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Crédito caro e cautela moldam Agrishow 2026, mas não devem frear negócios

Crédito caro e cautela moldam Agrishow 2026, mas não devem frear negócios

Crédito caro e cautela moldam Agrishow 2026, mas não devem frear negócios

O mercado de máquinas agrícolas já enfrentou crises de vendas e de aumento dos custos de produção no pós-pandemia. Neste ano, o cenário adverso é o macroeconômico: crédito difícil e pouco fluxo de caixa para produtores, principalmente de médio e pequeno porte. Mesmo assim, a cadeia de implementos e maquinários não está reticente e chega à trigésima primeira edição da Agrishow, em 2026 — maior feira do segmento na América Latina — com alternativas ‘úteis’, como aluguéis de curto prazo, equipamentos seminovos, consórcios e máquinas menores.

Por outro lado, os agricultores capitalizados devem mirar inovações mais robustas, como máquinas com IA, robôs e tecnologias de alta eficiência para a colheita da safra de verão, seguindo um planejamento anterior, como apurou a CNN Agro. Ao longo de cinco dias, o evento deve reunir mais de 197 mil visitantes, vindos de mais de 50 países, além de mais de 800 marcas expositoras em uma área de 520 mil metros quadrados. E, apesar do cenário monetário mais restritivo, fontes do setor estão otimistas.

As vendas de máquinas agrícolas no Brasil somaram 9.069 unidades no primeiro trimestre de 2026, considerando tratores e colheitadeiras no atacado, apontam dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). O resultado mostra uma aceleração clara ao longo do período: foram 2.061 unidades em janeiro, 2.892 em fevereiro e um salto para 4.116 em março — o melhor mês do trimestre e praticamente o dobro do registrado no início do ano.

O desempenho foi puxado principalmente pelos tratores de rodas, que responderam por cerca de 95% das vendas no período, com 8.625 unidades comercializadas entre janeiro e março. O avanço mensal também é evidente nesse segmento, saindo de 1.890 unidades em janeiro para 3.993 em março. Já as colheitadeiras de grãos tiveram comportamento mais moderado, com 444 unidades no trimestre e leve recuo ao longo dos meses, o que pode indicar uma demanda mais concentrada em momentos específicos do ciclo agrícola.

Se comparado com o primeiro trimestre do ano passado, os números refletem uma queda de 16,6%, quando o setor havia registrado 10.875 máquinas, segundo dados da Anfavea. Na comparação com 2024, o nível atual também indica enfraquecimento da demanda. Há dois anos, o primeiro trimestre somou 9.220 unidades — patamar ligeiramente acima do registrado agora. O dado sugere que a recuperação observada em 2025 não se sustentou, interrompendo um movimento de recomposição após a forte contração vista em 2024, conforme levantamento da Anfavea.

O histórico recente evidencia a volatilidade do mercado. Em 2023, as vendas no primeiro trimestre haviam alcançado 15.073 unidades, um patamar elevado que acabou seguido por uma queda expressiva de 38,8% em 2024, refletindo o aperto nas condições de crédito, a alta dos juros e a piora na renda do produtor em algumas cadeias. Em 2025, houve reação de 17,9%, mas ainda insuficiente para retomar os níveis anteriores — e agora revertida novamente em 2026. Ainda assim, empresários não estão pessimistas e seguem investindo, de olho na feira como vitrine de negócios.

É o caso da Fendt, que irá apresentar um trator movido a etanol de milho, apostando no lançamento durante a feira. A empresa afirmou à reportagem que não interrompeu os investimentos, mesmo diante das adversidades macroeconômicas, e que espera negócios aquecidos, especialmente em automação e IA nas máquinas agrícolas, para atrair produtores aptos a incorporar esse tipo de tecnologia em suas operações.

A Agrishow deve funcionar como um termômetro para medir a disposição de investimento do produtor rural. A retração nas vendas indica um ambiente ainda cauteloso, em que as decisões de compra seguem condicionadas ao custo do crédito e às margens do agro. E os indicadores de eficiência serão o diferencial, como aponta Efraim Albrecht, diretor de operações da Agricef.

Para ele, os produtores brasileiros têm o ímpeto de contornar um cenário desafiador, marcado por juros altos e pela queda nos preços das commodities, por meio da busca por “tecnologias úteis”. No caso das grandes empresas, que trabalham com frotas, a decisão de investimento segue uma lógica estruturada de planejamento.

Nesse contexto, a compra de máquinas e a renovação de frota não são decisões pontuais. Elas fazem parte de uma estratégia definida com base no porte da operação, nas metas de produção e na necessidade de manutenção da eficiência no campo, destaca à CNN Agro. Mesmo diante de indicadores menos favoráveis, muitos produtores tendem a seguir esse planejamento. A avaliação leva em conta o ciclo do agronegócio, que alterna períodos de maior e menor rentabilidade, avalia Albrecht.

“Ao contrário do médio e do pequeno produtor, o grande consegue chegar à Agrishow em uma situação diferenciada, com acesso comercial a máquinas semelhante ao de grandes grupos empresariais”, aponta.

Por outro lado, o ambiente de maior pressão sobre custos e margens pode levar a ajustes. Em alguns casos, grupos agrícolas ou produtores de menor porte optam por revisar o orçamento e adiar despesas consideradas menos urgentes. Entre os itens que podem ser impactados está justamente a renovação de frota, que pode ser postergada para preservar o caixa.

Mesmo assim, o presidente da feira, João Carlos Marchesan, aposta na recomposição da demanda após um início de ano mais cauteloso, marcado pela incerteza da guerra no Oriente Médio. Para ele, a feira terá a função de “catalisar” novos negócios, além da renovação de frota, principalmente entre produtores de culturas como cana-de-açúcar, algodão e café, que tiveram ganhos recentes de renda com o câmbio, os preços das commodities e as exportações.

Nesse contexto, a Agrishow tende a consolidar essa dinâmica, com fabricantes apostando em maior volume de negociações e lançamentos voltados à eficiência operacional no campo, acrescenta Marchesan. O presidente também ressaltou que toda negociação tem como pano de fundo a geração de eficiência no campo para a segurança alimentar — elemento-chave nas parcerias do Brasil com os mercados externos. Ele acrescenta que o país ocupa uma posição privilegiada ao integrar tecnologia de ponta, escala produtiva e uma adaptação ágil às normas sanitárias internacionais e sustentáveis.

Em 2025, a feira fechou R$ 14,6 bilhões em intenções de negócios. Muitos acordos não foram concluídos durante a semana do evento, mas o valor inclui negociações iniciadas nos estandes das empresas. Na ocasião, o número foi 7% maior do que a movimentação de 2024.

Agrishow Labs

Durante a feira, haverá um espaço de palestras instalado na Arena de Tecnologia e Inovação, o Agrishow Labs. O ambiente reúne startups e empresas de base tecnológica em contato direto com produtores, investidores e executivos do setor, com foco na geração de negócios e conexões, destaca a organização. A proposta é transformar o evento em um hub de discussão sobre tendências e desafios, em um momento em que o setor busca respostas para um cenário mais complexo.

A programação inclui painéis e palestras com especialistas e lideranças do agro, abordando temas que estão no centro das decisões no campo e na indústria. Os pontos de atenção do debate serão os efeitos da instabilidade climática sobre a produção, a pressão por ganhos de produtividade e eficiência, além das mudanças no ambiente global de negócios.

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