 em investigação de queda do avião da Voepass que deixou 62 mortos

Por Fábio Pescarini

A Polícia Federal (PF) indiciou 16 pessoas em relação à queda do avião da Voepass, que resultou na morte de 62 pessoas em 9 de agosto de 2024. A confirmação foi feita pela PF nesta quinta-feira (6) durante a apresentação do relatório da perícia do acidente.

Dentre os responsabilizados pelo acidente estão o presidente da empresa, José Luiz Felicio Filho, e o ex-diretor de operações, Eric Cônsoli.

Dos 16 indivíduos mencionados, 15 foram indiciados com base no artigo 261 do código penal, que trata do atentado contra a segurança do transporte aéreo, podendo resultar em até 12 anos de reclusão.

O indiciamento marca uma etapa da investigação policial em que a autoridade aponta evidências suficientes contra os suspeitos. Agora, o Ministério Público irá analisar o inquérito para decidir se apresentará uma denúncia criminal à Justiça. Caso a denúncia seja aceita, um processo penal terá início, no qual tanto a defesa quanto a acusação apresentarão seus argumentos para serem avaliados pelo juiz responsável.

O avião estava em um voo de Cascavel (PR) para o Aeroporto de Guarulhos (SP) quando caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo.

José Luiz Felicio Filho é um dos indivíduos responsabilizados pelo acidente (Foto: Divulgação / Voepass)

O relatório da perícia

O relatório da perícia, composto por 200 páginas, revela que foram investigados os dados registrados nos 136 voos realizados com o avião ATR 72-500, sendo o primeiro voo em 23 de junho de 2024 – o acidente ocorreu em 9 de agosto do mesmo ano.

A perícia destaca, entre outros aspectos, voos realizados em 7 de agosto, dois dias antes da queda, em 13 de julho e no voo anterior ao acidente, de Guarulhos a Cascavel, com várias tentativas de ligar e desligar o sistema de degelo, “compatíveis com uma tentativa de reiniciar o sistema”.

“Em outros nove voos nos quais o sistema de degelo foi acionado, foi observado que o sistema permaneceu ligado por curtos períodos, com ciclos de ligar e desligar ocorrendo em poucos minutos ou segundos”, diz o documento.

O laudo também menciona a ausência de registros dessas falhas no manual técnico da aeronave, o que poderia ter evitado que o avião continuasse voando.

Os peritos também identificaram uma ordem de serviço que registra a remoção de uma válvula do sistema de degelo em julho de 2024, sem o devido registro de reinstalação.

Com base nas gravações da cabine, o relatório apresenta transcrições de diálogos entre o comandante e o co-piloto da aeronave.

O laudo aponta que a tripulação do voo acidentado já havia enfrentado, horas antes, durante o voo Guarulhos-Cascavel (PTB2282), condições de formação de gelo e alertas de falha no sistema. Portanto, os peritos consideram que, cientes da intermitência do sistema e da previsão de gelo na rota de retorno, o comandante deveria ter se recusado a autorizar o voo da aeronave.

Segundo o laudo, se os comandantes dos voos PTB2204 e PTB2293 tivessem registrado formalmente as falhas observadas, a aeronave não teria sido autorizada a prosseguir voando nas condições meteorológicas daquele momento.

“A análise dos vídeos, das gravações de voo, dos registros dos computadores de bordo, da documentação operacional e de manutenção e das condições meteorológicas indica que o acidente foi resultado de uma sequência iniciada pela operação em condições severas de formação de gelo, que excedeu a capacidade de proteção disponível naquele momento e resultou na perda de controle em voo”, afirma a perícia da PF.

“A aeronave, ainda estruturalmente intacta, não respondeu de maneira estável e controlada, saindo do envelope de voo [com estol e rolamento descoordenado], tornando sua recuperação inviável dadas a altitude e a energia restantes”, acrescenta.

O laudo conclui que, mesmo diante de alertas sucessivos sobre a degradação do desempenho e aumento da velocidade, os pilotos não seguiram prontamente os procedimentos previstos nos manuais, como sair imediatamente da área de gelo, aumentar a velocidade e declarar emergência.

De acordo com os peritos, essas ações não foram tomadas dentro de um intervalo de tempo suficiente para evitar a perda de controle da aeronave.

Defesa

Questionada por e-mail nesta quinta-feira, a Voepass não forneceu resposta até a publicação desta reportagem.

No dia 23 do mês passado, a empresa afirmou que a tripulação do voo 2283 era “experiente, qualificada e devidamente certificada”, “sem registros anteriores ou fatores que impedissem sua atuação”.

“Em mais de três décadas de operações na aviação brasileira, a companhia nunca havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de 30 anos, sempre adotou protocolos de segurança sérios, capacitando e orientando a tripulação”, declarou a empresa.

A empresa também destacou que desde o acidente “tem estado solidária às famílias das vítimas, compartilhando a dor que permanece em sua memória”.

O relatório do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), divulgado em 23 de julho, indicou que a aeronave não deveria ter decolado.

Os técnicos da FAB (Força Aérea Brasileira) identificaram 19 fatores que contribuíram para o acidente, incluindo questões técnicas da aeronave, falhas dos pilotos e uma cultura organizacional que priorizava a continuidade das operações em detrimento da segurança.

Créditos