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Piso paulista: 60 anos e risco de desaparecer em SP

Piso paulista: 60 anos e risco de desaparecer em SP

Piso paulista: 60 anos e risco de desaparecer em SP

O piso paulista completou 60 anos em abril de 2026, mas o desenho que se tornou marca das calçadas de São Paulo corre risco de desaparecer. Criado pela artista Mirthes Bernardes, o pavimento reproduz o contorno do estado e segue sem proteção legal.

O padrão nasceu nos anos 1960 e se espalhou por ruas, praças e até casas. Hoje, porém, perde espaço para revestimentos mais baratos e não conta com programa de preservação ou restauro.

Piso paulista: 60 anos e risco de desaparecer em SP

O que é o piso paulista

O piso paulista é um revestimento de calçada que reproduz o mapa do estado de São Paulo. O desenho virou parte da identidade visual da capital e aparece em bairros de todas as regiões.

A criação completou seis décadas em abril. Mesmo assim, não existe levantamento público que liste todos os endereços onde o padrão ainda está preservado.

Quem foi Mirthes Bernardes

Mirthes Bernardes era o nome artístico de Mirtes dos Santos Pinto. Ela morreu em 2020, aos 86 anos, sem receber o reconhecimento público proporcional à popularidade da própria criação.

A artista também nunca foi compensada financeiramente pelo uso do desenho, que se multiplicou pelas calçadas da cidade nas décadas seguintes.

A história do piso começou na gestão do prefeito José Vicente Faria Lima, que administrou São Paulo entre 1965 e 1969. A proposta era criar uma identidade visual própria para a capital.

A inspiração no calçadão de Copacabana

Segundo Pablo Figueiredo, mestre em Design pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP, a escolha das calçadas fazia parte de um projeto de modernização da imagem da capital.

Em meio à rivalidade histórica entre São Paulo e Rio de Janeiro, a iniciativa foi apresentada como resposta paulista ao famoso calçadão de Copacabana.

“Desde as primeiras manifestações do prefeito Faria Lima, o calçadão foi citado como referência”, afirma o pesquisador.

A comparação, no entanto, revela uma diferença importante. O calçamento de Copacabana, redesenhado pelo paisagista Roberto Burle Marx, recebeu proteção patrimonial. O piso paulista permanece sem tombamento.

Da pedra portuguesa ao ladrilho hidráulico

Na versão original, o piso paulista era feito com pedra portuguesa. Depois, ganhou uma versão em ladrilho hidráulico, mais barata e que se popularizou nas calçadas e nas residências.

“Na versão de ladrilho hidráulico, muitas residências também passaram a adotá-lo, porque a pedra portuguesa é um revestimento mais caro, principalmente pela instalação”, explica Pablo.

Durante a primeira gestão do prefeito Paulo Maluf, entre 1969 e 1971, parte das calçadas de pedra portuguesa recém-instaladas foi retirada. A prefeitura alegou que as pedras se soltavam com facilidade e exigiam manutenção complexa.

Também foram apontados problemas de acessibilidade e o risco de o revestimento prender e quebrar saltos altos.

Por que o piso paulista corre risco

As normas atuais de acessibilidade exigem superfícies regulares, firmes e estáveis. Em princípio, a pedra portuguesa e o ladrilho hidráulico podem atender a essas exigências, desde que sejam bem instalados e conservados.

O problema é que a realidade das ruas nem sempre acompanha as normas. Em diferentes pontos da capital, há calçadas com ladrilhos soltos, quebrados ou ausentes.

Essas condições dificultam a circulação dos pedestres e criam obstáculos para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. A falta de manutenção também interrompe o desenho original em muitos trechos.

Para Pablo Figueiredo, o risco de extinção é real. A versão original em pedra portuguesa praticamente desapareceu, e a de ladrilho hidráulico enfrenta a substituição por outros materiais.

“O padrão adaptado em ladrilho hidráulico ainda é amplamente difundido em São Paulo, mas nota-se uma tendência contrária à sua expansão e preservação. O risco de extinção existe”, afirma.

Sem tombamento, não há preservação

O piso paulista não é tombado como patrimônio cultural. A informação foi confirmada pela Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, por meio do Departamento do Patrimônio Histórico.

“A Secretaria informa que o piso em questão não é tombado como patrimônio cultural. Também não há processo ou pedido específico de tombamento. Por isso, atualmente não existe programa específico de preservação ou restauro”, diz a nota.

A falta de política de incentivo também aparece em outras frentes da cidade, como mostram os problemas de conservação registrados em obras irregulares na Vila Carrão.

O peso do custo para o proprietário

Um dos principais obstáculos à conservação é o custo. Em São Paulo, a manutenção das calçadas é, em regra, responsabilidade dos proprietários dos imóveis, que também precisam seguir as normas municipais de acessibilidade.

Nesse cenário, o concreto se tornou alternativa mais simples e econômica.

“O piso de concreto liso acaba sendo a opção padrão. Ele atende às diretrizes municipais de acessibilidade com menor custo de instalação e conservação”, afirma Pablo.

Sem políticas específicas de incentivo, a continuidade do desenho depende da decisão dos proprietários e da iniciativa do poder público em novas obras e reformas.

O que esperar daqui para frente

A substituição gradual do piso representa a perda de um elemento que ajudou a construir a identidade visual de São Paulo. O desenho segue presente em várias regiões, mas sem proteção formal.

Sem tombamento e sem programa de restauro, o futuro do piso paulista depende de duas frentes. De um lado, a escolha dos proprietários na hora de reformar a calçada. Do outro, a decisão do poder público de usar o padrão em novas obras.

Enquanto isso, o desenho completa 60 anos sem reconhecimento oficial e sem registro público de onde ainda resiste.

Com informações de g1.

RedeBrasil

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