Adeus, dona Valdina: quando parte um pedaço da cidade | Jornal Espírito Santo Notícias
Dona Valdina Lyber, 92 anos, faleceu às 22h30 desta segunda, 15, no Hospital Padre Máximo, em Venda Nova, de insuficiência respiratória. O corpo está sendo velado na Capela de São Pedro, o sepultamento marcado para às 16h00, no Cemitério do Centro
Hoje Piúma amanheceu menor.
Não porque suas ruas encolheram, nem porque o mar deixou de beijar a areia da Cidade das Conchas. Piúma amanheceu menor porque partiu dona Valdina Layber. E quando uma pessoa como ela vai embora, leva consigo um pedaço da memória de todos nós.
Há pessoas que moram numa cidade. E há aquelas que se tornam parte dela. Dona Valdina era dessas.
Chegou quando Piúma ainda aprendia a caminhar como município emancipado. Filha de seu Waldoberto e dona Amazita, trouxe da terra natal, Iconha, a coragem dos pioneiros que apostaram no futuro de uma cidade que ainda estava sendo escrita. E ajudou a escrevê-la.
Da janela de sua casa na Rua Larga, viu o tempo passar devagar. Viu nascer construções onde antes havia terrenos vazios. Viu famílias chegarem carregando sonhos. Viu crianças crescerem, tornarem-se pais e depois avós. Viu Piúma mudar sem jamais deixar de amá-la.
Quem passava pela tradicional rua da Capela de São Pedro sabia onde encontrar dona Valdina. Sua casa era mais do que uma residência; era um ponto de referência da cidade. Talvez por isso uma frase tenha atravessado gerações:
— Tá procurando uma casa para alugar? Vai na casa da dona Valdina que ela tem.
Era quase uma instituição piumense. Seu nome virou endereço, confiança e acolhimento.
Entretanto, não foi por ter imóveis ou por morar tantos anos no mesmo lugar que ela se tornou especial. Foi pelo jeito simples de viver. Pela forma respeitosa de tratar as pessoas. Pela dignidade silenciosa com que enfrentou as dificuldades da vida.
Dona Valdina pertence a uma geração que ensinava sem discursos. Educava pelo exemplo. Mostrava aos filhos que honestidade não era virtude extraordinária, era obrigação diária. Que caráter não se ensinava em palavras bonitas, e sim, nas atitudes de cada dia.
Foi mãe, avó, amiga, vizinha e conselheira. Dessas mulheres que não aparecem nas manchetes, mas que sustentam os alicerces invisíveis de uma comunidade inteira.
Agora a Rua Larga ficará diferente. A Capela de São Pedro sentirá falta de uma de suas mais antigas guardiãs. O Porto perderá uma de suas vozes mais doces. E Piúma se despedirá de uma mulher que ajudou a construir sua alma.
Aos 92 anos, dona Valdina encerra sua caminhada terrena deixando aquilo que realmente importa: lembranças boas, uma família honrada e o respeito de uma cidade inteira.
Talvez seja essa a verdadeira medida de uma vida bem vivida: partir e continuar presente.
Hoje, enquanto familiares e amigos se reúnem para a despedida, Piúma não chora apenas uma moradora. Chora uma parte da sua própria história.
Siga em paz, dona Valdina.
E obrigado por ter ajudado a transformar uma cidade em lar para tanta gente.
Que Deus conforte familiares e amigos neste momento de saudade.
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