Bolívia declara emergência nacional por seca do El Niño
A Bolívia declara emergência nacional para enfrentar os efeitos do fenômeno climático El Niño. O país sul-americano convive com secas severas e se prepara para o risco de inundações. A medida foi adotada em 31 de outubro pelo presidente Rodrigo Paz, por meio do Decreto Supremo 5.759.
Com a decisão, o governo pode mobilizar recursos humanos e econômicos com mais rapidez, reforçar as equipes de resgate e coordenar as ações com autoridades locais e organismos de cooperação internacional.
Bolívia declara emergência nacional com 114 mil famílias atingidas
Os números explicam a urgência. Segundo o Ministério da Defesa, a seca já afeta 114.048 famílias em 63 municípios, distribuídos por seis dos nove departamentos bolivianos. O levantamento cobre o período de 1º de junho a 29 de outubro de 2026.
Desse total, 78.217 famílias foram classificadas como afetadas, ou seja, sofreram impacto sem perda total dos meios de vida. As outras 35.831 são as danificadas, que perderam bens ou fontes de sustento.
O balanço também registra 1.486 comunidades atingidas e 167.511 hectares de cultivos afetados. Mais de 60 mil hectares foram dados como perdidos. Além disso, a estiagem matou 75.013 cabeças de gado, por falta de água e de forragem.
Não é a primeira vez que o país enfrenta uma seca severa. Em 2023, o nível do lago Titicaca, a maior reserva de água doce da América Latina, caiu perto do recorde histórico. Desta vez, o governo decidiu agir antes do pico do fenômeno.
“Diferente de outros anos, em que esperávamos o golpe do meio ambiente, assumimos uma decisão”, disse Paz em mensagem à nação. Ele pediu a cooperação de prefeituras, governos departamentais, Forças Armadas e Polícia.
Os departamentos mais afetados pela seca
O problema se concentra no altiplano e nos vales. Os departamentos mais atingidos são La Paz, Oruro, Potosí, Cochabamba, Chuquisaca, Tarija e Santa Cruz. Nessas regiões, a população depende de reservatórios e de chuva para o consumo e para a produção.
O cenário deve se dividir nos próximos meses. Enquanto parte do país enfrenta escassez de água, os llanos podem receber chuvas intensas, inundações e transbordamento de rios.
“Em uma parte do país pode faltar água enquanto em outra pode chegar demais. Os prognósticos não significam que todos esses desastres necessariamente vão ocorrer. São advertências que nos permitem nos preparar”, afirmou o ministro da Defesa, Ernesto Justiniano.
O que é o fenômeno El Niño
O El Niño é o aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico equatorial, somado ao enfraquecimento dos ventos alísios. Como resultado, ele altera o regime de chuvas em várias regiões do planeta, inclusive na América do Sul.
Na Bolívia, o efeito costuma aparecer dos dois lados: seca prolongada em algumas áreas e chuvas intensas em outras. Por isso, o decreto cita tanto a estiagem quanto o risco de inundações, geadas, granizo e incêndios florestais.
O texto declara emergência diante do “iminente risco” de eventos extremos associados ao El Niño 2026-2027. A recomendação partiu do Conselho Nacional para a Redução de Riscos e Atenção de Desastres, em resolução de 30 de outubro.
Um “super El Niño” no radar mundial
A preocupação não é só boliviana. A Organização Meteorológica Mundial alertou que o fenômeno pode alcançar níveis sem precedentes, com temperaturas do mar até 3,8 graus acima da média entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
A ONU chegou a apontar que este pode ser o El Niño mais forte dos últimos 40 anos. A temporada de chuvas na região costuma ir de novembro a março, justamente o período de maior exposição.
Os efeitos já aparecem em países vizinhos. No Equador, a cidade de Guayaquil, a mais populosa do país, ficou alagada duas vezes em poucos dias após uma tempestade forte.
O que esperar daqui para frente
A emergência nacional ativa um regime de exceção previsto na Lei 602 de Gestão de Riscos, de 2014. Na prática, o Estado pode remanejar orçamento e comprar ajuda sem os trâmites habituais, por um período de até nove meses.
O decreto, no entanto, não traz dinheiro novo. Os recursos dependem de linhas de crédito contingente que ainda estão em tramitação. A Bolívia tem um empréstimo desse tipo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, de até US$ 250 milhões, assinado em 2024 e ainda não utilizado.
A cooperação internacional também entra na equação. Organismos humanitários costumam reforçar o socorro quando há decreto dessa natureza, o que tende a acelerar a chegada de ajuda às famílias mais vulneráveis.
Há ainda um efeito econômico no radar. Segundo o Banco Mundial, episódios de seca como este costumam encarecer os alimentos, porque reduzem a produção no campo e encarecem o transporte.
Para os próximos meses, a expectativa é de acompanhamento diário das chuvas e dos reservatórios. A agenda climática segue no centro do debate na região, tema que também aparece em iniciativas como o Observatório dos ODS lançado no Rio de Janeiro.
Com informações de Vatican News e Agência EFE.
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