Tarcísio defende quebra de sigilo no caso Dark Horse
O governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), defendeu nesta quarta-feira (2) a quebra de sigilos na investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, mesmo que a medida possa atingir seu principal aliado na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro (PL).
“Eu sou favorável a toda a transparência, toda a quebra, toda a divulgação. Tudo que está oculto tem que ficar às claras”, afirmou Tarcísio durante visita às obras de expansão da Linha 2-Verde do Metrô, na capital paulista.
A declaração ocorre um dia depois de a revista Piauí revelar um novo elemento no caso. Segundo a publicação, um relatório do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, identificou uma transferência adicional de US$ 1,66 milhão feita pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos ligado ao financiamento da produção. Com isso, os repasses conhecidos de Vorcaro relacionados ao projeto chegaram a US$ 12,3 milhões.
Posição reforçada em dois dias
Na última terça-feira (1º), ao ser questionado sobre a nova informação, Tarcísio já havia dito que, à medida que fatos novos aparecessem, Flávio deveria prestar esclarecimentos. Nesta quarta, o governador reforçou o discurso.
“É bom que tudo apareça, que todos os esclarecimentos sejam dados, que todas as investigações sejam feitas e que as responsabilizações aconteçam”, disse o chefe do Executivo paulista.
Apesar da defesa da transparência, Tarcísio afirmou não acreditar que, com as informações disponíveis atualmente, o episódio prejudique a candidatura presidencial do aliado. Para o governador, o que está posto até agora está “devidamente explicado”. Ele ponderou, porém, que eventuais fatos novos precisam ser esclarecidos.
O posicionamento foi acompanhado de perto por aliados e adversários. A declaração de apoio amplo à quebra de sigilos é vista como gesto calculado: ao antecipar o discurso da transparência, Tarcísio tenta desarmar críticas de que protegeria o aliado em meio às apurações.
A fala também ocorreu em um contexto de “agenda oficial” que mescla governo e campanha. A visita às obras da Linha 2-Verde, uma das principais promessas de infraestrutura da gestão, serviu de palco para o governador abordar um tema nacional sem deixar a pauta local. Na prática, Tarcísio conseguiu aparecer ao mesmo tempo como gestor de obras e como liderança com posição definida sobre o caso que movimenta o núcleo bolsonarista.
O que diz a investigação
“Dark Horse” é um filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A produção foi financiada com recursos privados e ganhou repercussão nacional após questionamentos sobre a origem do dinheiro e a participação do senador Flávio Bolsonaro na articulação do projeto.
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, um dos financiadores apontados, tornou-se figura central nas apurações. Os valores identificados pelo Coaf somam milhões de dólares repassados a fundos no exterior, o que levou órgãos de controle a aprofundar as investigações sobre possíveis irregularidades no fluxo financeiro.
As supostas irregularidades ainda estão sob análise. Até o momento, não há decisão judicial definitiva sobre o caso, e os envolvidos negam qualquer ilegalidade na produção do longa-metragem.
Cenário eleitoral em São Paulo
A postura de Tarcísio ocorre em um momento sensível da campanha. O governador lidera as pesquisas para o Palácio dos Bandeirantes, com vantagem sobre o ex-prefeito Fernando Haddad (PT), segundo levantamentos recentes, como a pesquisa Quaest divulgada em agosto, que mostrou o atual governador na frente com cerca de 40% das intenções de voto.
Ao mesmo tempo, o gestor paulista precisa equilibrar a proximidade com o bolsonarismo e a defesa de uma imagem de transparência. A fala desta quarta-feira tenta conciliar os dois lados: reforça o discurso de “esclarecimento total” sem romper com o aliado presidencial.
Para aliados de Tarcísio, a estratégia é demonstrar independência em relação a Flávio Bolsonaro e blindar a campanha estadual de eventuais desgastes ligados ao caso. Já a oposição avalia que a situação pode render munição eleitoral nos debates e nas redes sociais, ainda que uma postura pública de defesa da transparência dificulte ataques diretos.
Próximos passos
O caso Dark Horse deve seguir rendendo desdobramentos nos próximos dias. O senador Flávio Bolsonaro ainda não se manifestou publicamente sobre a nova revelação da revista Piauí até a publicação deste texto, e a expectativa é de que o tema volte à tona em entrevistas e sabatinas da campanha presidencial.
Enquanto isso, Tarcísio mantém agenda intensa no interior de São Paulo, alternando obras de infraestrutura e atos de campanha. O governador aposta na entrega de projetos de mobilidade e saneamento para consolidar a vantagem nas pesquisas até outubro.
A repercussão do caso também pode marcar os próximos debates entre os candidatos ao governo paulista. O tema une política nacional e estadual, o que o torna atraente para o confronto de propostas nas sabatinas televisionadas.
Independentemente do desfecho das investigações, o episódio já provocou um movimento político relevante: a explicitação pública de uma distância calculada entre Tarcísio e o entorno de Flávio Bolsonaro, sem ruptura da aliança que sustenta a candidatura presidencial apoiada pelo governador.
Foto: Bruno Escolastico Sousa Silva/Getty Images, via CNN Brasil
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