Sérvia vota e testa 14 anos de poder de Vučić
A Sérvia realiza neste domingo, 25 de outubro, eleições legislativas antecipadas. O pleito virou um teste ao poder que Aleksandar Vučić mantém há mais de uma década e à força de um movimento estudantil saído das ruas.
Mais de 6,45 milhões de eleitores estão aptos a votar. Eles escolhem 250 deputados da Assembleia Nacional entre 2.418 candidatos, distribuídos em 18 listas.
A votação foi convocada depois que o parlamento foi dissolvido em 9 de setembro. O procedimento, porém, tem raízes bem mais profundas do que a rotina institucional do país.
O que a Sérvia decide nas urnas
Na prática, o eleitor sérvio avalia dois projetos para o mesmo país. De um lado está a continuidade do Partido Progressista Sérvio, o SNS, que domina a política local desde 2012.
Do outro, uma lista nova, montada em plenários estudantis e sem líder tradicional. Ela reúne nomes que, em geral, nunca ocuparam cargos políticos de alto escalão.
O resultado também depende de detalhes técnicos. Uma parcela importante das cadeiras será definida por quem ultrapassa o limiar de 3 por cento dos votos e por quantos eleitores comparecem às urnas.
A tragédia que mudou o país
Em 1 de novembro de 2024, o desabamento de uma marquise de concreto na estação ferroviária de Novi Sad matou 16 pessoas. O acidente virou símbolo de um problema maior, segundo os manifestantes.
Os protestos começaram pedindo documentos e punição dos responsáveis pela obra. Depois, cresceram e passaram a apontar corrupção, falta de responsabilização e contratos públicos mal fiscalizados.
Em 2025, os estudantes ocuparam universidades, bloquearam estradas e organizaram atos em todo o país. O movimento se transformou no desafio mais forte já enfrentado por Vučić em 14 anos.
Em maio de 2025, os estudantes passaram a exigir eleições legislativas antecipadas. Em 2026, decidiram disputar o pleito com lista própria.
Quem é Aleksandar Vučić
Vučić deixou a presidência no fim de setembro para liderar a campanha do SNS e disputar o cargo de primeiro-ministro, que já ocupou antes de chegar à Presidência.
A lista do partido se chama “Aleksandar Vučić – Sérvia Unida”. Mesmo fora do Palácio da Presidência, ele segue como figura central da campanha.
Com isso, o voto ganhou contornos de avaliação direta do seu futuro político. O SNS mantém uma estrutura partidária forte, com rede de organizações locais e um núcleo estável de eleitores.
A Lista Estudantil e a nova oposição
O nome mais diferente da disputa é a Lista Estudantil, batizada “Os Estudantes Vencem”. Não é um partido tradicional e não tem um líder único. Os candidatos saíram de plenários estudantis.
A lista reúne professores, médicos, artistas e ativistas, quase todos sem passagem por cargos de topo. São 250 candidatos, numa tentativa de levar o protesto para dentro do parlamento.
O quadro mudou a oposição sérvia. Em 2023, os partidos agrupados na coligação “Sérvia Contra a Violência” somaram cerca de 24 por cento dos votos e 65 cadeiras.
Depois, a fragmentação e as disputas internas enfraqueceram o bloco. Hoje a linha de clivagem principal é mais simples: o SNS de um lado, a Lista Estudantil do outro.
Duas narrativas em disputa
O governo trata os protestos como tentativa de desestabilizar o país. Autoridades afirmam que “atores estrangeiros” financiam o que chamam de “revolução colorida” na Sérvia.
O movimento estudantil responde com outro enfoque: responsabilização, combate à corrupção, Estado de direito e independência das instituições face à influência política.
Segundo a Euronews, o centro do conflito deixou de ser apenas a relação entre governo e oposição. A questão passou a ser a confiança nas próprias instituições do Estado.
Como funciona a votação
O eleitor sérvio vota em uma lista, não em um nome isolado. As cadeiras da Assembleia Nacional são distribuídas conforme o total de votos de cada coligação.
O limiar de 3 por cento funciona como porta de entrada. Quem fica abaixo dele não ocupa cadeira, e os votos dados a essas listas não elegem ninguém.
Por isso, partidos menores, como a Aliança dos Húngaros da Voivodina e outras formações regionais, podem ganhar peso desproporcional na formação do próximo governo.
O que pode acontecer depois das urnas
Se o SNS vencer, Vučić tentará formar governo e estabilizar o sistema político após quase dois anos de protestos. Se a Lista Estudantil conseguir cadeiras suficientes, a Sérvia pode entrar em uma nova fase política.
Um resultado apertado ou contestado abre espaço para a continuidade da crise mesmo depois do fechamento das urnas. As pesquisas têm produzido previsões divergentes, e o volume de indecisos é alto.
O país também segue dividido em temas de identidade. O caminho para a União Europeia continua travado por questões de Estado de direito, pelas relações com a Rússia e pelo diálogo parado com o Kosovo. Ao mesmo tempo, Belgrado mantém laços estreitos com Moscou e Pequim.
O caso sérvio dialoga com o restante da Europa. Movimentos estudantis e protestos de rua ganharam força no continente neste ano, como mostraram os atos contra a extrema direita na França e os confrontos registrados em Barcelona no sábado.
Mais do que definir um parlamento, a votação deste domingo mede a sobrevivência de um modelo político e a capacidade de um movimento novo, sem partido tradicional, de alterá-lo.
Com informações da Euronews.
RedeBrasil



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