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Impunidade de jornalistas cresce: 6 em 7 crimes sem solução

Impunidade de jornalistas cresce: 6 em 7 crimes sem solução

Impunidade de jornalistas cresce: 6 em 7 crimes sem solução

A impunidade nos assassinatos de jornalistas voltou a crescer no mundo. Segundo relatório da Unesco divulgado nesta segunda-feira (2), Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, 86% dos casos permanecem sem solução, o equivalente a seis em cada sete mortes.

É a primeira alta desde 2012. A taxa de impunidade subiu de 85% para 86% e interrompe uma trajetória de queda de 14 anos, quando o índice atingia 95%. O avanço da violência em zonas de guerra explica o movimento.

A data foi instituída pela Assembleia Geral da ONU para lembrar os crimes contra profissionais de imprensa e cobrar resposta das autoridades. Desde 2006, a Unesco mantém um observatório de jornalistas assassinados, o que permite acompanhar a evolução da impunidade ao longo de quase duas décadas.

O período mais letal em uma década

O levantamento, publicado a cada dois anos, contabilizou 189 jornalistas, profissionais de imprensa e criadores de conteúdo mortos em 2024 e 2025, incluindo 14 mulheres. O número representa um aumento de 20% em relação ao biênio anterior e faz do período o mais letal para a imprensa na última década.

Desde 2006, 1.641 profissionais foram assassinados em todo o mundo. A média é de uma morte a cada quatro dias. Em muitos casos, as investigações não avançam e os responsáveis nunca são identificados.

O perfil das vítimas também mudou. Além dos correspondentes de guerra, o levantamento passou a incluir criadores de conteúdo que atuam em atividades jornalísticas, grupo exposto a riscos parecidos em regiões de conflito.

Guerras concentram as mortes

Do total de vítimas do último biênio, 127 (67%) foram mortas em zonas de conflito, nos Territórios Palestinos, no Iêmen e na Ucrânia. A proporção revela uma mudança na distribuição geográfica dos riscos enfrentados pelos profissionais.

Em 2025, o Estado da Palestina voltou a registrar o maior número de casos, com pelo menos 32 assassinatos. “É uma mudança importante no panorama mundial dos riscos para os jornalistas”, disse Mariya Gabriel, vice-diretora-geral de Comunicação e Informação da Unesco.

Ela destacou a dificuldade de responsabilizar os autores de crimes cometidos durante conflitos armados. Segundo a dirigente, as investigações e os processos ligados a assassinatos de jornalistas em zonas de guerra continuam especialmente insuficientes.

Entre as ameaças identificadas está o uso crescente de drones em ataques que matam jornalistas. Cinquenta profissionais morreram dessa maneira em 2024 e 2025, o equivalente a 40% das mortes em zonas de conflito e a cerca de 26% do total de assassinatos do período.

A organização também documentou sete episódios em que vários jornalistas foram alvos de um mesmo ataque, incluindo bombardeios contra locais de trabalho da imprensa e centros temporários de cobertura. Pelo menos 15 morreram usando coletes de identificação da imprensa ou dentro de veículos sinalizados.

O avanço fora das zonas de guerra

Nos países sem conflitos armados, a situação melhora. A impunidade caiu de 94% em 2012 para 77% em 2026, uma redução média de um ponto percentual por ano. O número de jornalistas mortos nessas regiões recuou para 85 no biênio, o menor patamar em 18 anos.

“Os jornalistas estão pagando cada vez mais com a própria vida por realizar a cobertura nas linhas de frente das guerras e, com demasiada frequência, os responsáveis por suas mortes não são responsabilizados”, afirmou o diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany.

Para a agência da ONU, os dados mostram que é possível avançar no combate à impunidade quando os governos investem em investigações, processos judiciais e medidas de proteção. Os ganhos fora dos conflitos, no entanto, não bastaram para segurar a alta global. Um caso recente que ilustra a pressão sobre a imprensa foi o encerramento das atividades do jornal russo Novaya Gazeta.

Mulheres jornalistas sob risco

Das 14 profissionais assassinadas em 2024 e 2025, 93% morreram durante a cobertura de conflitos. Embora representem uma parcela pequena do total de vítimas fatais, as mulheres seguem expostas a níveis desproporcionais de violência e assédio, tanto no ambiente digital quanto fora dele.

Um estudo de 2025 da ONU Mulheres e do Centro Internacional para Jornalistas apontou que 75% das mulheres jornalistas já sofreram algum tipo de abuso ou assédio. A proporção das que relataram violência física fora do ambiente digital como consequência de ataques virtuais mais que dobrou desde 2020, passando de 20% para mais de 40% em 2025.

O que esperar daqui para frente

Sem poder judicial, a Unesco atua pela pressão política e pelo acompanhamento dos casos. A agência cobra dos governos investigações efetivas e proteção aos profissionais que cobrem conflitos armados.

Os números da Unesco divergem em alguns pontos dos levantamentos da Comissão para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) e da Repórteres Sem Fronteiras (RSF). A organização atribui as diferenças à dificuldade de determinar as circunstâncias de certas mortes, sobretudo onde os conflitos seguem em curso.

Enquanto as guerras não terminam, a expectativa é de que a taxa global siga pressionada. O relatório será usado pela organização para cobrar compromissos de governos em fóruns internacionais nos próximos meses.

Com informações da Agência AFP / O Globo.

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