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Mansos, mas não de coração

Mansos, mas não de coração

Mansos, mas não de coração

“…e aprendei de mim, que sou dócil e humilde de coração”, declarou Jesus, o Inquestionável. Parece que não compreendemos as palavras do Cristo. Não demonstramos ser dóceis de coração (afinal, são mais de 40 mil homicídios registrados no Brasil a cada ano). Entretanto, nos tornamos dóceis em outra perspectiva: dóceis no orgulho. A docilidade, alimentada pela completa sensação de impotência diante do caos dos governos que se sucedem desde a chegada das caravelas, se manifesta como efeito previsível. Nem mesmo temos coragem de repetir a antiga crença de que o Brasil é o País do futuro. O que nos impede de atingir níveis de progresso vistos em países que admiramos se estende além da lamentável postura governamental. É crucial reconhecer até que ponto a sociedade é responsável por esse panorama. Os repetidos casos de corrupção envolvendo agentes públicos já não despertam indignação. Parece que sofremos uma espécie de lobotomia coletiva. E aqueles poucos que ainda mantêm suas faculdades mentais são exatamente aqueles que, sem escrúpulos, nos governam. Nunca foi tão fácil para um político de caráter duvidoso prosperar. Cada indivíduo, em sua bolha, é previamente absolvido de todos os pecados pelos eleitores. Em países que admiramos, por muito menos (muito menos mesmo), políticos corruptos são removidos do poder como células cancerígenas, a fim de não contaminar o restante. Aqui, aguardamos pela propagação desse mal. Caro leitor, convido-o a um exercício de imaginação: vá ao limite de seu otimismo e considere que, em outubro, todos os seus candidatos serão eleitos. Há espaço para acreditar que o País estará em melhor situação com os políticos que ajudou a eleger? É plausível esperar que ministros do STF, deputados e senadores envolvidos em fraudes, como a do Banco Master, sejam de fato punidos? Creio que consigo antecipar as respostas. Não basta apenas votar de forma consciente (etapa na qual ainda não alcançamos), é essencial abandonar essa “resignação pecaminosa” e exigir mecanismos legais para a rápida remoção de políticos – e de quaisquer outros agentes públicos – em casos de corrupção. Um grande amigo costuma dizer que não alcançamos o desenvolvimento porque escolhemos permanecer atrasados. Ele está absolutamente certo. E o que nos mantém nesse atraso é, sem dúvida, a nossa passividade diante do cenário atual. 

*Coronel da PM, advogado e escritor.