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Conar susta campanha da Petrobras que atribuía preços abusivos aos postos

Conar susta campanha da Petrobras que atribuía preços abusivos aos postos

Conar susta campanha da Petrobras que atribuía preços abusivos aos postos

O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) recomendou a suspensão da veiculação da campanha publicitária institucional da Petrobras que alegava não haver justificativas para os aumentos de preços nos postos. A decisão da 1ª Câmara do Conselho de Ética foi unânime, ocorrendo na quinta-feira (6/8).

A solicitação foi feita pelo Sindicom, sindicato que representa as distribuidoras de combustíveis e lubrificantes. O relator do caso foi o conselheiro Bruno Herculano Bonfanti, que emitiu o parecer em 5 de agosto.

O colegiado considerou que a campanha violou os princípios de honestidade, impacto no consumidor, abuso de confiança e veracidade, conforme estabelecido no Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária (CBAP).

O Sindicom também havia solicitado que a campanha fosse enquadrada em dispositivos que tratam de responsabilidade social, concorrência justa e cuidado especial por parte dos anunciantes que possuem selo oficial, porém esses pontos não foram acolhidos no parecer. A campanha estava sendo veiculada desde março de 2026 na televisão aberta e em plataformas digitais, como Instagram, LinkedIn e YouTube.

O conteúdo das peças publicitárias

As peças publicitárias relacionam a estabilidade dos preços praticados pela Petrobras nas refinarias à conclusão de que não há motivo para aumentos nos postos, e em seguida destacam a separação entre a marca da empresa e a rede de postos vendida em 2021. Uma das peças diz: “Então não há razão para preços abusivos nos postos”, seguida por: “Os combustíveis são da Petrobras, os postos não”.

Em outro anúncio, direcionado aos caminhoneiros, a empresa associa a situação à guerra no Oriente Médio e menciona que produz mais de 70% do diesel consumido no país, além de importar volumes adicionais.

Sindicom aponta transferência de responsabilidade

De acordo com o Sindicom, a Petrobras utilizou sua posição dominante e sua visibilidade midiática para transferir aos distribuidores e revendedores a responsabilidade pelos preços finais. A entidade baseou sua queixa em quatro pontos: a falsa relação entre o congelamento da gasolina desde 2024 e os preços no varejo; a omissão de fatores de mercado, como petróleo, câmbio, logística, biocombustíveis e tributos; a estratégia de reputação em relação à propriedade dos postos; e a contradição com dados da própria Petrobras, que indicam sua parcela como o maior componente do preço do diesel.

Petrobras defende dever de informar

Em sua defesa, a Petrobras solicitou o arquivamento da campanha sem restrições, com base na liberdade de expressão comercial, na transparência corporativa e no dever de informar a sociedade sobre seu papel na cadeia de produção. A empresa argumentou que a campanha não generaliza nem acusa a categoria de distribuidores e revendedores, servindo como um alerta aos consumidores para questionarem repasses desproporcionais.

A Petrobras também refutou a acusação de concorrência desleal, afirmando que não atua no segmento de distribuição e revenda.

Relator destaca quotas de diesel e chancela do governo

No parecer, o relator reconheceu que o preço final nos postos é influenciado por diversos fatores fora do controle exclusivo das distribuidoras e postos, mencionando a parcela importada do mercado, a limitação das quotas de diesel oferecidas pela Petrobras às distribuidoras e a consequente redução da oferta. Para Bonfanti, essas pressões elevam os preços sem configurar abuso.

O relator observou que a campanha se aproveita da falta de informação técnica dos consumidores e que a associação com a chancela do governo federal amplifica esse efeito. Ele destacou que omitir informações importantes sobre o mercado, como a necessidade de importação e as restrições de quotas pela Petrobras, distorce a realidade dos fatos.

Antes do julgamento, as partes tentaram conciliar em 26 de junho, porém o Sindicom rejeitou a proposta de suspensão voluntária das peças. O relator considerou o gesto da Petrobras como atenuante, reconhecendo o impacto controverso da campanha.

Importações, quotas e leilões de combustíveis

A campanha baseia-se em um ponto factual: a Petrobras vendeu sua distribuidora e não controla o preço desde a refinaria até a bomba. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) também investiga a prática de preços abusivos no mercado de combustíveis desde a edição da MP 1340, em março de 2026.

No entanto, o contexto de mercado possui complexidades adicionais. Para evitar defasagens em relação ao mercado internacional, a Petrobras reduziu as importações, com uma queda de 85% nos volumes de diesel importados no segundo trimestre, priorizando as refinarias nacionais, como evidenciado pela agência eixos.

Com a oferta doméstica limitada por quotas, parte do mercado depende de importações por outros agentes, que repassam diretamente o preço do produto importado. Distribuidoras sem contratos de longo prazo enfrentam a decisão de comprar a preços elevados ou não comprar.

A própria Petrobras vendeu combustível a preços superiores à tabela no mesmo mês em que a campanha foi lançada. Leilões de diesel resultaram em vendas com valores até 75% acima do preço de referência, com “prêmios” chegando a R$ 2,65 por litro em regiões do Norte e Nordeste.

O termo “prêmio” é utilizado para descrever o valor cobrado acima da tabela nas bases e refinarias.

Dessa forma, mesmo com ajustes abaixo das cotações internacionais, a Petrobras transferiu parte da pressão inflacionária gerada pela guerra no Oriente Médio para o mercado interno.

Em 31 de março, a empresa comercializou 70 mil toneladas de gás de cozinha em leilões com ágios de até 110% sobre a tabela, resultando em aumentos significativos de preços em algumas regiões. Os valores dos leilões ficaram entre 12% e 43% acima dos preços de paridade de importação calculados pela ANP.

Essa situação levou o presidente Lula a ordenar publicamente o cancelamento do leilão em 2 de abril, resultando em uma investigação da ANP sobre os preços praticados.

A Petrobras não cancelou as vendas, mas concordou em reembolsar os distribuidores pelos valores cobrados acima da paridade de importação e demitiu o diretor executivo responsável pela operação.

Outro posicionamento

Questionada, a Petrobras afirmou ter apresentado suas justificativas no processo, com base na liberdade de expressão comercial, na transparência corporativa e em seu compromisso de informar a sociedade sobre seu papel na cadeia produtiva do país. A empresa ressaltou que propôs encerrar voluntariamente a campanha durante o processo, porém não obteve resposta da outra parte dentro do prazo estabelecido.

A companhia afirmou que a alternativa proposta foi adotada pelo Conar na decisão final, sem imposição de outras medidas contra a empresa. Além disso, mencionou que a campanha também foi analisada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), o qual não identificou irregularidades na conduta da empresa.

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