Toffoli ameaça senador – Meio
A intensidade dos conflitos em Brasília, nas últimas 48 horas, é tão preocupante que deveria chamar a atenção de todos. No entanto, passou despercebida, como se fosse algo corriqueiro. Apenas mais um dia na polarização política brasileira. Porém, ontem, um ministro do Supremo ameaçou cassar um senador da República.
A maioria de vocês, ao me escutar, provavelmente está pensando algo do tipo. Se é de esquerda, talvez esteja pensando: “Ah, o senador ultrapassou os limites”. Se é de direita, pode ter outra perspectiva: “Ótimo, vai defender o meu lado”. O cerne da questão não tem absolutamente nada a ver com direita ou esquerda. Nada. Não se trata de saber se o senador cometeu um crime passível de cassação ou não. O problema reside no fato de que em uma democracia de verdade, juízes não ameaçam. Em nenhuma circunstância. Juízes devem julgar os casos que lhes são apresentados, e se estiverem envolvidos, devem se afastar para que um juiz imparcial possa avaliar. Juízes não devem emitir opiniões. Isso não ocorre em uma democracia funcional. Em nenhum país democrático.
É preocupante que a maioria dos brasileiros tenha encarado os acontecimentos das últimas 48 horas como apenas mais um dia de debate político no Brasil, revelando o quão perdidos estamos como nação. A nossa democracia está disfuncional, corroída e debilitada. Ao nos posicionarmos, seja à esquerda ou à direita, a favor ou contra juízes, estamos tratando os juízes como se fossem atores políticos comuns. Juízes não são atores políticos, não devem participar desse debate, não devem se comportar como políticos. Quando começam a agir dessa forma, politizam a Justiça, o que representa uma perda irreparável para a democracia.
José Antônio Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques não deveriam opinar sobre o relatório do senador Alessandro Vieira. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, não deveria influenciar na decisão de indiciar ou não o senador. Por quê? Porque Toffoli, Gilmar, Alexandre e Gonet foram citados no relatório da CPI do Crime Organizado. Porque Kassio foi mencionado na investigação do caso Master. Eles têm interesses pessoais em jogo e, por isso, precisam se abster de interferir.
No entanto, isso não foi o que aconteceu, nem com Gilmar, nem com Toffoli. Eles se manifestaram e ameaçaram o senador. Acostumamo-nos a ouvir ministros do Supremo opinando sobre tudo, e ontem foi além. Um ministro do Supremo considerou que algo escrito por um parlamentar, no exercício de suas funções, poderia resultar em sua cassação.
Isso não pode acontecer. Um parlamentar pode expressar sua opinião sobre se um ministro cometeu crime de responsabilidade ou não. A fundamentação da opinião não importa. Se essa opinião constará em um relatório final da CPI também não importa. Claro, se a opinião do parlamentar terá consequências ou não dependerá de sua capacidade de persuadir a maioria dos demais parlamentares. É política. Parlamentares, permitam-me dizer aos ministros do Supremo, são políticos. Eles, os ministros do Supremo, não são.
Nos acostumamos tanto com esse cenário que esquecemos que um embate entre um senador e dois ministros do Supremo, nos termos descritos, não é normal, embora pareça ser. Além disso, hoje, o ministro Alexandre solicitou que a Polícia Federal investigue se o senador Flávio Bolsonaro caluniou o presidente Lula.
Para muitos brasileiros que não votam automaticamente em Lula, a percepção atual é que o Supremo está agindo como o principal cabo eleitoral do presidente. Parece que o Supremo está agindo em prol da vitória de Lula nas eleições e que o governo de Lula está bloqueando qualquer tentativa de investigar o Supremo. Uma mão lava a outra. Para aqueles que desejam ver o Supremo atuar como um tribunal imparcial, e não como um apêndice do Executivo, o que presenciamos nesta semana é muito preocupante.
Em um ano eleitoral repleto de tensões, a percepção negativa para ambos os lados é prejudicial. Quanto mais os interesses do Planalto e do Supremo parecem estar alinhados, piores são as pesquisas para o candidato Lula. Aumenta a parcela de eleitores que veem como necessária a destituição de ministros. Aqueles de direita já tomaram uma posição. Os de centro estão se inclinando.
Enquanto isso, o proprietário de um dos canais de notícias mais populares do Brasil, o Choquei, foi preso por lavagem de dinheiro para o crime organizado. Banco Master, Bets, milícias e tráfico estão todos entrelaçados na mesma trama. Infelizmente, o relatório do senador Alessandro não abordou essa questão.
Vieira fez uma escolha política, o que é compreensível. Ele quis expor a Suprema Corte de forma intensa. No entanto, é uma situação lamentável, pois o Banco Master é um exemplo de como o crime organizado se infiltrou em todas as esferas do poder brasileiro. É algo que merece uma análise mais aprofundada.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Se você chegou até aqui e sente que está sozinho ao perceber o que está acontecendo, saiba que não está. A esquerda não irá abordar essa história da maneira correta. A direita buscará usá-la em seu favor. No meio disso, há muitas pessoas – como você, presumo – que desejam compreender o que está ocorrendo no Brasil sem precisar de aprovação do Lula ou do Bolsonaro para formar uma opinião.
O Meio é feito para esse público. Não é para aqueles que já decidiram seu voto e buscam apenas confirmação. É para quem deseja refletir, para quem está aberto ao diálogo e ao contraditório, acreditando que é assim que a conversa política deveria ocorrer.
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Aliás… Este é o Ponto de Partida.
O Estadão revelou, nas últimas semanas, a extensão dos sites de notícias financiados direta ou indiretamente pelo Banco Master. Incluem sites como o Platô, o Bastidor, e até figuras do entretenimento, como o Leo Dias. Hoje, a Polícia Federal deteve dois influenciadores de grande alcance, Chrys Dias e Débora Paixão, além de Raphael Sousa Oliveira, proprietário do perfil Choquei, e os MCs Ryan e Poze do Rodo. Seu esquema envolvia Bets, apostas ilegais e lavagem de dinheiro. Mais de um bilhão de reais passaram pelas mãos dessa turma.
Somos 215 milhões de brasileiros. Dentre todos nós, segundo a Forbes, apenas 300 pessoas possuem mais de um bilhão de reais. Isso representa 0,0001% da população. São donos de grandes bancos, de uma emissora de televisão e de grandes empresas do país.
Esse montante astronômico que circulou entre eles é proveniente do horror brasileiro. É fruto dos milhões de brasileiros endividados devido ao vício em apostas. É o horror dos brasileiros que vivem em regiões onde homens armados decidem quem vive, quem morre, quem entra, quem sai e qual mulher será vítima de violência naquela noite. É o horror que corrompeu profundamente a política do estado do Rio de Janeiro.
Flávio Bolsonaro condecorava milicianos. O mesmo Flávio que hoje processa quem expõe sua ligação com milicianos. A primeira-dama Janja Lula da Silva utilizava o Choquei para manipular a narrativa na internet brasileira. E um dos ministros do Supremo estava envolvido em um cassino clandestino em parceria com Daniel Vorcaro.
A questão aqui não é sobre o que é mais grave que o outro. A questão é que o pior do crime brasileiro se mesclou tanto com Brasília que perdemos a capacidade de nos indignar. Todos nós, brasileiros. Não estamos reagindo com a seriedade que a situação demanda. A engrenagem que impulsiona uma parte significativa do Brasil, que enriquece certos políticos e servidores públicos, que alimenta a cultura dos influenciadores, financia sites pornográficos e aterroriza partes das cidades brasileiras, é uma só. Isso vai além. Os dois ataques milionários ao PIX ocorridos nos últimos seis meses são resultado dessa mesma engrenagem.
Essa é a questão central do Brasil atual. Contudo, como todos têm algum tipo de envolvimento com o problema, ninguém está disposto a investigar de fato. O relatório do senador Alessandro é limitado. Mas a CPI foi impedida de investigar em todas as frentes. Pelo governo, pela presidência do Senado, pelo Supremo, por diversos senadores de direita. No fim das contas, foi o governo que trabalhou para encerrar de vez os trabalhos da comissão.
Nosso país está gravemente enfermo e a maioria dos eleitores está anestesiada. É mais fácil convencer a todos de que estamos em uma guerra entre direita e esquerda em prol de um projeto de Brasil. Não estamos mais em uma democracia normal. Estamos em uma democracia que sofreu uma tentativa de golpe militar por um ex-presidente e corre o risco de ser controlada por uma máquina criminosa.
Precisamos, com urgência, de um Supremo Tribunal Federal, de uma Polícia Federal e de uma Procuradoria-Geral da República que tenham coragem para enfrentar esse problema. Precisamos também de senadores, deputados federais e de um presidente da República capazes de compreender que os interesses do país estão acima de suas relações pessoais. A boa e velha impessoalidade da democracia. Como faz falta no país do compadrio.



