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30% dos municípios não têm plano contra desastres climáticos

30% dos municípios não têm plano contra desastres climáticos

30% dos municípios não têm plano contra desastres climáticos

Pelo menos 30% dos municípios brasileiros não têm plano de contingência para enfrentar desastres climáticos, como inundações, secas severas e tempestades. Além disso, 37% das cidades não dispõem de sistema próprio de alerta. Os dados saem de um estudo da Agência Fapesp publicado neste sábado (24) pelo Poder360.

A pesquisa ouviu 2.289 prefeituras, o equivalente a 41% dos 5.570 municípios do país. Os cientistas criaram uma metodologia inédita para medir a capacidade local de implementar sistemas de alerta precoce multiameaças, seguindo parâmetros da iniciativa Early Warnings for All, das Nações Unidas.

O que o levantamento sobre desastres climáticos mediu

Os pesquisadores avaliaram sete aspectos principais. Entraram na conta o tamanho e a estrutura da equipe da Defesa Civil, o orçamento do órgão, a capacidade de mapear áreas de risco e as estratégias de comunicação com a população.

O estudo também mediu a participação da sociedade, a governança geral do sistema de alerta e a infraestrutura tecnológica para prever o clima. Nesse último item, os cientistas olharam o curto prazo, de até dez dias, e o médio prazo, de dez a 30 dias.

Menos de 8% tem plano para ondas de calor

Em meio aos alertas de especialistas sobre o El Niño, outro dado chama atenção: menos de 8% dos municípios têm plano de contingência para ondas de calor. As projeções para o El Niño 2026-2027 indicam que o aumento da temperatura do oceano Pacífico deve passar de 3 graus Celsius no pico, acima do maior registro de 2015.

Como resultado, os reflexos podem ir de chuvas intensas no Sul a secas extremas no Norte e no Nordeste, com altas temperaturas em vários estados.

Equipes pequenas e sem experiência na Defesa Civil

O levantamento identificou pouco mais de 13.500 agentes de Defesa Civil nos municípios que responderam. O tamanho das equipes, porém, é desigual: 22% dos órgãos municipais têm um único agente, 16% têm dois integrantes e 35% empregam entre três e cinco pessoas.

Além disso, um quarto dos que responderam informou ter menos de um ano de experiência na área. A rotatividade alta aparece como um obstáculo a mais para quem precisa manter mapa de risco atualizado e alerta funcionando.

Mapas de risco e cartas geotécnicas

A Lei Nacional de Proteção e Defesa Civil, de 2012, atribuiu aos municípios a responsabilidade pela elaboração de mapas de risco. O estudo mostrou, no entanto, que 25% das cidades nem sequer dispõem desse tipo de mapeamento, embora 57% afirmem usar o instrumento.

Quando o assunto são ferramentas de prevenção, como as cartas geotécnicas de aptidão à urbanização, apenas 14% das cidades informaram usá-las. Esses documentos indicam zonas mais ou menos apropriadas para construção e ocupação urbana.

O que diz o pesquisador do Cemaden

“Os municípios precisam ter capacidade para implementar seus próprios sistemas de alerta usando as informações já disponíveis”, afirma o sociólogo Victor Marchezini, pesquisador do Cemaden e coordenador do trabalho.

Para ele, as administrações locais conhecem os problemas dos bairros e deveriam ter contato direto com a população. “Às vezes, as pessoas recebem um alerta emitido pelo Estado para procurar um lugar seguro e não sabem qual é”, diz.

Marchezini aponta ainda que equipes pequenas, sem experiência e com alta rotatividade acumulam funções. “Infelizmente, o que ainda impera no Brasil é a cultura do improviso”, avalia.

Histórico recente de desastres no Brasil

Outro estudo assinado pelo pesquisador mostra que nove em cada dez cidades brasileiras já enfrentaram desastres climáticos nas últimas três décadas. Somente em 2024 e 2025 foram cerca de 8.900 registros no país, liderados por estiagens e secas (2.700) e chuvas intensas (2.400).

Esses eventos afetaram pelo menos 24,7 milhões de pessoas no período, com mais de 1,5 milhão de desalojados e desabrigados. A pesquisa também revelou que quase um quarto dos municípios não adota nenhuma medida de apoio às famílias que vivem nas áreas de maior risco.

A participação social segue baixa: apenas 6,4% dos municípios relataram que a população participa com frequência de atividades de defesa civil. Havia ainda uma contradição curiosa, porque 69% classificaram como alta ou média a própria capacidade de emitir avisos, mas só 32% relataram usar um sistema de alerta.

Onde entra a Defesa Civil de cada cidade

Na prática, muitos municípios podem estar usando canais informais, como redes sociais, grupos de WhatsApp e rádio. Os pesquisadores defendem a adoção de canais oficiais de notificação.

Hoje o Brasil conta com a Interface de Divulgação de Alertas Públicos. A partir do cadastro no sistema, as defesas civis estaduais e municipais enviam alertas por SMS, TV por assinatura e outras redes. A ferramenta passou por reformulações neste ano para aumentar a segurança depois de um ataque hacker.

No estado de São Paulo, o tema já entrou na agenda do verão. Cidades da Grande SP anteciparam planos de prevenção, como no caso da Operação Chuvas de Verão em Santo André.

O que esperar daqui para frente

O grupo de pesquisa vai agora destrinchar os resultados por região do país e por porte de município. A partir dessa análise, pretende realizar rodadas de troca de informações com as administrações locais e coproduzir propostas para fortalecer a prevenção.

A metodologia desenvolvida para medir a capacidade de implementação dos sistemas deve ser aplicada novamente. O objetivo é monitorar, ao longo do tempo, os avanços das medidas adotadas pelos municípios.

Com informações do Poder360 (poder360.com.br)

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